28 de maio de 2026 · 8 min de leitura
Cinco sets, quatro horas, calor escaldante. E ele não parou.
Kokkinakis virou de dois sets abaixo em Paris. O que isso tem a ver com um pai aprendendo a ficar quieto na arquibancada de Santo André.
por Eder Miranda
Kokkinakis chegou a Roland Garros 2025 sem ser favorito a nada. Mas ficou dois sets abaixo, com o sol de Paris martelando em cima de 35 graus, suando dentro de uma quadra que não perdoa fraqueza, e virou. Cinco sets, mais de quatro horas, o tipo de partida que expõe tudo que um atleta tem dentro. Não foi uma jogada técnica que decidiu. Foi algo construído muito antes, em anos de derrota processada, em momentos em que alguém acreditou nele antes que ele acreditasse em si mesmo.
Eu vi esse jogo de perto. Não em Roland Garros. Vi na arquibancada de um clube em Santo André, assistindo meu filho mais velho perder um set que parecia ganho. A linguagem corporal dele comunicava desistência antes da bola tocar a raquete. Ombros caídos, cabeça baixa entre os pontos, aquele jeito de andar até o fundo da quadra que diz mais do que qualquer placar.
A minha vontade era gritar. Dar instrução. Cobrar postura, cobrar concentração, pressionar. Fiz isso por anos. E sei exatamente o que aquilo produziu: um menino que travava quando o pai estava na arquibancada. Não porque ele fosse fraco. Porque ele estava jogando para dois: para o adversário na frente e para a voz que ele já conhecia de memória atrás de si.
Naquele dia eu fiquei quieto. Ele perdeu aquele set. E virou o jogo.
O pai que grita instrução está jogando por conta própria
Tem uma confusão que eu levei anos para entender. Quando a gente grita instrução da arquibancada, a sensação é de ajuda. É de presença. De investimento emocional. Parece que seria pior ficar parado, omisso, indiferente. A instrução é uma forma de dizer: estou aqui, estou prestando atenção, me importo.
O problema é que a criança que está dentro da quadra não recebe isso como cuidado. Ela recebe como pressão adicional num momento em que a cabeça já está cheia. Cada instrução gritada da arquibancada é mais uma variável que ela precisa processar enquanto tenta, ao mesmo tempo, encontrar o próprio ritmo, administrar o nervosismo e tomar decisões em frações de segundo.
A presença silenciosa do pai vale mais do que qualquer conselho técnico dado na hora errada.
Isso não é opinião. É o que acontece na quadra. O filho começa a jogar para agradar, para confirmar o que o pai quer ver, para não ouvir a cobrança depois. Ele para de jogar para ganhar e começa a jogar para não errar. E tênis jogado para não errar é tênis perdido.
Eu fui esse pai por tempo demais. E o preço não foi pago por mim.
O que cinco sets ensinam sobre confiança
Quando você assiste uma virada como a de Kokkinakis, é fácil romantizar. Fácil falar em garra, em coração, em não desistir. Mas o que acontece dentro de um atleta que está dois sets abaixo não é heroísmo espontâneo. É o resultado de um repertório mental construído ao longo de muitas derrotas que foram processadas, não escondidas.
Atletas que conseguem virar situações extremas têm algumas coisas em comum:
- Já perderam antes e sobreviveram. Eles sabem que a dor tem fim.
- Têm um processo, não apenas um resultado. A cabeça vai para o próximo ponto, não para o placar.
- Confiam no próprio corpo. Não estão esperando alguém de fora validar a decisão que tomaram dentro de quadra.
- Passaram por momentos em que alguém próximo confiou neles sem precisar falar nada.
Esse último item não é o menor. É provavelmente o mais difícil de construir e o mais fácil de destruir. Um pai que confia no filho sem precisar verbalizar essa confiança a cada ponto perdido é um pai que está ajudando a construir um atleta que confia em si mesmo.
A confiança não é transmitida por palavras da arquibancada. É transmitida pela ausência delas no momento errado.
O carro depois da partida é onde tudo se decide
Naquele dia em Santo André, quando meu filho saiu da quadra depois de virar o jogo, eu não falei de tênis. Falei da comida que a gente ia comer depois. Perguntei se ele queria hambúrguer ou pizza. Conversamos sobre isso.
Ele sabia que eu tinha visto tudo. Sabia que eu tinha assistido ao set perdido, ao momento de queda, e à virada. Mas eu não falei nada sobre isso, e ele não precisou que eu falasse. O silêncio não era indiferença. Era respeito.
O carro depois da partida é um dos ambientes mais carregados na vida de um pai com filho atleta. É onde mais erros acontecem. A derrota ainda dói, o corpo ainda está quente, a emoção ainda está na superfície, e a tentação de fazer uma análise técnica imediata é enorme. Parece útil. Parece que é a hora de aprender com o que aconteceu.
Não é. Aquele momento não é para aprender tênis. É para aprender que quem ele é não depende do resultado que acabou de acontecer. E essa lição não cabe em análise técnica. Só cabe no silêncio de alguém que ficou ao lado sem precisar de nada em troca.
Resiliência não nasce do filho que não desiste. Nasce do pai que aprende a confiar que o filho encontra o caminho, mesmo quando parece que não vai encontrar. Kokkinakis venceu aquela partida porque alguém, em algum momento da vida dele, ficou quieto e deixou ele descobrir que conseguia. Não sei quem foi essa pessoa. Mas aposto que ela existiu.
Ficar quieto é uma habilidade, não uma omissão
Tem uma parte que eu preciso deixar clara porque é onde mais pais travam: ficar quieto na arquibancada não é passividade. Não é desinteresse. Não é abrir mão do seu papel.
É exatamente o oposto. Exige mais de você do que gritar instrução. Exige que você reconheça que o seu papel naquele momento não é técnico. Exige que você segure a ansiedade, que você tolere a incerteza, que você assista ao filho lutar sem intervir. Isso é ativo. Isso cansa. Isso é trabalho emocional real.
A instrução na hora errada é, muitas vezes, mais sobre a ansiedade do pai do que sobre a necessidade do filho. A gente grita porque não aguenta ficar parado. Porque aquilo dói em nós também. Porque a gente quer resolver, quer ajudar, quer que o filho vença e que a nossa presença tenha feito diferença.
Mas a diferença que um pai faz na vida de um filho atleta raramente aparece no placar do dia. Aparece anos depois, na capacidade que o filho tem de se levantar depois de cair, de confiar no próprio processo, de jogar para si mesmo em vez de jogar para os olhos que estão na arquibancada.
Esse é um dos temas que trato em Ponto a Ponto: o momento em que o pai precisa deixar de ser técnico e começar a ser âncora. A distinção parece simples. Na prática, é uma das coisas mais difíceis que eu já aprendi.
Se você já viveu aquele silêncio no carro depois de uma derrota e sentiu que foi a coisa certa, você já sabe do que eu estou falando. E se você ainda está aprendendo a segurar a instrução na ponta da língua, saiba que isso também é treino. Nenhum pai nasce sabendo ficar quieto. A gente aprende errando, da mesma forma que o filho aprende perdendo.
Perguntas frequentes
Como saber quando é hora de ficar quieto e quando falar algo para o filho na arquibancada?
Durante a partida, a regra mais segura é: se o técnico do seu filho não está falando naquele momento, você também não precisa. Depois da partida, espere o filho processar antes de iniciar qualquer conversa sobre o jogo. Se ele quiser falar, ele vai abrir. Se não quiser, o silêncio também é uma forma válida de terminar o dia.
Meu filho perde a cabeça quando está perdendo e eu fico desesperado na arquibancada. O que fazer?
O desespero que você sente na arquibancada é real, mas ele é seu, não dele. O filho que perde a cabeça em quadra está passando por algo que ele precisa aprender a administrar, e esse aprendizado acontece na quadra, não a partir de instruções vindas de fora. O que você pode fazer é trabalhar esse tema em conversa calma fora do contexto da partida, nunca durante ou imediatamente depois.
Filho que não demonstra reação na quadra, que parece desistir, é sinal de que não quer continuar no esporte?
Não necessariamente. A linguagem corporal de desistência durante uma partida pode ser sinal de muitas coisas: excesso de pressão, medo de errar, cansaço emocional acumulado, ou simplesmente uma fase. Vale conversar com o filho em momento neutro, sem o calor da competição, e perguntar diretamente como ele está se sentindo no esporte. A resposta dele, sem pressão, vai ser mais honesta do que qualquer comportamento em quadra.
Vale a pena o filho continuar treinando depois de uma derrota difícil, ou é melhor dar uma pausa?
Depende do que a derrota custou. Se foi física, o corpo precisa de tempo. Se foi emocional, uma pausa forçada pode aumentar a ansiedade em vez de diminuir. Na maioria dos casos, voltar ao treino logo, em clima leve e sem pressão de resultado, ajuda mais do que afastar. O treino do dia seguinte pode ser o momento em que o filho reestabelece a relação positiva com o esporte, sem o peso da derrota recente.
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