Ponto a Ponto

13 de junho de 2026 · 8 min de leitura

Quando a criança explode na quadra: o que a psicologia explica

Um atleta de 12 anos xingou o adversário a cada ponto e ganhou o torneio. Mas ninguém percebeu a frase mais grave do dia. O que a ciência diz sobre o cérebro, o gatilho e o quanto a gente realmente controla.

por Eder Miranda

Jovem tenista visto de costas no fundo de uma quadra de saibro, ombros tensos e cabeça baixa entre dois pontos, arquibancada desfocada ao fundo, luz de fim de tarde.

Semana dessas, um grupo de pais de tenistas pegou fogo.

Uma criança de 12 anos xingou o adversário a cada ponto perdido. Palavrão de verdade. O árbitro deu uma advertência mais branda do que a maioria achou justo. E ganhou o jogo. Depois ganhou o torneio.

O grupo reagiu como todo grupo reage. “Tênis não é lugar pra isso.” “Devia ter sido desclassificada.” “Se fosse comigo eu entrava na quadra e tirava à força.”

A família apareceu. Pediu desculpas na frente de todo mundo, de um jeito generoso e exposto. Quem já segurou a barra de um filho em público sabe o tamanho disso.

E foi aí que eu percebi que todo o grupo estava olhando pro lugar errado.

Porque teve uma frase nessa história que ninguém comentou. A mais grave de todas. No meio do jogo, a criança gritou “calem a boca”. Não pro adversário. Pros próprios pais.

Segura essa frase. A gente volta nela.

A pergunta que o grupo não fez

Todo mundo perguntou que tipo de criança faz isso. A pergunta que muda tudo é outra: o que acontece dentro da cabeça de uma criança de 12 anos no segundo em que ela perde o controle.

E a resposta da ciência é mais incômoda do que a gente gostaria, porque ela tira o holofote do caráter e joga no cérebro.

O freio do cérebro ainda não chegou

O psiquiatra Dan Siegel, da UCLA, descreve no livro Brainstorm o cérebro adolescente como um carro com o acelerador instalado e o freio ainda em obra. O acelerador é a amígdala, a parte emocional e reativa. O freio é o córtex pré-frontal, a região que pensa na consequência e segura o impulso. E ele só termina de amadurecer perto dos 25 anos.

Uma criança de 12 anos tem o pé no acelerador emocional e quase nenhum freio. Isso não é defeito de fábrica dela. É a fase de desenvolvimento em que ela está.

O que aconteceu tem nome: sequestro da amígdala

Daniel Goleman, no clássico Inteligência Emocional, batizou de sequestro da amígdala o momento em que a emoção atropela a razão. Diante de uma ameaça, o cérebro emocional assume o comando e o cérebro racional desliga. A pessoa reage primeiro e pensa depois.

Agora imagina isso numa quadra de tênis. Sem time pra dividir a culpa, sem técnico do lado, cada erro só dela, na frente de todo mundo, com o placar pesando mais do que devia. É o ambiente perfeito pra um sequestro emocional.

A criança não decidiu xingar. O cérebro estourou e a boca foi atrás.

O comportamento é sintoma, não é identidade

A psicóloga Becky Kennedy tem uma ideia que mudou o meu jeito de assistir aos meus filhos jogarem: por trás de todo comportamento difícil existe uma criança boa passando por um momento que ela ainda não sabe atravessar. Ela chama isso de a interpretação mais generosa.

Não é passar a mão na cabeça. É enxergar que a criança que explode é uma boa criança sem ferramenta, não uma criança ruim fazendo maldade. E o sintoma sempre aponta pra algum lugar.

A criança pega emprestado o sistema nervoso dos pais

Aqui a gente volta na frase. Antes de aprender a se acalmar sozinha, a criança pega emprestado o sistema nervoso do adulto. Os pesquisadores chamam isso de corregulação: o filho regula a emoção dele a partir da calma, ou da tensão, de quem está por perto. A psicóloga Aliza Pressman resume numa frase: as crianças tomam emprestado o nosso sistema nervoso.

Então quando uma criança grita “calem a boca” pros pais no meio do ponto, ela está dizendo, do único jeito que consegue naquele estado, uma coisa só: está pesado demais, e o peso está vindo de vocês.

Eu não conheço essa família e não vou julgar de longe. Mas conheço a cena. Todo pai de atleta conhece. A gente acha que está incentivando, e a criança ouve cobrança. A gente acha que está vibrando, e a criança sente o peso de não poder decepcionar.

Então a gente não controla nada?

Controla. Só que não a parte que o grupo queria controlar.

A explosão em si a gente não controla. Aos 12 anos, sob pressão, ela vai acontecer em graus diferentes em qualquer criança. Na sua também. O que a gente controla é o que vem antes e o que vem depois.

Antes: o quanto o nosso filho acredita que o nosso amor está amarrado no placar. E o modelo que a gente dá quando o juiz erra, quando a gente xinga o bandeirinha, quando a gente reclama da raquete no carro voltando pra casa. Filho não faz o que a gente fala. Faz o que a gente é.

Depois: o reparo. O que acontece na conversa da noite. Se vira sermão e castigo, a criança aprende a esconder. Se vira o que você sentiu lá dentro, a criança aprende a dar nome ao que sentiu. E dar nome é o primeiro freio que o cérebro instala.

O ponto que fica

É fácil olhar pro filho dos outros e ver caráter. É difícil olhar pro próprio e ver um cérebro em obra, que aprende a se acalmar, ponto a ponto, copiando o nosso.

A próxima explosão vai ser do nosso filho. Uma hora vai ser. E a pergunta não pode ser que vergonha, o que vão pensar de mim. Tem que ser: o que ele está tentando me dizer que ainda não sabe dizer com palavras.

Quem entende isso para de gritar da arquibancada. E começa a treinar a própria calma, porque é dela que o filho vai tomar emprestado.

Esse é um dos temas centrais de Ponto a Ponto: a hora em que o pai precisa deixar de ser juiz do comportamento e virar âncora da emoção. Parece simples. É das coisas mais difíceis que eu já tive que aprender.


Aquela família já fez a parte mais difícil na frente de todo mundo. Tomara que tenha feito a mais importante em casa, sem plateia. E se você está lendo isso pensando no seu filho, talvez a conversa mais importante do próximo torneio não aconteça na quadra. Aconteça no carro, no caminho de volta.

Perguntas frequentes

Por que uma criança de 12 anos xinga e perde o controle jogando tênis?

Porque o cérebro nessa idade ainda está em formação. A amígdala, responsável pela reação emocional, já está a todo vapor, enquanto o córtex pré-frontal, que freia o impulso e pensa na consequência, só amadurece por volta dos 25 anos. Sob a pressão de uma competição individual, em que cada erro é exposto e o resultado pesa, é comum o que Daniel Goleman chamou de sequestro da amígdala: a emoção atropela a razão e a criança reage antes de pensar. Na maioria das vezes não é falta de caráter, e sim imaturidade neurológica somada a um ambiente de alta pressão.

Xingar em quadra é falta de educação ou tem explicação na psicologia?

As duas coisas não se excluem, mas a psicologia ajuda a entender a origem. A psicóloga Becky Kennedy defende que o comportamento é um sintoma, não a identidade da criança: por trás de uma explosão costuma haver uma criança boa sem ferramenta para lidar com o que sente. Tratar só como falta de educação resolve a aparência e ignora o gatilho. Entender o gatilho, e ensinar a criança a nomear e regular a emoção, resolve a causa.

O que os pais podem fazer quando o filho explode na quadra?

No calor do momento, pouca coisa, porque a criança está sem o freio neurológico ativo. O trabalho dos pais acontece antes e depois. Antes: cuidar para que o filho não sinta que o amor deles depende do placar, e dar o exemplo de calma diante de erros de arbitragem e derrotas. Depois: fazer o reparo em conversa calma, longe da quadra, perguntando o que ele sentiu em vez de aplicar sermão. É assim que a criança aprende a dar nome à emoção, que é o primeiro passo do autocontrole.

Os pais controlam o comportamento do filho durante a competição?

Não controlam a explosão em si, que depende de um cérebro ainda em desenvolvimento. Controlam o entorno: o nível de pressão que colocam, o exemplo emocional que dão e a qualidade da conversa depois do jogo. A criança pega emprestado o sistema nervoso dos pais antes de aprender a se autorregular, um processo que a psicologia chama de corregulação. Por isso, o pai que treina a própria calma ajuda mais do que o que tenta controlar o filho de fora.

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