O Thomas chegou na quinta à noite.
Trezentos e cinquenta e dois dias sem ver meu filho. Treze a menos que um ano inteiro.
Eu não contei esses dias enquanto eles passavam. Ninguém conta. A conta a gente faz depois, quando alguém pergunta quanto tempo faz e o número sai maior do que devia.
Ele fica dez dias. Depois volta pra Espanha.
A parte que ninguém conta no começo
Boa parte de quem está lendo isso trabalha hoje pra que o filho chegue exatamente onde o meu chegou. O treino de manhã, a viagem de fim de semana, a mensalidade que aperta, a conversa com o técnico sobre o próximo passo, a academia lá fora que um dia pode abrir uma porta pra ele.
A gente fala desse objetivo o tempo todo. Ninguém fala da segunda metade dele.
O sonho tem endereço, e o endereço é longe.
Se der certo do jeito que você está pedindo, ele vai embora. Isso não é o que acontece quando dá errado. É o que acontece quando dá certo. Você está trabalhando todo dia pra que o seu filho tenha condição de morar longe de você.
Levei tempo pra entender que isso não é o preço do sucesso. Isso é o sucesso. No esporte, quem vai longe vai pra longe.
O que são 352 dias, na prática
Não é drama. É logística, e é por isso que passa despercebido.
É o fuso que rouba o melhor horário dos dois. É a chamada de vídeo marcada e desmarcada porque o treino atrasou. É o áudio que você grava de manhã e ele escuta à noite. E é o que ninguém tem coragem de dizer em voz alta: com o tempo, as ligações vão ficando mais curtas.
Isso assusta qualquer pai na primeira vez. Mas ligação curta não é sinal de afastamento. É sinal de que ele tem o que fazer, de que a vida dele acontece ali, de que tem um dia inteiro esperando por ele depois que a gente desliga. Uma ligação de quarenta minutos, todo santo dia, com um filho de dezoito anos do outro lado do oceano, não seria carinho. Seria sintoma.
A conta que fecha
Vi um vídeo do Clóvis de Barros Filho essa semana, sobre confiança, e tem uma frase ali que me pegou numa hora muito específica: toda autoconfiança é emprestada. Ninguém nasce com ela. Alguém precisa acreditar em você antes de existir qualquer prova, e só muito depois essa confiança passa a ser sua.
Nenhum moleque atravessa o Atlântico e monta uma vida sozinho só com o que construiu por conta própria. Ele atravessa com o que emprestaram pra ele lá atrás, quando não tinha ranking nenhum pra mostrar e o mundo inteiro tinha motivo técnico pra não apostar nele.
Aquele empréstimo virou confiança dele. E o comprovante de que funcionou é o mais difícil de comemorar: meu filho não precisa mais de mim do jeito que precisava.
Mesmo assim ele pegou um avião pra passar dez dias em casa. Ninguém obrigou. Aos dezoito, com a vida inteira acontecendo lá, ele escolheu vir.
Isso vale mais do que qualquer troféu que ele tenha levantado.
Nada de especial, e é de propósito.
Não vou transformar dez dias em projeto. Não vou fazer entrevista sobre a temporada, não vou usar o café da manhã pra falar de planejamento, não vou tentar recuperar 352 dias em conversa profunda. Quem corre atrás do tempo perdido costuma estragar o tempo que tem.
Vou deixar ele dormir até a hora que quiser. Vou deixar ele ficar no sofá com os irmãos, sem fazer nada. E vou tentar ser, nesses dez dias, o que o pai do Clóvis foi a vida inteira: o cara que está do lado, sem cobrar nada em troca.
O texto que eu escrevi sobre esse vídeo está no blog. Ele é sobre a hora em que ninguém aposta no seu filho, e sobre a diferença entre apostar e cobrar, que é o que mais estraga pai de atleta bom.
Semana que vem ele embarca de volta e a contagem começa do zero outra vez. Dessa vez eu vou saber que estou contando.
Boa semana,
Eder