31 de maio de 2026 · 7 min de leitura
O ambiente que deveria proteger o atleta pode ser o que mais machuca
Swiatek denunciou que Roland Garros está lesionando atletas. O paralelo com o que pais criam em casa sem perceber é desconfortável — e necessário.
por Eder Miranda
Iga Swiatek denunciou publicamente que a disposição das quadras em Roland Garros está causando lesões nos atletas. O local mais sagrado do saibro mundial, aquele que ela já conquistou múltiplas vezes, machucando quem mais ama estar lá. A notícia circulou rápido, gerou debate sobre infraestrutura, sobre a responsabilidade dos organizadores, sobre o quanto um layout mal planejado pode interromper uma carreira.
Li a reportagem e não consegui ficar no plano técnico. Não porque a questão seja menos importante, mas porque o meu cérebro foi direto para outro lugar: os ambientes que deveriam ser seguros para um atleta e não são. E o mais perigoso deles, na maioria das vezes, não é uma quadra. É o carro na volta do torneio. É a mesa do jantar. É o silêncio dentro de casa depois de uma derrota.
Eu sei disso porque fui, por muito tempo, o pai que construía exatamente esse ambiente. Não com má intenção. Nunca é com má intenção. Mas intenção e impacto são coisas diferentes, e eu demorei para entender essa distância.
O layout da quadra e o layout do comportamento
A Swiatek está pedindo para a organização de Roland Garros repensar o layout físico das quadras, o ângulo entre elas, o espaço de circulação, as condições que multiplicam o risco de lesão. É uma demanda legítima. Quando um ambiente está mal estruturado, o corpo paga o preço.
Mas existe um outro tipo de layout que nenhum engenheiro vai redesenhar: o comportamento do adulto na vida de um atleta jovem. A forma como a derrota é recebida. O tom que a voz assume quando o resultado não veio. O que acontece nos primeiros cinco minutos depois que o filho entra no carro.
Esse layout também causa lesão. E essa lesão não aparece em raio-X.
Lesão no tendão aparece no exame. Lesão na confiança de uma criança não aparece em lugar nenhum, mas ela limita o movimento por anos.
A grande diferença é que a lesão física para o atleta. Dói, ele reclama, o médico intervém, existe um protocolo de recuperação. A lesão emocional, muitas vezes, não para ninguém. O atleta continua treinando, continua competindo, continua aparentemente funcional. O dano fica embaixo, silencioso, acumulando.
O carro como tribunal
Eu já vivi o silêncio no carro depois da derrota. Conheço bem os dois lados dele: o silêncio que acolhe e o silêncio que pune. E por muito tempo, o meu era o segundo tipo.
Não era um silêncio de presença. Era um silêncio de julgamento suspenso, aquele onde a criança sabe que algo vai vir, só não sabe quando. Ou então vinha logo: a análise técnica que ninguém pediu, a lista de erros embalada como orientação, a comparação disfarçada de motivação.
Eu achava que estava cumprindo meu papel de pai presente e engajado. Na prática, estava transformando um espaço que deveria ser de descompressão no momento mais tenso da experiência esportiva do meu filho mais velho.
O carro tem uma característica cruel: ninguém pode sair. Você está preso com aquilo que o outro está despejando, seja ele pai ou filho. Quando o adulto usa esse espaço para cobrar, analisar ou punir com silêncio, ele não está ajudando o atleta a processar uma derrota. Ele está ensinando ao filho que perder tem consequências relacionais. Que o amor e a aprovação têm condição.
O que torna um ambiente seguro ou perigoso
Se você perguntar para qualquer atleta de alto rendimento o que foi mais determinante na sua formação, raro é aquele que vai citar a qualidade da quadra. A maioria vai falar de pessoas. Do técnico que acreditou. Do pai que estava lá sem cobrar. Da mãe que não transformou cada resultado em conversa obrigatória.
Ambiente seguro, no esporte, não é ausência de exigência. Exigência faz parte. O que diferencia um ambiente seguro de um perigoso é outra coisa:
- Previsibilidade emocional: o atleta sabe o que vai encontrar quando chegar em casa, independentemente do resultado.
- Separação entre desempenho e valor: o filho entende que o amor do pai não está indexado ao placar.
- Espaço para o silêncio que acolhe: às vezes, a derrota pede silêncio. Não análise. Não conselho. Silêncio com presença.
- Permissão para fracassar sem custo relacional: a criança pode perder sem medo de perder também a aprovação do adulto mais importante da sua vida.
Quando qualquer um desses elementos falta de forma consistente, o ambiente vira campo de risco. O atleta continua indo para os treinos, mas uma parte dele está sempre em alerta. Sempre gerenciando a relação com o pai enquanto tenta também gerenciar o jogo.
Isso consome energia. Energia que deveria estar toda no esporte.
O que a Swiatek nos lembra sobre responsabilidade
O que me chamou atenção na declaração da Swiatek não foi só a denúncia em si. Foi a clareza. Ela não minimizou, não relativizou, não disse que os atletas precisam se adaptar. Ela apontou o problema e nomeou quem tem a responsabilidade de resolvê-lo: os organizadores.
Isso é maduro. É a diferença entre naturalizar um risco e nomear a causa dele.
Pais de atletas precisam do mesmo movimento. Não o de se flagelarem por erros que cometeram sem intenção, mas o de encarar a pergunta com honestidade: o ambiente que eu crio em casa está ajudando ou está lesionando?
Essa pergunta é desconfortável porque a resposta honesta, para muitos de nós, não é a que gostaríamos de dar. Eu já fui o pai que cobrava demais e chamava isso de investimento. Que analisava quando devia calar. Que transformava o carro num espaço que meu filho provavelmente temia mais do que qualquer adversário.
Não estou aqui para distribuir culpa. Estou dizendo que o reconhecimento é o primeiro passo concreto. Não o único, mas o primeiro. Você não muda um layout que não enxerga.
Roland Garros vai ou não vai reconfigurar as quadras. Esse processo tem burocracia, tem custo, tem inércia institucional. Mas o pai que percebe hoje que o layout do próprio comportamento precisa mudar pode começar a mudar amanhã. Sem burocracia. Sem custo financeiro. Com apenas uma decisão diferente no próximo silêncio depois da próxima derrota.
Esse é exatamente o tipo de virada que trato em Ponto a Ponto: pequena na aparência, enorme nas consequências para quem está crescendo ao lado de você.
Perguntas frequentes
Como saber se o ambiente que crio em casa está prejudicando meu filho atleta?
Observe o comportamento dele depois das derrotas: ele fala sobre o que aconteceu ou fecha? Ele parece ansioso antes das conversas no carro? Se o filho evita compartilhar o que sente no esporte, geralmente é porque aprendeu que o ambiente em casa não é seguro para isso. Isso é um sinal claro.
O que fazer nos primeiros minutos depois que meu filho perde um jogo importante?
Na maioria das vezes, a melhor resposta é não fazer nada além de estar presente. Sem análise, sem conselho, sem comparação. Um abraço ou um simples silêncio acolhedor comunica que o afeto não depende do resultado. Só depois, e só se ele abrir, você entra na conversa.
Existe diferença entre cobrança saudável e ambiente de pressão prejudicial?
Sim, e a diferença está na condicionalidade. Cobrança saudável eleva o padrão sem ameaçar a relação. Pressão prejudicial faz o filho sentir que decepcioná-lo tem custo emocional: silêncio, frieza, irritação, comparação. Quando o filho começa a jogar para não desapontar o pai, em vez de jogar pelo prazer do esporte, o ambiente já virou campo de risco.
Como mudar um padrão de comportamento que já se estabeleceu por anos?
Com consistência, não com um gesto dramático. Uma conversa honesta com o filho sobre o que você percebeu ajuda, mas o que realmente muda o ambiente é o comportamento diferente repetido ao longo do tempo. Ele vai testar se a mudança é real. Só a repetição vai convencê-lo de que é.
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