24 de maio de 2026 · 7 min de leitura
Sinner tem razão: respeito no esporte começa em casa
Jannik Sinner cobrou respeito nos Grand Slams. Eu ouvi e pensei nos torneios juvenis do meu filho. O respeito que falta no topo começa a faltar embaixo, com a gente.
por Eder Miranda
Jannik Sinner disse publicamente que os jogadores não se sentem respeitados nos Grand Slams. Ele falou sobre premiação, sobre a disparidade entre o que os torneios faturam e o que distribuem para quem joga. A declaração gerou debate no circuito, virou notícia, e todo mundo rapidamente tomou lado: uns acharam que ele tem razão, outros disseram que atleta milionário não tem do que reclamar.
Eu ouvi a notícia e fui para um lugar completamente diferente. Não fiquei pensando em dinheiro nem em política do esporte profissional. Fiquei pensando em uma cena que eu vivi, ou melhor, em uma cena que eu protagonizei do jeito errado. Meu filho mais velho saindo de quadra depois de uma derrota, ainda respirando forte, e eu já abrindo a boca para falar do que tinha falhado. Não do que ele tinha tentado. Do que tinha falhado.
O Sinner fala de Grand Slams. Eu estou falando de uma quadra de torneio juvenil, mas a lógica é exatamente a mesma. Quando o sistema, seja ele o circuito profissional ou a família, só enxerga resultado e ignora esforço, a mensagem que chega é clara: você não é suficiente enquanto não vencer. E essa mensagem destrói atletas. Destrói crianças antes de elas virarem atletas.
Eu já fui esse pai. Preciso começar por aí.
O que Sinner está pedindo, no fundo
A declaração de Sinner não foi sobre ganância. Foi sobre reconhecimento. Ele disse, em essência, que quem joga no mais alto nível do tênis não sente que o esporte os trata como parte central do negócio. Eles são o produto e ao mesmo tempo os menos ouvidos na mesa de decisão.
“Respeito não é só dinheiro. É ser visto. É ter o esforço reconhecido por quem depende dele.”
Isso ressoa muito além do circuito profissional porque é uma necessidade humana básica. A criança de oito anos que acorda cedo no sábado, que enfrenta o nervosismo do aquecimento, que vai pra quadra e joga o melhor tênis que ela sabe jogar naquele momento da vida, ela também precisa ser vista. Não pelo placar. Pelo esforço de estar ali.
O problema é que pais, na maioria das vezes, entramos em quadra junto. Mentalmente. Sentimos a derrota como nossa, ficamos tensos com os erros como se fossem nossos, e quando a partida termina, a nossa ansiedade de pai vira análise técnica que ninguém pediu.
O que eu fazia que não devia
Vou ser direto sobre os padrões que eu reconheço em mim e que vejo repetidos em outros pais nas arquibancadas:
- Começar pelo erro antes de reconhecer o esforço. A criança ainda está processando o que aconteceu e a primeira frase já é um diagnóstico do que falhou.
- Comparar com o adversário. “Você viu como ele se movimentava?” Como se o filho não tivesse acabado de fazer a mesma coisa por dois sets.
- Silêncio punitivo. O carro de volta pra casa em silêncio total, que fala mais alto do que qualquer crítica. A criança sabe exatamente o que aquele silêncio significa.
- Condicionar o afeto ao desempenho. Não explicitamente. Mas o tom de voz muda. A animação muda. E eles percebem.
- Transformar cada torneio em aula. O momento logo após a partida não é hora de ensinar. É hora de estar presente.
Nenhum desses comportamentos é maldade. São ansiedade, expectativa mal direcionada e confusão entre apoio e cobrança. Mas o efeito na criança é o mesmo: a mensagem de que o esforço dela não foi suficiente.
Respeito como prática diária, não como discurso
Quando Sinner fala que os jogadores não se sentem respeitados, ele está descrevendo um ambiente onde a contribuição deles é tomada como garantida. O torneio acontece porque eles jogam. O produto existe porque eles aparecem. E ainda assim, a sensação é de que poderiam ser substituídos, ignorados, pressionados sem direito a resposta.
No esporte infantil, a dinâmica é diferente em escala, mas idêntica em estrutura. A criança aparece, treina, compete, se expõe emocionalmente em público, e o pai, que deveria ser o maior aliado, muitas vezes opera como o avaliador mais implacável da mesa.
Respeitá-la como atleta significa algumas coisas bem concretas:
- Deixar o silêncio trabalhar depois da partida. Não toda derrota precisa de conversa imediata. Às vezes a criança precisa só de presença.
- Separar o que é seu do que é dela. Sua frustração com o resultado é sua, não dela. Processar isso antes de abrir a boca.
- Nomear o que você viu de positivo primeiro, sempre. Não como elogio vazio, mas como observação real. “Eu vi você correr atrás daquele ponto no segundo set” é uma frase que custa nada e significa muito.
- Perguntar antes de falar. “Como você se sentiu com o jogo de hoje?” abre um espaço que a análise técnica fecha.
- Lembrar por que ela começou. A maioria das crianças começou porque gostava. O dia em que isso mudar tem que vir dela, não da pressão acumulada de anos de cobrança.
“O pai que aprende a respeitar o esforço antes do resultado está ensinando algo que vai muito além do esporte.”
O circuito começa em casa
Sinner está certo ao cobrar respeito no topo. Mas o topo é só o reflexo do que foi construído embaixo. Se a cultura do esporte não respeita o atleta, é porque em algum momento, lá atrás, os ambientes mais próximos desse atleta também não respeitaram.
Eu não sei o que aconteceu na infância esportiva de cada profissional que um dia se sentiu descartado pelo próprio esporte. Mas sei o que eu vi em quadras juvenis, e sei o que eu mesmo fiz em momentos que gostaria de ter feito diferente. O padrão se repete: foco em resultado, ausência de reconhecimento, pressão disfarçada de incentivo.
A mudança não precisa ser dramática. Não é sobre virar outro pai da noite pro dia. É sobre prestar atenção numa frase de cada vez. No que você diz quando ele ganha. No que você diz quando ele perde. No que você não diz e deveria.
O esforço do seu filho vale independente do placar. Quando ele começar a acreditar nisso de verdade, vai ser porque alguém importante para ele acreditou primeiro.
Perguntas frequentes
Como falo com meu filho depois de uma derrota sem parecer que estou ignorando os erros?
Comece pela presença, não pela análise. Uma pergunta simples sobre como ele se sentiu abre mais espaço do que qualquer diagnóstico técnico. Os erros podem ser conversados depois, com calma, quando a emoção da partida já passou.
Meu filho parece desmotivado depois dos jogos. Isso é normal?
Desmotivação logo após derrotas é natural. O problema é quando ela se torna padrão mesmo em vitórias, ou quando a criança começa a evitar falar sobre os jogos. Nesses casos, vale investigar se o ambiente está pesado demais, incluindo a postura dos pais na arquibancada e no carro de volta.
Como equilibrar cobrança e apoio sem deixar de ajudá-lo a melhorar?
A cobrança técnica é trabalho do treinador, não do pai. Seu papel principal é de suporte emocional. Você pode ter conversas sobre o jogo, mas perguntar antes de opinar, e sempre ancorar a conversa em observações concretas sobre o esforço, não só sobre o resultado.
A partir de que idade meu filho consegue entender que o esforço importa mais que a vitória?
Crianças muito pequenas já percebem se o adulto está satisfeito ou não com o desempenho delas, mesmo antes de entender o conceito de esforço. O que elas leem é o tom, a expressão, o silêncio. A consistência do pai em valorizar a presença e a tentativa, desde cedo, é o que constrói essa compreensão ao longo do tempo.
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