02 de maio de 2026 · 7 min de leitura
Alcaraz reverenciou Djokovic. E o que a gente faz com isso?
Alcaraz venceu o Australian Open e reverenciou Djokovic sem tentar ser ele. Eu demorei anos para entender por que isso importa pra quem cria um atleta.
por Eder Miranda
Alcaraz venceu o Australian Open. Quebrou um recorde que pertencia a Nadal. Foi aplaudido pelo próprio Nadal nas arquibancadas. E ainda parou para reverenciar Djokovic na quadra, com uma inclinação de cabeça que não tinha nada de protocolar. Era genuína.
Eu vi aquela cena e fiquei parado por um tempo sem conseguir avançar o vídeo. Não pelo troféu, não pelo recorde. Foi a reverência que me travou. Porque ela me lembrou de tudo que eu fiz de errado durante anos como pai de um atleta.
Eu já fui o pai que usava ídolos como régua. Não como inspiração: como cobrança. Havia um nome, sempre havia um nome, e o desempenho do meu filho mais velho era constantemente medido contra esse nome. Um nome que ele nunca pediu para ser. Um nome que eu escolhi por ele, sem perceber o peso que estava colocando em cima de um menino que ainda estava descobrindo quem ele mesmo era dentro de uma quadra.
Custou caro. E quando digo caro, não estou sendo metafórico.
O ídolo virou chicote
Há uma diferença enorme entre apresentar um ídolo a um filho e usar esse ídolo como instrumento de pressão. A primeira é um presente. A segunda é uma forma velada de dizer que o que ele é, hoje, não é suficiente.
O problema não estava no ídolo. O problema estava em mim e no uso que eu fazia dele. Eu pegava um campeão, jogava na frente do meu filho e perguntava, com outras palavras, por que você não é assim. Nunca perguntei abertamente. Não precisava. A comparação falava sozinha.
Isso acontece com mais pais do que qualquer um gosta de admitir:
- O pai que mostra o highlight do Federer e pergunta por que o filho não tem mais paciência na troca.
- A mãe que compara o ranking da filha com o de uma atleta que ela acompanha nas redes sociais.
- O pai que diz “olha o que fulano fazia com sua idade” como se fosse motivação, quando na verdade é veredito.
- O técnico-pai que cronometra o treino do filho contra uma referência que nem é da mesma categoria de desenvolvimento.
Cada uma dessas situações carrega a mesma mensagem no fundo: você não é suficiente sendo você.
A criança que cresce sendo comparada aprende a se olhar no espelho dos outros. E quando não encontra o reflexo certo, para de se olhar.
Alcaraz não é o novo ninguém
O que tornou aquela cena em Melbourne tão diferente foi exatamente o que ela não tinha. Não havia tentativa de imitar. Não havia performance de sucessor. Havia um campeão de 21 anos que reconhecia gigantes sem precisar se tornar nenhum deles.
Alcaraz joga tênis como Alcaraz. Tem elementos que lembram outros jogadores, sim, porque nenhum atleta cresce num vácuo. Toda trajetória absorve influências. Mas o que ele fez naquela quadra foi honrar uma herança sem se prender a ela. Inclinação de cabeça, gratidão visível, e então seguiu em frente sendo ele mesmo.
Isso não é detalhe. Isso é o resultado de uma formação que respeitou a identidade do atleta ao longo do tempo. Alguém, em algum momento, não comparou Carlos Alcaraz com Nadal e perguntou por que ele não era igual. Alguém deixou Alcaraz ser Alcaraz enquanto aprendia com os melhores.
Não sei como foi o processo dele por dentro, não tenho acesso a isso. Mas o produto final diz alguma coisa sobre o processo.
O que a comparação faz com a identidade do atleta
Um atleta jovem está, antes de qualquer coisa, construindo uma relação com o próprio desempenho. Ele precisa aprender a sentir o que faz bem, o que precisa melhorar, o que é característico do jeito dele de competir. Isso leva tempo. Leva tentativa, erro, ajuste, tentativa de novo.
Quando um pai ou uma mãe entra nesse processo com um ídolo na mão como medida de comparação, interrompe justamente essa construção. O atleta para de se perguntar “o que eu preciso melhorar” e começa a se perguntar “por que eu não sou aquele outro”. São perguntas completamente diferentes. A primeira leva ao desenvolvimento. A segunda leva ao bloqueio.
E tem um detalhe que eu demorei para enxergar: o ídolo que eu usava como régua tinha uma trajetória que eu não conhecia inteira. Eu via os resultados, o ranking, os títulos. Não via os anos de frustração, os torneios perdidos, as crises de confiança, as escolhas que esse atleta fez que nunca apareceram em nenhuma cobertura jornalística. Eu estava comparando meu filho com uma versão editada de outra pessoa. Uma versão de destaque, sem o processo.
Isso é uma injustiça. Não intencional, mas real.
O que eu aprendi a fazer diferente
Não vou dizer que virei outro pai da noite para o dia. Não foi assim. Mas algumas mudanças de postura fizeram diferença concreta no que eu via acontecer com meu filho mais velho dentro e fora da quadra.
A primeira foi parar de usar nomes como referência de resultado e começar a usar nomes como referência de postura. Tem diferença enorme entre “por que você não bate como fulano” e “você viu como fulano lida com a pressão no terceiro set, isso vale observar”. Uma frase compara o filho com outro. A outra usa o outro como material de estudo, sem colocar o filho em xeque.
A segunda foi aprender a perguntar antes de comentar. Depois de uma partida, antes de abrir a boca com qualquer observação técnica ou comparativa, eu passei a perguntar: o que você achou do seu jogo hoje. A resposta sempre me dava mais informação do que qualquer análise minha. E me colocava no papel de quem escuta, não de quem julga.
A terceira, e mais difícil, foi separar minha expectativa da expectativa dele. Porque muita vez o ídolo que eu colocava como régua era um ídolo meu. Era o atleta que eu admirava. Era o estilo de jogo que eu achava mais bonito. Era, no fundo, minha versão do que um campeão deveria ser. E eu estava empurrando essa versão para cima de uma pessoa que tinha o direito de construir a própria.
Alcaraz reverenciou Djokovic e foi embora com o troféu dele, não com o de Djokovic. Essa distinção é tudo.
Perguntas frequentes
Comparar meu filho com um ídolo para motivar é sempre errado?
Depende de como a comparação é feita. Usar um ídolo para mostrar uma postura, uma atitude ou uma forma de lidar com adversidade pode ser útil. O problema aparece quando a comparação mede resultado ou identidade: aí ela vira cobrança, não inspiração.
Como sei se estou colocando pressão excessiva no meu filho atleta?
Observe o comportamento dele antes e depois de conversar sobre o desempenho. Se ele fica fechado, defensivo ou claramente ansioso depois de suas análises, é sinal de que o jeito como você está falando está pesando mais do que ajudando. Pergunte, ouça, reduza o volume das suas opiniões antes de aumentar.
Meu filho me pede para comparar com outros atletas. Isso é saudável?
Pode ser saudável se partir dele como curiosidade ou referência de aprendizado. A diferença está em quem inicia e com qual intenção. Quando ele compara para entender e melhorar, é desenvolvimento. Quando você usa a comparação para cobrar um nível que ele ainda não atingiu, é pressão.
Como usar ídolos do esporte de forma positiva no desenvolvimento do meu filho?
Apresente-os como estudo, não como espelho. Assista a partidas junto e pergunte o que ele observa, o que acha interessante, o que gostaria de entender melhor. Deixe o ídolo ser uma fonte de aprendizado escolhida pelo filho, não uma régua imposta por você.
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