01 de agosto de 2026 · 9 min de leitura
Todo domingo é dia de torneio. Mas e o Dia do Senhor?
Físico, técnico, psicólogo, nutrição. E o espírito dele? Se você diz que quando ele crescer ele escolhe, sinto informar: o mundo não espera.
por Eder Miranda
Domingo de manhã, cinco e meia. Alarme antes do sol. Uniforme separado na noite anterior, garrafa gelada, banana, gelo na bolsa térmica, tanque cheio desde sexta pra não perder tempo. Duas horas de estrada porque a chave saiu com o jogo cedo. Você chega, monta o guarda sol, encontra os mesmos pais de sempre e sabe de cor onde fica o banheiro daquele clube.
A gente conhece essa manhã inteirinha.
Esse domingo o meu foi diferente e eu quero começar por ele, porque foi a melhor coisa que aconteceu comigo essa semana.
Meu filho mais velho está em casa. Domingo a gente foi à missa junto e comungou lado a lado. Sem conversa profunda antes, sem discurso depois, sem aquele momento de pai querendo aproveitar a deixa pra passar lição. Mesma fila, mesmo gesto, os dois calados.
Saí de lá leve. Alegre feito criança, pra falar a verdade.
E não é saudade, não é nostalgia, não é pai emocionado com filho crescido. É outra coisa, e ela é bem mais interessante: ninguém pediu pra ele estar ali. Ele mora do outro lado do oceano, decide a própria agenda, faz o que quiser com o domingo dele. Aquilo continuou sendo dele depois que eu perdi qualquer controle sobre a rotina do meu filho.
Isso é festa. E é sobre como se constrói uma festa dessas que eu quero falar.
A planilha tem cinco frentes e uma linha em branco
Olha a semana do seu filho.
Preparador físico duas ou três vezes. Treino técnico quase todo dia. Trabalho tático com o técnico antes do torneio. Nutricionista, porque hoje virou padrão. E psicólogo do esporte, que dez anos atrás era coisa de profissional e hoje está na conta de muita família de categoria 12 e 14.
Cinco frentes. Cinco profissionais cuidando do seu filho por semana. Isso é bonito, diga se de passagem. Nunca uma geração de pais cuidou tanto.
E aí tem a sexta linha, que na maioria das casas de atleta está em branco. A do espírito.
Ela é a única sem profissional, sem mensalidade, sem hora marcada e sem ninguém cobrando presença. As outras cinco acontecem porque estão na agenda. Essa fica de fora porque não está.
O que não tem hora marcada não acontece. Vale pro treino de saque e vale pra tudo.
”Quando ele crescer, ele escolhe”
Aqui está a frase que eu ouço mais que qualquer outra quando esse assunto aparece na beira da quadra. Ela vem com cara de sabedoria, de respeito, de pai moderno que não impõe nada.
Sinto informar: não é bem assim que funciona.
Primeiro porque a gente não aplica esse critério a mais nada. Ninguém espera o moleque crescer pra ele decidir se quer estudar. Ninguém espera ele fazer dezoito pra escolher se come verdura ou vive de bolacha. A escolha do inglês não é dele, a da vacina não é dele, a do horário de dormir não é dele, a do treino da quinta muito menos. A gente decide tudo isso sem cerimônia nenhuma, porque criança não tem repertório pra decidir sozinha o que vai formar a vida dela.
Só uma linha da planilha recebe esse tratamento de neutralidade. Justo a que trata do que o filho vai ser por dentro.
E segundo, que é o que interessa de verdade: espaço vazio não fica vazio. Ele não espera de braços cruzados a maioridade do seu filho chegar. Ele é ocupado, e é ocupado bem mais rápido do que você imagina.
Ocupado por quem? Pelo mundo. Sem hora marcada, sem mensalidade e sem pedir licença.
O celular fala com o seu filho quatro horas por dia e ensina o que é vida boa. O grupo ensina o que é normal, e o critério é o mais debochado da roda. O ranking ensina, semana após semana, que ele vale exatamente o que entregou. O adulto errado ensina que tudo vale se der resultado.
E isso é só a parte mansa. Se você não ensina o caminho de Deus, o espaço não fica vazio esperando: o mundo ocupa, e ocupa com o que ele tem de mais perigoso. A droga, o álcool, a sexualidade fora de hora.
Nada disso se apresenta como perigo, e é aí que mora o problema. Chega com cara de liberdade, na voz de alguém que o seu filho admira, num fim de festa, numa viagem de equipe, numa noite em que ele está longe de casa e não tem régua nenhuma pra usar. Quem não tem régua usa a do grupo.
Nenhum deles está esperando o seu filho fazer dezoito pra depois escolher com calma. O vácuo é preenchido. Sempre. A única pergunta é por quem.
O que a fé faz num moleque de quadra
O esporte de resultado é honesto sobre a regra dele: você vale o que você entrega. O ranking coloca em número e atualiza toda semana. Isso não é defeito, é o esporte funcionando, e é por isso que ele ensina disciplina e coragem como poucas coisas na vida de uma criança.
O problema é quando essa é a única régua que o seu filho conhece. Porque criança não separa as coisas do jeito que a gente separa. Ela não escuta “meu tênis está ruim esse mês”. Ela escuta “eu estou pior”.
A formação espiritual é o único lugar da vida do seu filho que diz o contrário. Que ele vale por existir. Que o valor dele não estava no troféu e por isso não vai embora com a derrota. Nenhum técnico bom no mundo consegue dizer isso com autoridade, porque o trabalho do técnico é justamente medir o que ele entregou.
Tem a régua, também. Os mandamentos, a lei, os preceitos, o nome muda conforme a fé de cada um. Não mente, não pega o que não é seu, honra teu pai e tua mãe, não faz com o outro o que você não quer pra você. Repara no que isso significa dentro de uma casa de atleta: existe uma régua acima do pai e acima do técnico. Certo e errado não são o que o adulto mais forte decidiu naquele dia.
Um moleque formado assim tem argumento pra dizer não pro treinador que passa do ponto, pro amigo que oferece atalho, pro adulto que ensina que vale tudo. Isso protege ele do mundo e protege ele de nós também, nos dias em que a gente perde a mão.
E tem a paz, que é a palavra que mais falta em casa de atleta. Não é anestesia nem conformismo. É saber onde é o chão quando a temporada dá errado, quando a lesão vem, quando ele chega em último. Quem sabe onde é o chão joga mais solto, não menos. Perde o medo de perder, que é o que mais trava talento nessa idade.
O convite
Acha um dia na semana. Um só. E reserva ele com a mesma alegria com que a sua casa reserva a preparação física da quinta, aquela que ninguém aí cogita desmarcar.
O endereço muda conforme a fé de cada um, e a informação está sempre a uma pergunta de distância. Na paróquia e na comunidade cristã, a catequese, o encontro, o grupo de jovens e o culto de meio de semana quase sempre acontecem em dia útil, à noite. Que é justamente o horário em que não tem torneio nenhum acontecendo no Brasil inteiro.
E ensinar o filho, no dia que for, na língua que a sua fé usar, que o amor a Deus e a obediência aos mandamentos trazem uma paz que resultado nenhum traz. Que é ali que está o verdadeiro tesouro. Não no armário de troféus da sala.
Porque onde estiver o seu tesouro, ali estará também o seu coração. E filho descobre onde o pai guarda o dele muito antes da conversa acontecer.
E isso é a parte leve da semana
Vale dizer o que essa hora não é, porque pai de atleta tem um talento raro pra transformar coisa boa em planilha.
Não é frente de rendimento. No dia em que a fé entrar na conta como ferramenta pra jogar melhor, acabou a graça. O moleque já é medido no físico, no técnico e na cabeça. Medir ele também na alma não sobra um centímetro dele fora de avaliação.
Não é castigo, não é moeda de troca, não é o “se não for, não tem torneio”. Isso é a parte boa da semana, o pedaço sem cronômetro. Com cara de punição, ensina o contrário do que queria ensinar.
E funciona quando o pai vai junto, não quando o pai manda ir. A criança aprende que aquilo importa pelo que ela vê, e o que ela vê é o pai sentado do lado dela.
Ir junto, sentar do lado e ficar calado. É a mesma coisa que eu escrevo sobre a derrota no livro e é a mesma coisa aqui: quase tudo que funciona com filho é presença, sem discurso em cima.
O que fica
A gente prepara o corpo dele até uma certa idade, e depois o corpo é responsabilidade dele. Paga o psicólogo enquanto ele mora em casa, e depois é escolha dele. Tudo que a gente monta na estrutura de um filho atleta tem prazo de validade.
O que não tem prazo é o que virou dele por dentro. Isso ninguém coloca na mala, e ninguém tira depois.
É por isso que aquele domingo me deixou tão contente. Não foi um pai levando um menino à missa. Foi um homem de dezoito anos, dono da própria agenda, sentando do meu lado por vontade própria.
Aquela linha da planilha, um dia, deixou de ser minha e virou dele.
Fica o convite pra essa semana. Com alegria e sem peso, que é o jeito certo de fazer. É a única frente desse nosso trabalho de pai que continua de pé muito tempo depois que o último torneio acabar.
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