Ponto a Ponto

23 de maio de 2026 · 8 min de leitura

Wawrinka e Monfils se despedindo me lembrou de uma dor que eu não esperava

A aposentadoria de Wawrinka e Monfils em Roland Garros me fez encarar algo que nenhum pai de atleta espera sentir: a finitude do jogo do próprio filho.

por Eder Miranda

Pai e filho adolescente sentados nas arquibancadas de uma quadra de saibro, olhando para a quadra vazia, luz dourada de fim de tarde, postura silenciosa e pensativa.

Roland Garros anunciou wildcards para Stan Wawrinka e Gaël Monfils. Uma despedida oficial de dois homens que deram décadas ao tênis. É bonito. É brutal. E me pegou num lugar que eu não estava preparado para ser pego.

Eu vi Monfils ao vivo. Estava no estádio em Lille, em novembro de 2014, na abertura da final da Copa Davis contra a Suíça. Eram 27 mil pessoas e aquele cara destruiu o Federer com uma alegria que parecia quase ofensiva para quem estava do outro lado da rede. Meu filho mais velho tinha seis anos. Ficou hipnotizado. Lembro da expressão dele olhando para aquele corpo que parecia não obedecer às leis normais da física.

Agora Monfils vai entrar em Roland Garros sabendo que é a última vez. E eu fico sentado aqui pensando numa coisa que ninguém me avisou que ia doer: o que acontece com o pai quando o filho atleta chegar nesse mesmo ponto um dia?

Eu já sei a resposta, de certa forma. Já sinto o ensaio dessa dor. Meu filho mais velho está na Espanha construindo a carreira que escolheu. Cada fase que avança é uma fase da infância que não volta. Cada conquista dele é também uma despedida de algo que existiu entre nós dois e que não vai existir mais da mesma forma. Essa conta é silenciosa e ninguém te entrega o extrato.

O que a despedida de um atleta revela

Há algo de sagrado num atleta que entra em quadra sabendo que é a última vez naquele palco. Não é derrota. É um ciclo que se fecha com consciência. Wawrinka carrega três Grand Slams e um corpo que pagou caro por cada um deles. Monfils carrega uma carreira inteira jogada com alegria genuína, um estilo que era dele e de mais ninguém.

O que me impressiona não é a despedida em si. É a clareza dela. Eles sabem que é o fim. Entraram em Roland Garros com um wildcard que é quase uma reverência do torneio para tudo que eles representaram. E vão jogar sabendo que cada ponto é o último naquele lugar.

Poucos de nós vivemos qualquer coisa com essa clareza. A maioria das despedidas da vida acontece sem aviso. A última vez que você viu seu filho de um jeito específico, você não sabia que era a última vez.

A aposentadoria do atleta começa a doer no pai muito antes de acontecer.

Isso é o que ninguém te conta quando você entra nessa vida de pai de atleta. Você acha que o momento difícil vai ser quando ele parar. Mas a dor começa antes. Ela começa quando você percebe que o tempo está correndo e que você nem sempre esteve presente da forma que deveria.

O erro que eu cometi por muito tempo

Eu já fui o pai que cobrava resultado no carro voltando da competição. Já fui o pai que analisava o jogo quando o que o menino precisava era de silêncio. Já confundi apoio com pressão tão naturalmente que nem percebia a diferença.

O problema não era falta de amor. Era excesso de investimento no resultado e déficit de atenção para o momento. Eu estava tão focado em onde ele ia chegar que deixava de ver onde ele estava. E onde ele estava era exatamente onde eu deveria estar também, inteiro, sem agenda.

Quando Wawrinka e Monfils entrarem em quadra em Paris, não vai importar o ranking deles hoje. Vai importar o que aquele momento significa. E a pergunta que fico me fazendo é: quantos momentos como esse eu deixei passar com meu filho porque estava ocupado demais com o que vinha depois?

Algumas coisas que aprendi a custo, e que qualquer pai de atleta vai reconhecer:

  1. O jogo tem prazo de validade. Todo atleta para um dia. Você sabe disso racionalmente, mas não sente isso até precisar sentir.
  2. Cada fase avançada é também uma despedida. Quando ele passa de categoria, quando ele vai para outro país, quando ele vence o primeiro torneio importante, algo anterior a isso fica para trás para sempre.
  3. A memória que fica não é do resultado. Anos depois, o que você vai lembrar é de como estava o céu naquele dia, do cheiro de saibro, de como ele olhou pra você antes de entrar em quadra. Não do placar.
  4. Presença é uma decisão ativa. Não acontece por acidente. Você precisa escolher estar ali de verdade, sem o celular, sem a análise tática, sem a preocupação com o próximo torneio.
  5. O filho atleta vai seguir em frente. É para isso que você está trabalhando. E quando ele seguir, você vai precisar ter feito as pazes com o que ficou para trás.

O que Roland Garros está nos mostrando

Existe algo que grandes torneios fazem de tempos em tempos que eu acho mais honesto do que a maioria das coisas no esporte profissional: eles reconhecem o fim. Não fingem que não existe. Não desviam o olhar. Dão um wildcard, abrem a porta, e dizem: entre mais uma vez, com dignidade.

Isso é raro. No esporte amador, no tênis de formação, no dia a dia de um jovem atleta, raramente existe esse ritual de encerramento. As coisas simplesmente param. O menino para de competir, a vida segue, e ninguém marca a despedida com a devida solenidade.

Talvez caiba ao pai fazer isso. Não esperar que o esporte organize o encerramento. Criar os próprios rituais de reconhecimento ao longo do caminho, para que quando o fim chegar, ele não seja só perda. Seja também celebração do que foi.

Ver Monfils pela primeira vez tinha seis anos. Hoje meu filho mais velho está construindo a própria história num país diferente. Entre esses dois pontos existe uma quantidade absurda de momentos que eu gostaria de ter vivido com mais atenção e menos pressa.

Não dá para voltar. Dá para parar agora.

O tempo que ainda tem

Wawrinka e Monfils vão entrar em Roland Garros sabendo que é a última vez naquele palco. Essa consciência, por mais dolorosa que seja, é também um presente. Ela força a presença total. Não tem como estar distraído quando você sabe que é o fim.

O pai de atleta raramente tem essa clareza. Você não sabe quando vai ser a última vez que ele vai precisar de você na arquibancada. Não sabe quando vai ser a última viagem juntos para uma competição. Não sabe quando a dinâmica entre vocês vai mudar de uma forma que não tem volta.

Por isso a pergunta não é sobre o futuro. É sobre agora: o que você está fazendo com o tempo que ainda tem?

Esse é um dos temas que trato em Ponto a Ponto, o livro que estou escrevendo sobre paternidade no esporte. Não porque eu tenha todas as respostas, mas porque passei tempo demais sem nem fazer as perguntas certas.


Perguntas frequentes

Como lidar com a sensação de perda quando o filho avança de fase no esporte?

Reconheça que sentir essa perda é legítimo, não é fraqueza. Cada fase avançada é real do ponto de vista emocional: algo anterior ficou para trás. O que ajuda é criar pequenos rituais de reconhecimento, uma conversa, uma memória registrada, qualquer coisa que marque o que foi antes de seguir adiante.

O que fazer quando percebo que cobrei demais do meu filho atleta?

O primeiro passo é parar de se punir pela cobrança passada e começar a agir diferente agora. Isso significa fazer perguntas sobre como ele se sente antes de analisar o desempenho, e aprender a distinguir o momento em que ele quer análise do momento em que ele só quer ser ouvido. A mudança não precisa ser anunciada, só precisa acontecer.

Como preparar meu filho para a aposentadoria esportiva sem deixá-lo ansioso?

Não comece pela aposentadoria. Comece construindo uma identidade fora do esporte desde cedo, interesses, amizades, referências que não dependam do resultado em quadra. Quando o atleta tem outras dimensões da vida funcionando, o fim da carreira esportiva é uma transição, não um colapso.

É normal sentir que perco meu filho quando ele vai para o esporte de alto rendimento em outro país?

É completamente normal e mais comum do que os pais admitem em voz alta. O que você está sentindo é a tensão entre dois amores simultâneos: o amor que quer que ele cresça e o amor que quer que ele fique perto. Os dois são verdadeiros. Nomear isso para si mesmo já alivia parte do peso.

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