edição #14 · 01 de agosto de 2026 · edição especial
Mas… e o Espírito?
Se você é daqueles que dizem que quando ele crescer ele escolhe, sinto informar: esse espaço não fica vazio esperando a decisão dele.
Semana passada eu contei que ele chegou depois de 352 dias. Hoje eu quero contar de um domingo, e esse é dos bons.
Meu filho mais velho está em casa. Domingo a gente foi à missa junto e comungou lado a lado. Sem conversa profunda antes, sem discurso depois, sem aquele momento de pai querendo aproveitar a deixa pra passar lição. Mesma fila, mesmo gesto, os dois calados.
Saí de lá leve. Alegre feito criança.
E não é saudade nem pai emocionado com filho crescido. É melhor que isso: ninguém pediu pra ele estar ali. Ele mora do outro lado do oceano, decide a própria agenda, faz o que quiser com o domingo dele. Aquilo continuou sendo dele depois que eu perdi qualquer controle sobre a rotina do meu filho.
Isso é festa. E é sobre como se constrói uma festa dessas que eu quero falar.
Cinco frentes e uma linha em branco
Olha a semana do seu filho.
Preparador físico duas ou três vezes. Treino técnico quase todo dia. Trabalho tático antes do torneio. Nutricionista, porque hoje virou padrão. E psicólogo do esporte, que dez anos atrás era coisa de profissional e hoje está na conta de muita família de categoria 12 e 14.
Cinco frentes, cinco profissionais cuidando do seu filho por semana. Isso é bonito. Nunca uma geração de pais cuidou tanto.
E aí tem a sexta linha, que na maioria das casas de atleta está em branco. A do espírito.
Ela é a única sem profissional, sem mensalidade, sem hora marcada e sem ninguém cobrando presença. As outras cinco acontecem porque estão na agenda. Essa fica de fora porque não está.
”Quando ele crescer, ele escolhe”
Essa é a frase que eu mais ouço quando o assunto aparece na beira da quadra. Vem com cara de respeito, de pai moderno que não impõe nada.
Sinto informar: não funciona assim.
A gente não aplica esse critério a mais nada. Ninguém espera o moleque crescer pra decidir se quer estudar, se come verdura ou vive de bolacha, se aprende inglês, se toma vacina, se vai no treino da quinta. A gente decide tudo isso sem cerimônia, porque criança não tem repertório pra escolher sozinha o que vai formar a vida dela. Só uma linha da planilha ganha esse tratamento de neutralidade, justo a que trata do que o filho vai ser por dentro.
E tem o principal: espaço vazio não fica vazio. Ele não espera de braços cruzados a maioridade do seu filho chegar. Ele é ocupado, e muito mais rápido do que você imagina.
Pelo mundo. Sem hora marcada, sem mensalidade e sem pedir licença.
O celular fala com ele quatro horas por dia e ensina o que é vida boa. O grupo ensina o que é normal, e o critério é o mais debochado da roda. O ranking ensina, toda semana, que ele vale o que entregou. O adulto errado ensina que vale tudo se der resultado.
E isso é só a parte mansa. Se você não ensina o caminho de Deus, o espaço não fica vazio esperando: o mundo ocupa, e ocupa com o que ele tem de mais perigoso. A droga, o álcool, a sexualidade fora de hora.
Nada disso se apresenta como perigo, e é aí que mora o problema. Chega com cara de liberdade, na voz de alguém que o seu filho admira, num fim de festa, numa viagem de equipe, numa noite longe de casa. Quem não tem régua usa a do grupo.
Nenhum deles está esperando o seu filho fazer dezoito pra escolher com calma.
O que isso faz num moleque de quadra
O esporte de resultado é honesto sobre a regra dele: você vale o que entrega. E criança não separa as coisas como a gente separa. Ela não escuta “meu tênis está ruim esse mês”. Ela escuta “eu estou pior”.
A formação espiritual é o único lugar da vida do seu filho que diz o contrário. Que ele vale por existir, e que o valor dele não vai embora com a derrota porque nunca esteve no troféu. Nenhum técnico bom no mundo diz isso com autoridade, porque o trabalho do técnico é medir o que ele entregou.
Tem a régua, também. Os mandamentos, a lei, os preceitos, o nome muda conforme a fé de cada um. Uma régua acima do pai e acima do técnico. Isso dá ao seu filho argumento pra dizer não pro treinador que passa do ponto e pro amigo que oferece atalho. Protege ele do mundo e protege ele da gente, nos dias em que a gente perde a mão.
E tem a paz, que é a palavra que mais falta em casa de atleta. Quem sabe onde é o chão joga mais solto, não menos. Perde o medo de perder, que é o que mais trava talento nessa idade.
O convite
Acha um dia na semana. Um só. E reserva ele com a mesma alegria com que a sua casa reserva a preparação física da quinta, aquela que ninguém aí cogita desmarcar.
O endereço muda conforme a fé de cada um, e a informação está sempre a uma pergunta de distância. Na paróquia e na comunidade cristã, a catequese, o encontro, o grupo de jovens e o culto de meio de semana quase sempre acontecem em dia útil, à noite. Justamente o horário em que não tem torneio nenhum acontecendo no Brasil inteiro.
E ensinar o filho, no dia que for, na língua que a sua fé usar, que o amor a Deus e a obediência aos mandamentos trazem uma paz que resultado nenhum traz. Que é ali que está o verdadeiro tesouro. Não no armário de troféus da sala.
Porque onde estiver o seu tesouro, ali estará também o seu coração. E filho descobre onde o pai guarda o dele muito antes da conversa acontecer.
O que fica
Tudo que a gente monta na estrutura de um filho atleta tem prazo de validade. O corpo, um dia, é responsabilidade dele. O psicólogo, um dia, é escolha dele.
O que não tem prazo é o que virou dele por dentro. Ninguém coloca isso na mala, e ninguém tira depois.
Por isso aquele domingo me deixou tão contente. Não foi um pai levando um menino à missa. Foi um homem de dezoito anos, dono da própria agenda, sentando do meu lado por vontade própria.
Escrevi o texto completo no blog, com a parte que não cabia aqui: por que essa hora é a parte leve da semana, e não mais uma frente de cobrança em cima de um moleque que já é avaliado no físico, no técnico e na cabeça.
Fica o convite pra essa semana. Com alegria e sem peso, que é o jeito certo de fazer.
Boa semana, Eder
a leitura desta edição
Todo domingo é dia de torneio. Mas e o Dia do Senhor?
Físico, técnico, psicólogo, nutrição. E o espírito dele? Se você diz que quando ele crescer ele escolhe, sinto informar: o mundo não espera.
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