Ponto a Ponto

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Seu filho não tem medo de perder o jogo. Ele tem medo da volta pra casa

O fim de semana inteiro é treinado. O saque, o aquecimento, o aperto de mão. A volta pra casa ninguém treina. E é o pedaço que ele vai lembrar.

por Eder Miranda

Interior de um carro no fim da tarde. O adulto ao volante aparece de costas e fora de foco. No banco de trás, um menino com a mochila de raquete ao lado olha pela janela, calado.

Tem um carro, num sábado à tarde. Um adulto ao volante e uma criança calada no banco de trás.

Você já esteve nesse carro. Em algum dos dois bancos.

Foi assim que eu abri a minha primeira palestra, no sábado, pra uma sala de profissionais do esporte, psicólogos e famílias. Pedi pra levantar a mão quem já tinha sido a criança daquele banco de trás. Depois, quem já tinha sido o motorista.

Quando eu comecei a falar, veio uma emoção muito grande. Voltei pra casa em êxtase. Lá na frente eu reafirmei uma frase que já disse outras vezes: aos 49 anos eu descobri o que eu quero ser quando crescer. Essa parte eu contei na newsletter, em O que eu quero ser quando crescer.

Aqui está a palestra inteira, na ordem em que eu falei.

O pedaço que ninguém treina

Seu filho não tem medo de perder o jogo. Ele tem medo da volta pra casa.

Uma hora de carro. Às vezes duas. Às vezes quatro, quando o torneio foi em outra cidade.

O fim de semana inteiro é treinado. O saque é treinado. O aquecimento é treinado. A alimentação, o aperto de mão no fim do jogo. A volta pra casa é o único pedaço que ninguém treina. E é o pedaço que ele vai lembrar.

”Que pai dedicado”

Você já ouviu essa? Eu ouvi muitas vezes. Nem toda vez eu senti orgulho. Teve vez que passou um negócio esquisito no peito, que eu não soube explicar.

Guarda esse negócio esquisito. Ele tem nome, tem data e tem estágios. Não é falta de caráter, não é pai ruim, não é coisa de gente rica. Eu volto nele no fim.

O lugar onde isso acontece

Sábado, seis da manhã. A família inteira entra no carro.

Tem o grupo de WhatsApp dos pais, onde circula placar, print e fofoca de técnico. Circula até a chave do torneio antes de sair no site. Tem o aplicativo de ranking, que tem pai atualizando no semáforo. Tem a mesa de bar do lado de fora da quadra, com uma conversa que se repete em todo clube do Brasil, palavra por palavra: o filho do fulano cresceu rápido demais, o técnico do beltrano é melhor. E a conta em voz alta do quanto o outro está gastando.

E tem a conta de verdade. Ninguém fala dela em voz alta, mas todo mundo faz de madrugada. Raquete, viagem, hotel, inscrição, técnico, ano após ano. Dá pra comprar um apartamento.

Tem também uma pessoa que nunca aparece em nenhuma foto do circuito: o irmão que não joga. Ele passa o sábado num clube que não é dele, esperando o jogo de outra pessoa acabar. Aprende cedo que o dia bom da família não depende de nada que ele fez. Aprende que a conversa do jantar tem um assunto só. Aprende a perguntar na porta do carro, antes de entrar: “ganhou?”. A resposta decide o resto da noite dele.

Torcer diferente

Aí acontece uma coisa sutil, sem hora marcada. Você começa a torcer diferente.

Não é que você queira mal a ninguém. É que o placar do seu filho começa a mexer em você de um jeito que não é mais sobre ele.

Eu conheço esse lugar por dentro. Teve uma época em que a derrota do meu filho mais velho doía em mim por um motivo que não era o dele. Doía porque eu já tinha decidido o que eu ia postar.

Na palestra, todo mundo entendeu essa frase em menos de um segundo. Isso diz alguma coisa.

Eu procurei um nome pra isso e não achei. Então inventei um: dependência reversa. Na vida normal, o filho depende do pai. Em algum ponto da quadra, o pai começa a depender do filho. Do resultado dele pra ter uma boa semana. Do troféu dele pra saber se valeu.

Faz o teste agora, em silêncio. Qual foi o último resultado do seu filho? E qual foi a última coisa que ele fez que te deu orgulho sem placar junto?

A primeira resposta veio rápido. A segunda demorou.

O nome já existia

Achei que tinha inventado uma palavra. Não tinha.

Em 1998, um psiquiatra infantil chamado Ian Tofler publicou, com Penelope Knapp e Martin Drell, um trabalho sobre crianças que faziam coisas extraordinárias cedo demais. Ginastas, patinadoras, nadadores. E sobre os adultos em volta delas. Deram um nome ao que viram: realização por procuração. Procuração é aquele papel que você assina pra outra pessoa fazer uma coisa no seu lugar. Realização por procuração é quando o adulto realiza pela mão da criança aquilo que não realizou com a própria.

Quase trinta anos. Nenhum técnico, nenhuma federação, nenhum clube me falou disso.

Eles não fizeram uma acusação. Fizeram um espectro, que é uma régua.

De um lado está o apoio saudável: o pai que leva, que busca, que paga, que assiste, que vibra. Ninguém tem problema com esse lado.

O primeiro estágio depois dele é o sacrifício de risco. Ele tem rosto. É o pai do segundo emprego. A rifa no clube. A vaquinha pra viagem do torneio. A mãe que larga a carreira pra virar motorista do circuito e não chama isso de largar a carreira, chama de “eu dou um jeito”. A família que muda de cidade porque o técnico bom é lá, vende casa, tira irmão de escola. Ninguém faz isso sem amor. Faz por amor demais.

O segundo é quando a criança vira objeto. Não no sentido feio. A pergunta muda de dono. Deixa de ser “como ele está?” e vira “o que eu vou postar hoje?”.

Depois vêm os estágios graves. A palavra que a literatura usa é abuso: a criança forçada a continuar apesar do dano. Isso é instrumento de médico. Eu não sou médico. Eu sou pai.

O que eu vim dizer é mais simples que um diagnóstico. A régua não começa no abuso. Ela começa no amor. E é por isso que ela é tão difícil de ver quando você está em cima dela.

Querer que ele ganhe não é doença

Antes que alguém saia achando que não pode mais querer nada: querer que o seu filho ganhe não é doença. Levar ele às seis da manhã de sábado não é doença. Pagar técnico, viajar, gritar quando a bola entra. Isso é ser pai.

A régua não mede o quanto você faz. Ela mede de quem é a vontade.

A objeção de verdade é outra. E ela é justa: o Sinner treina desde pequeno, o Alcaraz idem, se o pai não empurrar não sai campeão nenhum. Está certo. Só que tem uma coisa nessa frase que ninguém checa. Você só conhece o pai do Sinner porque o Sinner deu certo. Milhares de pais fizeram a mesma coisa, com a mesma intensidade e o mesmo amor. Os filhos deles você nunca vai ouvir falar. Não porque empurraram menos.

A pergunta “quanto eu empurro?” mede a coisa errada.

Quem foi olhar dentro do carro

Em 2025, quatro pesquisadores britânicos, Hamann, Thrower, Stokoe e Harwood, fizeram o que ninguém tinha feito. Em vez de perguntar às famílias o que elas achavam que faziam, pediram que elas mesmas filmassem a ida e a volta de um torneio. Treze famílias do tênis. Vinte e três horas de gravação, sem ninguém de jaleco no banco de trás. Quatro horas e meia de conversa transcritas, com cada silêncio cronometrado.

Outro estudo, de Tamminen e colegas em 2022, já tinha medido o relógio dessa viagem: 59% do tempo dentro do carro é silêncio. Só 13% da conversa é sobre o esporte. A gente acha que fala muito do jogo no carro. Não fala. Fica calado.

Li duas dessas conversas na palestra, traduzidas do inglês.

A primeira. Um pai de 47 anos, que jogou basquete na faculdade. O filho de 9, voltando de um torneio local, afundado no banco do carona, de cara fechada. O pai abaixa o rádio.

Pai: Então, o que você me conta?
Pai: Por que a sua atitude foi tão negativa nos dois primeiros games?
(um segundo)
Filho, baixinho: Porque eu tava perdendo.
(um segundo)
Pai: Mas, filho… a questão é: você perde um ponto, você reage, você ganha um ponto.
Filho: É frustrante. É estressante.
Pai: Eu sei que é frustrante. Mas tava quatro a quatro. E você entregou. Você foi bem até chegar no quatro a quatro. E aí desistiu? No tiebreak?
Filho, baixinho: Eu não desisti.
Pai: Você não jogou bem. Baixou a cabeça. Você só precisa ter orgulho do seu jogo.
(dois segundos)
Pai: E só continuar jogando o seu tênis.

Depois disso, 6,3 segundos de silêncio. O filho não responde. O pai desiste. Não se fala mais do jogo no resto da viagem.

Os pesquisadores destrincharam essa conversa em três pontos. A primeira pergunta era boa: “o que você me conta?” é aberta, cabe qualquer resposta. Só que o pai não esperou e emendou a segunda. A segunda já trazia a resposta dentro: “por que a sua atitude foi tão negativa” afirma que foi. Pro menino só sobra se justificar. E quando o filho dá uma resposta honesta, “porque eu tava perdendo”, o “mas, filho” volta pra crítica. No fim a crítica vira conselho. O menino para de responder.

O estudo não chama esse pai de mau pai. Eu também não. Ele faz o que quase todo pai faz: entra no carro com o jogo na cabeça e puxa o assunto antes do filho. Talvez ele até tenha razão sobre o tiebreak. O problema não é o conteúdo da análise. É quem abriu o assunto.

A segunda. Uma mãe de 39 anos, ex nadadora de nível nacional. A filha de 8, voltando de um torneio em que perdeu. A menina começa sozinha.

Menina: Eu fui até que bem no meu torneio.
Mãe: Tá.
Menina: Então, primeiro de tudo, eu joguei com a última menina. Ela foi muito gentil. E ela também ganhou o prêmio de espírito esportivo.
Mãe: Ela era uma menina adorável, né?
Menina: Era. E eu acho que joguei bem na primeira partida também. Era um menino. Ele achava que era segundo ou terceiro da região. E eu fiz dois pontos nele.

A conversa segue por mais 164 linhas de transcrição. O placar, o que ela vai contar pro técnico, o que vai escrever no diário: o que fez bem e o que quer treinar.

Conta quantas palavras a mãe disse no começo. “Tá.” “Hum.” “Ela era uma menina adorável, né?” O resto é a menina. Inclusive o que ela quer melhorar. A conversa que o pai da primeira queria ter aconteceu aqui, só que puxada pela criança.

Teve uma terceira, rapidinha. Um menino de 11 anos que tinha ganhado, com uma mãe que não é do esporte. Ele entra no carro e diz: “nossa, foi bom”. Ela pergunta: o que foi bom? Por quê? Você se divertiu? O que achou dos adversários? Perguntas curtas, todas depois que ele abriu. Nenhuma traz a resposta dentro.

O achado que interessa a quem dirige: as conversas longas e boas foram as que a criança começou. E o adulto foi atrás, sem tomar a frente. A menina tinha perdido. O menino tinha ganhado. Ganhando ou perdendo.

Pra abrir o assunto, precisa de coragem

Então eu fiz à sala uma pergunta incômoda. Se o seu filho parar amanhã, o que acontece com você?

E a versão mais difícil dela: se ele quiser parar amanhã, ele tem coragem de te contar?

Na minha casa, teve uma época em que, no fim do jogo, o meu filho mais velho saía da quadra desviando pro lado onde eu não estava. Ele nunca me disse nada. Disse pra mãe dele:

“Meu pai só me ama quando eu venço.”

Eu ouvi de segunda mão, que é como muito pai descobre as coisas importantes. Não é uma frase sobre mim. É sobre o que uma criança conclui quando o humor do adulto mais importante da vida dela muda conforme o placar. Ninguém disse isso pra ele. Ele concluiu sozinho.

A volta pra casa boa não é prêmio de vitória. É escolha de quem dirige.

Quatro coisas que cabem na mão

Pro sábado que vem. Não é filosofia. É procedimento.

1. Não seja você o primeiro a falar. Nos primeiros minutos do carro, não abra o assunto do jogo. Nem “então”, nem “e aí”, nem “como foi”. Rádio, janela, o que vai ter pro jantar. Se ele abrir, vai junto: “hum” e “e aí?” são frases completas. Se ele não abrir, não é fracasso. Vai ter outro sábado. E quando a análise escapar da sua boca (vai escapar) repara no sinal de parar: resposta curta, ombro na janela, mão no ar condicionado.

2. A cara de pôker. Aplauda o ponto bonito, de qualquer um dos dois. O lugar onde ele te encontra na arquibancada é o mesmo no primeiro game e no último. Entre um ponto e outro ele olha pra você. O que ele procura ali não é técnica. É se está tudo bem. Tem pai que vai pro estacionamento e acompanha o jogo pelo grupo dos outros pais. O filho dele olhou pra arquibancada e não achou ninguém.

3. O hambúrguer. Depois do jogo, a mesma comida, no mesmo lugar, com a mesma cara. Ganhou ou perdeu. Isso ensina o que nenhuma frase ensina: o programa não é prêmio. E não custa nada. A família inteira na mesma mesa, inclusive o irmão que esperou o sábado todo.

4. Troque a comparação. Todo pai compara o filho com quem está acima: o número um da categoria, o fenômeno que apareceu no Instagram ontem. Experimenta comparar com outro menino. O que jogava com o seu filho aos dez, largou aos treze e hoje não entra mais numa quadra. Esse menino existe em todo clube do Brasil e ninguém fala dele. Perto dele, o seu filho já ganhou uma coisa que nenhum ranking mostra: ele ainda está jogando.

Quatro é muito pra começar. Escolhe uma só.

O que é ser pai

Eu terminei com uma definição. Não é de dicionário. É a minha.

Pai não é quem forma um atleta. Pai é quem garante que, quando o atleta acabar, a pessoa continue inteira.

Repara que eu não disse se. Eu disse quando. Acaba pra todo mundo. Aos treze, aos dezoito, no ano em que o corpo avisa. Até pra quem chegou ao topo.

Na prática, ser pai é ficar no mesmo lugar. No primeiro game e no último. Ganhando e perdendo. E no carro.

Você põe o seu filho numa quadra aos cinco anos. Aos dezesseis ele começa a viajar sem você. São onze temporadas, uma ida e uma volta por fim de semana. Não é pouco. E não é pra sempre. Aquela conta do apartamento não tem retorno em dinheiro. Nunca vai ter. O retorno é ver eles virando o homem e a mulher que eles estão virando.

Você não controla se ele vai ganhar no sábado. Você controla o que ele vai concluir sobre você no domingo.

E aquele negócio esquisito no peito, quando te chamaram de pai dedicado? Ele incomodou porque o elogio era pra você. E o jogo era dele.

Se você foi a criança no banco de trás, você já sabe: você lembra do carro. Não lembra do placar.

Seu filho não tem medo de perder o jogo. Ele tem medo da volta pra casa. E essa é a única parte do fim de semana que depende só de você.

Perguntas frequentes

O que falar com o filho no carro depois de uma derrota?

O estudo de Hamann, Thrower, Stokoe e Harwood, de 2025, sugere começar por não falar. As conversas longas e boas que os pesquisadores registraram foram as que a criança abriu. O adulto foi atrás com respostas curtas como "hum" e "e aí?". Quando o pai abriu o assunto com uma pergunta que já trazia a crítica, o filho parou de responder.

Quanto tempo da volta de carro é silêncio?

Um estudo de Tamminen e colegas, de 2022, com 28 adolescentes e seus pais, mediu que 59% do tempo dentro do carro é silêncio e que só 13% da conversa é sobre o esporte.

O que é realização por procuração?

É o nome que o psiquiatra infantil Ian Tofler e dois colegas deram em 1998 a quando o adulto realiza pela mão da criança aquilo que não realizou com a própria. Eles descreveram um espectro: começa no apoio saudável, passa pelo sacrifício de risco e pela criança que vira objeto do projeto do adulto. Só no fim chega aos estágios graves. É um instrumento clínico, feito pra ajudar médico a identificar risco em criança de alto desempenho.

Querer que o filho ganhe é errado?

Não. Levar às seis da manhã, pagar técnico, viajar e vibrar com o ponto é ser pai. A régua do espectro não mede o quanto o pai faz. Mede de quem é a vontade.

Meu filho já tem dezesseis anos. Ainda dá tempo?

Dá. O combinado do carro vale em qualquer idade. A diferença é que, com dezesseis, às vezes é ele que está ao volante.

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