Ponto a Ponto

02 de maio de 2026 · 7 min de leitura

Como você termina diz tudo sobre quem você foi

Andy Roddick elogiou Wawrinka por se despedir com dignidade. Isso me lembrou do erro que quase cometi com meu filho quando um ciclo esportivo terminou.

por Eder Miranda

Pai e filho adolescente sentados lado a lado numa arquibancada vazia, olhando para uma quadra de tênis ao fim do dia, luz dourada e expressões pensativas.

Andy Roddick disse algo esta semana que não saiu da minha cabeça. Ao comentar a despedida de Stan Wawrinka do circuito profissional, ele elogiou a forma como o suíço está saindo: torneio a torneio, sem pressa, sem drama, com uma dignidade que é rara no esporte de alto rendimento. E então Roddick completou com uma honestidade que poucos ex-atletas têm coragem de ter em público: gostaria de ter feito o mesmo.

Essa frase me parou. Não pela confissão de um tenista profissional sobre a própria carreira. Me parou porque ela toca num ponto que vai muito além das quadras, muito além do circuito profissional, muito além de qualquer ranking. Ela fala sobre o que acontece quando um ciclo termina, e sobre quem a gente é nesse momento.

Eu quase cometi um erro grave com meu filho mais velho quando um ciclo esportivo dele chegou ao fim. Por muito tempo confundi o percurso dele com o destino dele. Achava que sabia onde aquilo terminaria. Não sabia. E quando as coisas tomaram um rumo diferente do que eu esperava, precisei olhar para dentro e perguntar o que eu tinha estado ensinando, de verdade, durante todos aqueles anos na arquibancada.

O fim também é uma aula

Há uma crença não dita no esporte juvenil que contamina famílias inteiras: a de que o valor de um ciclo se mede exclusivamente pelo que ele produziu. Títulos, ranking, convocações, bolsas. Se não gerou nenhum desses, o ciclo foi um fracasso. E quando termina antes do esperado, a família inteira entra em luto como se tivesse perdido algo que nunca pertenceu a ela.

Já vi pai que não conseguia olhar nos olhos do filho depois que ele parou de competir. Já vi mãe que levou meses para parar de fazer comparações com outros atletas da mesma faixa etária. Já vi irmão mais novo carregar sem querer o peso de compensar algo que não era culpa de ninguém.

Isso não é luto pelo filho. É luto por uma identidade que o pai ou a mãe tinham construído para si mesmos dentro daquele ciclo.

Encerrar bem é tão importante quanto começar bem. A forma como você sai de um ciclo forma caráter tanto quanto a forma como você entrou.

O que Roddick reconhece, ao elogiar Wawrinka, é exatamente isso: a saída também é parte da trajetória. Não é apêndice, não é epílogo sem importância. É o último capítulo, e ele tem peso.

O atleta é mais do que o resultado

Quando a carreira esportiva de um jovem chega ao fim, seja aos 16, aos 20 ou aos 30 anos, o que fica não é o troféu. O que fica é a relação que ele construiu com esforço, com derrota, com recuperação, com pressão e com a própria identidade.

Se ao longo de todos aqueles anos o recado que ele recebeu foi “você é bom quando ganha”, então o fim da competição vai ser uma crise de identidade. Porque o que ele vai fazer com quem ele é quando não há mais resultado para provar?

Se o recado foi outro, se ao longo do caminho ele aprendeu que o esforço tem valor independente do pódio, que perder ensina o que ganhar não consegue, que o corpo e a mente merecem respeito além da performance, então o fim de um ciclo não é o fim de nada. É uma transição.

Os sinais de que um ciclo está sendo encerrado com inteireza são concretos. Não são sentimentais, são comportamentais:

  • O atleta consegue falar sobre o período com gratidão, não com amargura.
  • Ele mantém relações com colegas e treinadores, sem fugir do ambiente que um dia foi sua rotina.
  • Ele encontra o que levou dali para outras áreas da vida sem precisar diminuir o que foi.
  • Ele não define o próprio valor pelo que deixou de ser.
  • A família ao redor consegue acompanhar essa transição sem transformá-la em tragédia.

Nenhum desses sinais aparece por acaso. Eles são resultado de anos de mensagens recebidas e de uma cultura familiar que foi ou não foi construída em torno do que o esporte realmente ensina.

O que o pai carrega nesse momento

A confissão de Roddick é sobre ele mesmo, sobre como ele saiu do circuito profissional. Mas quando eu ouço essa frase, eu penso no pai que estava na arquibancada observando.

Porque existe uma despedida que o atleta faz, e existe uma despedida que o pai precisa fazer ao mesmo tempo. E essa segunda despedida é raramente falada.

Eu precisei me despedir de uma imagem que eu tinha construído. Não do meu filho, mas de uma versão futura que eu tinha projetado para ele sem que ele tivesse pedido. Isso é duro de admitir. É duro porque exige reconhecer que parte do investimento emocional que eu fiz no percurso esportivo dele não era por ele. Era por mim.

Não estou dizendo que o amor era falso. Estou dizendo que o amor estava misturado com outras coisas que eu precisei separar. E essa separação só foi possível quando o ciclo terminou e eu precisei encarar o que sobrava.

O que sobrava era meu filho. Inteiro. Diferente do que eu havia imaginado. Melhor do que qualquer resultado teria me mostrado.

Terminar com inteireza não é fraqueza

Wawrinka está fazendo algo que exige mais maturidade do que qualquer virada de jogo que ele protagonizou. Ele está saindo de frente, sem fingir que está bem quando não está, sem acelerar o fim para fugir da dor de encerrar, sem arrastar um ciclo que já terminou só para adiar a transição.

Isso é um modelo. Não de como encerrar uma carreira no tênis profissional. De como encerrar qualquer ciclo com dignidade.

E como pai, eu me pergunto o que tenho mostrado ao meu filho sobre isso. Quando um projeto meu não deu certo, como eu saí? Quando uma relação chegou ao fim, como eu me comportei? Quando eu precisei reconhecer que estava errado, eu fiz isso com inteireza ou fui pela saída lateral?

Os filhos não aprendem sobre encerramento de ciclos só no esporte. Eles aprendem observando os adultos ao redor.

Terminar bem é um ato de caráter. E caráter não se transfere por discurso. Se transfere por exemplo.


O ciclo que está terminando agora na sua família, seja no esporte ou em qualquer outro lugar, é uma oportunidade. Não para provar nada. Para mostrar, na prática, o que você acredita sobre quem o seu filho é além do que ele conquistou.

Isso é o que fica depois que a quadra esvazia.

Perguntas frequentes

Como ajudar meu filho a encerrar uma carreira esportiva sem que ele sinta que falhou?

A primeira coisa é não tratar o encerramento como fracasso você mesmo. Se a sua linguagem, o seu silêncio ou o seu comportamento sinalizarem luto, ele vai internalizar que perdeu algo que deveria ter preservado. Fale concretamente sobre o que ele construiu durante o ciclo, habilidades, disciplina, amizades, autoconhecimento, sem precisar comparar com o que poderia ter sido.

A partir de que idade devo começar a preparar meu filho para a possibilidade de encerrar a carreira esportiva?

Desde o início. Não como ameaça ou limitação, mas como parte natural de qualquer trajetória. Atletas que crescem sabendo que o esporte é um meio, não um fim em si mesmo, lidam melhor com transições em qualquer fase. A conversa não precisa ser dramática, só precisa acontecer.

Como lidar com o próprio luto quando o ciclo esportivo do filho termina antes do que eu esperava?

Reconheça que o luto é real e que ele faz sentido. Mas separe o que é tristeza legítima pelo fim de um período bonito daquilo que é frustração por uma expectativa que era sua, não dele. Essa distinção é difícil, mas ela muda tudo na forma como você acompanha a transição do seu filho.

O que significa, na prática, encerrar um ciclo com dignidade no esporte juvenil?

Significa que o atleta consegue reconhecer o que viveu sem precisar diminuir o período para se sentir melhor sobre o encerramento. Significa cumprir os compromissos que ainda existem, respeitar treinadores e colegas no processo de saída, e não fugir das despedidas. E significa que a família ao redor acompanha essa transição sem transformá-la no maior drama da história da casa.

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