Ponto a Ponto

· 10 min de leitura

Carpinteiro ou jardineiro

Um encaixa o filho num projeto. O outro cuida da terra e descobre o que nasce. Qual dos dois forma o campeão?

por Eder Miranda

Ilustração em duas partes. Em cima, o carpinteiro: num papel azul quadriculado, o projeto de uma mesa vira três mesas idênticas, porque ele sabe o que vai sair antes de começar. Embaixo, o jardineiro: da mesma terra saem capim, flor, girassol, árvore e trepadeira, porque ele cuida da terra e descobre o que nasce.

Amanhã é Dia das Crianças. Em toda casa circula a mesma pergunta: o que a gente vai dar pra eles?

Eu quero propor outra, mais funda e um pouco mais incômoda. O que a gente acha que está fazendo quando cria um filho?

Quem me ajudou a pensar nisso foi a Alison Gopnik, professora de psicologia e professora afiliada de filosofia na Universidade da Califórnia, em Berkeley. Ela passou a vida estudando como bebês e crianças pensam. Em 2016 publicou um livro com um título que já é o argumento inteiro: The Gardener and the Carpenter, o jardineiro e o carpinteiro. Ele ainda não saiu no Brasil. As traduções aqui são minhas.

Quando criar filho virou profissão

Comece por uma palavra.

Em inglês, parent é pai ou mãe. Vem do latim parens, quem gerou, que por sua vez vem do verbo parere, dar à luz. É uma palavra de identidade. Diz quem você é.

Em algum momento o substantivo virou verbo. To parent. E o verbo ganhou um nome de atividade: parenting.

Repara no final da palavra. Em inglês, o ing no fim de um substantivo costuma dar nome a uma área de trabalho: engineering é engenharia, accounting é contabilidade, nursing é enfermagem. Parenting entrou nessa família. Criar filho deixou de ser só aquilo que pai e mãe fazem e passou a ser uma área com especialistas, manuais, cursos e técnicas. Uma coisa em que você pode ser bom ou ruim, como numa profissão.

De quem você é para o que você faz: a palavra parent vem do latim parere, gerar. Dele vem parens, quem gerou. Vira o substantivo parent, quem você é. Depois o verbo to parent, algo que você faz. Por fim parenting, uma área de trabalho, com método e meta.

A Gopnik chama atenção pra idade dessa palavra. Numa entrevista à rádio pública americana em 2017, ela disse que parenting, que parece tão natural hoje, é bem recente. Segundo ela, só nos anos 1970 a palavra começa de verdade a decolar nos Estados Unidos. No livro ela vai além e chama a palavra de uma invenção terrível.

Fui conferir no Google Books, que conta quantas vezes uma palavra aparece nos livros publicados em cada ano. A curva é impressionante.

Gráfico Quando criar filho virou profissão. Frequência de parenting e de child rearing nos livros em inglês entre 1900 e 2022. Parenting fica perto de zero até 1970 e dispara a partir daí, chegando a 74 vezes o nível de 1970. Child rearing, a expressão antiga, sobe devagar e cai depois dos anos 2000.

Até 1970, quase ninguém escrevia parenting. Naquele ano saiu um manual chamado How to Parent, de Fitzhugh Dodson, apontado como o livro que levou o verbo ao grande público. Daí pra frente a palavra não parou de subir. Hoje ela aparece 74 vezes mais do que em 1970. A expressão antiga, child rearing, criar filhos, ficou pra trás.

Gente cria filho desde que existe gente. O que é novo é o jeito de enxergar a tarefa: um trabalho com método, meta e resultado. Como se o pai fosse o profissional e o filho fosse o produto.

O carpinteiro

É aí que entra o carpinteiro.

Ele começa com um projeto: o desenho da peça, com todas as medidas. Sabe o que vai fazer antes de começar: uma mesa, uma cadeira. Escolhe a madeira, corta, lixa, ajusta. O trabalho dele é bom quando o resultado bate com o projeto. Se a peça sai diferente, alguma coisa deu errado.

Meu pai era marceneiro. Eu sei o que é o trabalho de quem molda madeira. Tenho por ele o maior respeito. É um ofício bonito, que exige paciência, olho e mão firme. Só não serve pra criar gente.

O pai carpinteiro não é um pai que ama menos. Muitas vezes é o que mais se dedica. Lê, pesquisa, planeja, investe, acompanha cada passo. O problema não está no esforço. Está no projeto. Quando existe um desenho pronto de quem o filho tem que virar, todo desvio vira defeito a corrigir.

O jardineiro

O jardineiro trabalha de outro jeito. Ele não fabrica a planta. Prepara a terra, rega, protege do vento forte, tira a praga. Depois espera, porque quem decide o formato é a planta.

E um bom jardim nem é aquele onde tudo cresce igual. É o que aguenta variedade, se adapta quando o tempo muda e surpreende quem cuida dele.

Tem um trecho do livro que resume tudo:

“O nosso trabalho como pais não é produzir um tipo específico de criança. O nosso trabalho é oferecer um espaço protegido de amor, segurança e estabilidade, onde crianças de muitos tipos imprevisíveis possam florescer. Não é moldar a cabeça dos nossos filhos. É deixar essa cabeça explorar todas as possibilidades que o mundo permite.”

O psicólogo Jonathan Haidt, que já apareceu por aqui, cita esse mesmo trecho em A Geração Ansiosa.

Repare em três palavras: amor, segurança, estabilidade. Nenhuma delas é passiva. Jardineiro trabalha muito. Rega todo dia, acorda cedo, enfrenta geada. A diferença é pra onde aponta o esforço. O carpinteiro trabalha na peça. O jardineiro trabalha em volta dela: na terra, na água, na luz, em tudo que deixa a planta crescer do jeito dela.

Por que a infância é tão comprida

A Gopnik não diz isso por poesia. Diz porque é o que a biologia mostra.

O ser humano tem uma infância excepcionalmente longa. Num artigo de 2020 na revista da Royal Society, ela compara: um chimpanzé já produz a própria comida por volta dos 7 anos. Mesmo em povos caçadores coletores, a criança humana só se sustenta sozinha a partir dos 15. E custa caro. Aos 4 anos, mais de 60% das calorias que a criança gasta em repouso vão pro cérebro. No adulto, perto de 20%.

Nenhuma espécie pagaria um preço desses à toa. Pra Gopnik, a infância longa é uma divisão de trabalho dentro da vida da gente. Primeiro vem um período protegido, feito pra explorar, testar hipóteses, brincar, tentar o que não faz sentido. Depois vem a vida adulta, feita pra aproveitar o que foi aprendido e produzir resultado.

Ela tem uma imagem ótima pra isso, dita numa palestra na UCLA em 2011: as crianças são o departamento de pesquisa e desenvolvimento da espécie humana. Os adultos são a produção e o marketing.

Quando a gente cobra produção de quem está na pesquisa, está pedindo pro laboratório entregar o produto antes da hora.

A caixinha que acende

A melhor prova disso é um experimento do laboratório dela, publicado em 2014 na revista Cognition.

Os pesquisadores levaram uma caixinha que acende quando certos objetos são colocados em cima dela. Participaram 106 crianças de 4 e 5 anos e 170 universitários.

A regra mais comum é a óbvia: um objeto certo liga a caixa. Mas os pesquisadores mostraram a todos uma regra incomum: a caixa só acendia com pelo menos dois objetos certos juntos. Depois apresentaram uma situação nova e ambígua e perguntaram o que estava acontecendo.

A maioria dos universitários ignorou o que tinha acabado de ver e voltou pra regra óbvia. As crianças, com mais frequência, aplicaram a regra estranha que a evidência mostrava. Ganharam dos adultos. A conclusão do artigo é que as crianças carregam menos ideias prontas e prestam mais atenção no que está na frente delas.

Pensa no que isso quer dizer. O adulto chega com a resposta pronta. A criança chega com os olhos abertos. Não é falta de inteligência do adulto. É especialização. Ele ficou bom em aproveitar o que já sabe e perdeu um pouco da capacidade de explorar. A criança é o contrário. E é justamente essa diferença que a infância longa existe pra proteger.

E a quadra?

Agora leva tudo isso pro esporte.

O esporte de base vive cheio de projeto de carpinteiro. Calendário de torneio aos oito anos. Um esporte só antes dos dez. Ranking, pontuação, a comparação com o menino da outra cidade que já joga 14 e tem patrocínio. Tudo isso é desenho. É alguém decidindo antes da hora o formato da mesa.

A pergunta que importa é se o projeto funciona. E a maior revisão já feita sobre o tema responde.

Em 2022, Arne Güllich, Brooke Macnamara e David Hambrick reuniram 51 estudos com 6.096 atletas, 772 deles entre os melhores do mundo. Compararam quem chegou ao nível mundial com quem parou no nível nacional. O resultado foi publicado na Perspectives on Psychological Science com um título que não deixa dúvida: o que forma um campeão é a prática variada na infância, não a especialização precoce.

Os campeões mundiais adultos:

  • praticaram mais esportes diferentes na infância e na adolescência;
  • começaram mais tarde no esporte principal;
  • acumularam menos treino nele;
  • progrediram mais devagar no começo.

Entre os juvenis, o padrão era o inverso. Quem se destacava cedo tinha começado antes, treinado mais só uma modalidade e evoluído mais rápido. Ou seja: o projeto do carpinteiro produz o melhor juvenil. O jardim produz o melhor adulto.

Os autores acharam o mesmo desenho fora do esporte. Os ganhadores do Nobel também tinham formação e trabalho em mais de uma área e progresso mais lento no começo da carreira.

É a explicação da Gopnik com placar. Primeiro explorar, depois aproveitar. Quem pula a primeira fase ganha o torneio de 12 anos e pode perder o resto.

O que o jardineiro faz na prática

O jardineiro olha o mesmo menino na quadra e faz outras perguntas.

Ele está curioso? Ainda brinca, ou só cumpre? Tem espaço pra tentar uma jogada maluca e perder o ponto sem drama? Joga outra coisa além do esporte dele? Tem chão firme em casa pra voltar quando o dia der ruim?

Os três filhos do Eder lado a lado, cada um de uma altura e de um jeito: a do meio de cabelo cacheado, o mais velho no centro segurando um livro sobre o Federer, o caçula de moletom escuro.

Nenhuma dessas perguntas é sobre placar, ranking ou troféu. Todas são sobre o ambiente em que ele cresce: a curiosidade que a gente alimenta, a liberdade pra errar, a variedade de esportes, a casa que acolhe quando o dia dá ruim. Esse ambiente é o pai que constrói. O resultado nunca esteve na mão dele.

Lá em casa são três filhos, três temperamentos, três jeitos de jogar. Um projeto só serviria pra um deles, no máximo. Os outros dois iam passar a vida tentando caber num desenho que não era deles.

Se você quer continuar essa conversa comigo, ela segue em Ponto a Ponto, o manual de sobrevivência para pais de atletas.

Então amanhã, além do presente, fica a proposta. Olha pro seu filho como quem olha um jardim. Não pra conferir se ele está saindo conforme o desenho. Pra descobrir o que está nascendo ali que você não plantou.

É a melhor parte de ser pai.

Perguntas frequentes

O que é o pai carpinteiro e o pai jardineiro, segundo Alison Gopnik?

É a imagem central do livro The Gardener and the Carpenter, de 2016. O pai carpinteiro tem um modelo de adulto na cabeça e trabalha pra moldar o filho até ele chegar lá. O pai jardineiro não fabrica o resultado: prepara um espaço protegido de amor, segurança e estabilidade e deixa a criança explorar. Pra Gopnik, a ciência do desenvolvimento infantil apoia o jardineiro.

Quando surgiu a palavra parenting?

Os dicionários registram usos isolados na primeira metade do século XX, mas a palavra só decolou nos livros em inglês nos anos 1970. O manual How to Parent, de Fitzhugh Dodson, publicado em 1970, é apontado como o livro que popularizou o verbo. Pelo Google Books Ngram, parenting aparece hoje 74 vezes mais que em 1970.

Especializar cedo num esporte forma campeão?

A maior revisão sobre o tema diz que não. Arne Güllich, Brooke Macnamara e David Hambrick reuniram 51 estudos com 6.096 atletas, 772 deles de nível mundial. O trabalho saiu em 2022. Os campeões mundiais adultos praticaram mais esportes na infância, começaram mais tarde no esporte principal, acumularam menos treino nele e progrediram mais devagar no começo. Entre os juvenis o padrão era o inverso: quem se destacava cedo tinha começado antes e treinado mais só uma modalidade.

Por que a infância humana é tão longa?

Pra Gopnik, porque ela serve pra explorar. Um chimpanzé produz a própria comida por volta dos 7 anos. Mesmo em povos caçadores coletores, a criança humana só se sustenta depois dos 15. Esse período protegido permite testar hipóteses e aprender sem a pressão de produzir resultado, que fica pra vida adulta.

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