Ponto a Ponto

02 de maio de 2026 · 8 min de leitura

Alcaraz lesionado foi assistir o irmão jogar. Isso me disse tudo.

A cena de Alcaraz na arquibancada virou um espelho para mim. Eu já fui o pai que comparecia mas pesava. Entender essa diferença mudou tudo.

por Eder Miranda

Alcaraz lesionado foi assistir o irmão jogar. Isso me disse tudo.

Carlos Alcaraz estava machucado, fora de competição, sem raquete na mão e sem nenhuma obrigação de estar em lugar nenhum. E aí ele foi para a arquibancada assistir o irmão mais novo jogar um torneio juvenil em Madri. Sem holofote, sem câmera esperando por ele, sem nada para ganhar com isso.

Eu parei quando li essa notícia. Fiquei olhando para ela por um tempo antes de continuar rolando a tela.

Não parei por admiração pelo gesto, embora ele seja admirável. Parei porque aquela cena me devolveu uma imagem que eu preferiria ter esquecido: a de mim mesmo numa arquibancada, anos atrás, sendo o contrário exato daquilo. Eu estava presente no corpo. Mas o que eu levava comigo não era apoio. Era análise técnica mal disfarçada, frustração que eu achava que escondia bem e uma exigência que eu tinha o hábito de chamar de amor.

O que significa estar numa arquibancada

Tem uma diferença enorme entre comparecer e aparecer. Eu levei mais tempo do que quero admitir para entender isso na prática, não só na teoria.

Comparecer é o ato físico. Você está lá, o nome está na lista, o corpo ocupa o assento. Aparecer é outra coisa. É chegar sem pauta. É sentar sem precisar que nada específico aconteça para que a tarde tenha valido a pena. É olhar para o seu filho jogando e não estar, em paralelo, montando um relatório mental sobre o que ele deveria corrigir.

Quando eu era o pai que comparecia sem aparecer de verdade, meu filho sabia disso. Crianças sabem. Elas leem o corpo, leem o silêncio no carro de volta para casa, leem o momento em que você suspira no set errado. Nenhuma criança precisa que você diga uma palavra para sentir o peso da sua expectativa. Ela já chegou antes de você abrir a boca.

Presença de verdade não é comparecer. É aparecer sem cobrar nada em troca.

Alcaraz não foi para dar instrução. Não foi para analisar o backhand do irmão entre os pontos ou gritar orientação da beirada. Foi para que o moleque olhasse para a arquibancada e encontrasse alguém que acreditava nele, sem condição nenhuma anexada a esse crédito.

Por que isso é mais difícil do que parece

Se fosse fácil, todo pai faria. Mas não é. E eu acho importante ser honesto sobre os motivos.

Primeiro, porque muitos de nós chegamos à arquibancada carregando nossa própria história com o esporte. Seja ela de glória, de frustração, de sonho não realizado ou de cobrança que recebemos e normalizamos. Essa história viaja junto. Ela senta ao lado de você e fica comentando baixinho durante todo o jogo.

Segundo, porque confundimos envolvimento com presença qualificada. Achar que quanto mais você analisa, mais você está ajudando. Que seu filho precisa da sua leitura de jogo para evoluir. Que o silêncio seria indiferença.

Terceiro, e esse é o mais difícil de encarar, porque parte da cobrança não é sobre o filho. É sobre você. Sobre o que a performance dele significa para a sua identidade como pai. Quando ele perde, algo em você também perde. E aí você não consegue simplesmente estar presente, porque você tem interesse demais no resultado.

Eu reconheço esses três padrões em mim. Não como abstração. Como memória concreta de como eu me comportava.

O que a criança carrega da arquibancada para dentro de quadra

Existe uma pergunta que mudou a forma como eu penso sobre isso: o que meu filho sente quando me olha durante uma partida?

Não o que ele pensa. O que ele sente. No corpo, na respiração, na postura.

Uma criança que olha para o lado e encontra presença tranquila joga diferente de uma criança que olha para o lado e encontra expectativa. Isso não é opinião, é algo que qualquer treinador experiente vai confirmar. O estado interno do atleta muda quando o ambiente emocional ao redor muda.

As consequências de uma arquibancada pesada aparecem em lugares que a gente não conecta imediatamente:

  • A criança que começa a evitar o contato visual com os pais durante os jogos.
  • O atleta que joga bem nos treinos e trava nas competições (muitas vezes, o treino é um ambiente sem julgamento e a competição não é).
  • O jovem que para de jogar mais cedo do que o talento justificaria, porque o esporte virou sinônimo de tensão em vez de prazer.
  • A relação que esfria depois que a carreira esportiva acaba, porque o esporte era o único idioma que pai e filho compartilhavam, e era um idioma cheio de cobrança.

Nenhum desses desfechos acontece por causa de um dia ruim na arquibancada. Eles se constroem ao longo de anos de pequenos sinais que a criança aprende a interpretar.

O que Alcaraz ensinou sem saber

Alcaraz tem vinte e poucos anos e provavelmente não foi para aquele torneio juvenil pensando em dar uma lição sobre paternidade ou presença. Ele foi porque queria ver o irmão. Simples assim.

Mas o gesto carrega uma pedagogia involuntária que eu não consigo ignorar.

Ele foi como torcedor, não como técnico. Ele foi como irmão mais velho que acredita, não como autoridade que avalia. E foi machucado, num momento em que a tendência natural seria estar absorto nos próprios problemas, na própria recuperação, no próprio calendário.

Isso é o que presença real parece. Você aparece mesmo quando não é conveniente. Você aparece sem trazer sua própria agenda. Você aparece para o outro, não para a sua imagem de pai presente, de irmão dedicado, de família unida.

Eu já fui o pai que aparecia para a minha imagem. Que estava lá em parte para poder dizer que estava lá. Que confundia frequência com qualidade. Que achava que comparecer a todos os jogos compensava o peso que eu levava para cada um deles.

Não compensava.

O que o meu filho mais velho precisava, e o que qualquer criança que pratica esporte precisa, era de uma arquibancada que não cobrasse nada. Que existisse para ele, não para o resultado. Que fosse um lugar seguro para olhar quando as coisas dessem errado dentro de quadra, e encontrar alguém que continuasse ali, sem a expressão mudando conforme o placar.

Aprender isso foi um processo longo. Esse é um dos temas que trato em Ponto a Ponto, porque acho que muitos pais estão onde eu estava e nem sabem que estão.

A pergunta que eu faço para você agora é a mesma que me fiz um dia: quando foi a última vez que você estava presente de verdade, sem cobrar nada?

Não precisa responder para mim. Mas vale responder para você.

Perguntas frequentes

Como saber se minha presença na arquibancada está pesando no meu filho?

Observe o comportamento do seu filho antes e depois dos jogos em que você está presente, comparado aos treinos ou partidas em que você não está. Se ele joga mais solto sem você por perto, ou se o silêncio no carro de volta é consistentemente tenso, isso é um sinal que merece atenção honesta. Pergunte diretamente a ele, numa conversa fora do contexto esportivo, como ele se sente quando você está assistindo.

Qual é a diferença entre apoiar e pressionar na arquibancada?

Apoiar é estar disponível sem ter pauta. Você vai para ver, não para avaliar. Pressionar, mesmo sem palavras, acontece quando seu estado emocional depende do resultado: quando você fica visivelmente frustrado com erros, quando você analisa o jogo em voz alta ou no carro depois, quando o seu filho sente que precisa performar para você, não para ele mesmo. A fronteira está menos no que você faz e mais no que você carrega internamente para aquele lugar.

Meu filho pede minha opinião técnica depois dos jogos. Devo dar?

Se ele pede, responda com brevidade e cuidado, priorizando o que ele sentiu antes do que você observou. Pergunte primeiro: “Como você acha que jogou?” Deixe ele chegar nas próprias conclusões antes de oferecer as suas. O problema não é a conversa técnica em si, é quando ela substitui o acolhimento ou quando acontece antes de o filho sentir que você simplesmente ficou feliz em vê-lo jogar, independente do resultado.

O que fazer quando é difícil controlar a reação emocional durante o jogo?

Reconheça que a dificuldade é real e não é fraqueza. Muitos pais carregam sua própria história com o esporte e ela interfere sem aviso. Um exercício prático é, antes de entrar na arquibancada, se perguntar conscientemente: “O que eu quero que meu filho sinta quando me olhar hoje?” Ter essa resposta clara antes de sentar muda o foco, do resultado para a relação. Se mesmo assim for difícil, conversar com um profissional sobre isso não é exagero.

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