Ponto a Ponto

01 de maio de 2026 · 8 min de leitura

Alcaraz e Djokovic fora de Madri. O corpo cobra o que a cabeça ignora.

Dois dos maiores jogadores do mundo caem lesionados antes de Roland Garros. O que isso revela sobre o que fazemos com filhos de 12 anos sem perceber.

por Eder Miranda

Alcaraz e Djokovic fora de Madri. O corpo cobra o que a cabeça ignora.

Alcaraz saiu de Madri. Djokovic saiu de Madri. Dois dos melhores jogadores que o tênis já produziu, parados às vésperas do Grand Slam que talvez mais amem, não por falta de talento, não por falta de garra, mas porque o corpo chegou antes da decisão deles.

Eu li a notícia e não fiquei pensando em ranking, nem em quem ocupa a chave agora. Fiquei pensando nos anos em que fiz exatamente o que as equipes deles, com toda a tecnologia e ciência disponível, falharam em evitar. Só que eu fiz isso com uma criança de doze anos. Com meu filho mais velho. Sem fisioterapeuta, sem monitoramento de carga, sem nada além da minha convicção de que mais torneios significavam mais desenvolvimento.

Eu já fui esse pai. O que achava que calendário cheio era sinal de comprometimento. O que confundia fadiga com falta de garra. O que ouvia o corpo do meu filho reclamar e interpretava aquilo como frescura de criança que não quer treinar.

O que Alcaraz e Djokovic revelam sobre a carga invisível

Existe uma ilusão confortável no esporte infantil: a de que criança se recupera rápido, que o corpo jovem aguenta mais, que o desgaste é coisa de atleta velho. É uma ilusão perigosa e eu acreditei nela por muito tempo.

Alcaraz tem vinte e um anos, uma comissão técnica inteira dedicada a monitorar cada sessão de treino, exames de imagem regulares e protocolos de recuperação que a maioria dos clubes profissionais nem sonha em implementar. Djokovic tem trinta e sete anos de experiência acumulada no próprio corpo, sabe melhor do que ninguém os sinais que precede uma lesão séria. E mesmo assim os dois pararam.

O corpo não negocia com a ambição. Ele apresenta a conta quando quer, não quando é conveniente.

Quando um atleta profissional, com toda essa estrutura, ainda assim se lesiona, a pergunta que ninguém faz é a mais óbvia: o que acontece com a criança que não tem nada disso? A que acorda cedo no sábado, joga um torneio, dorme no carro de volta, acorda domingo e joga de novo, porque o pai achou que esse era o fim de semana certo para pegar ritmo de jogo?

Não tem exame de imagem nesse cenário. Tem um adulto na arquibancada que confunde vontade própria com necessidade real do filho.

O equívoco do calendário como estratégia

Eu construí durante anos a crença de que acumular torneios era sinônimo de construir carreira. Mais partidas, mais experiência. Mais experiência, mais amadurecimento. Mais amadurecimento, mais resultado. A lógica parecia impecável.

O problema é que essa lógica ignora um detalhe central: o corpo de uma criança em desenvolvimento não é uma versão menor de um corpo adulto. É um sistema em formação, com placas de crescimento ativas, musculatura ainda construindo base, sistema nervoso ainda calibrando padrões motores. Forçar esse sistema além da capacidade de recuperação não acelera o desenvolvimento. Ele interrompe.

Os danos mais comuns que o calendário excessivo causa em atletas jovens incluem:

  • Lesões por overuse, que são microtraumas repetidos que se acumulam sem sintoma agudo até virar problema sério
  • Burnout emocional, que aparece como desinteresse pelo esporte antes mesmo da adolescência terminar
  • Alterações no crescimento ósseo em esportes de impacto e rotação, como o tênis
  • Queda de rendimento escolar por privação de sono e recuperação insuficiente
  • Ruptura na relação com o esporte, que passa a ser associado a obrigação e não a prazer

Nenhum desses itens aparece de forma imediata. Essa é a parte traiçoeira. O pai que empurra demais não vê o resultado do empurrão na hora. Vê semanas ou meses depois, quando o filho pede para parar, quando a lesão aparece, quando o olho que brilhava no treino apaga.

Eu vi esse olho apagar. Demorei a entender que fui eu quem apagou.

O pai que eu era

A parte mais difícil de aceitar foi parar de contar a história do filho e começar a contar a história do pai que eu era. O pai que confundiu presença com pressão, dedicação com imposição, amor com controle.

Os torneios excessivos e a pressão por calendário foram mais destruidores do que construtores na relação com meu filho mais velho. Não como hipótese. Como fato que eu testemunhei acontecer e escolhi ignorar por tempo demais.

O que me salvou, e o que salvou nossa relação, não foi uma técnica nova de coaching, não foi um especialista em periodização. Foi parar. Foi sentar com meu filho e perguntar o que ele queria, não o que eu queria para ele. Foi ouvir a resposta sem já ter decidido o que fazer com ela.

Proteger o corpo do seu filho hoje não é fraqueza. É a única estratégia inteligente de longo prazo que existe.

Essa frase que escrevi no caption do Instagram não é motivacional. É literal. Um atleta lesionado não compete. Um atleta que desenvolveu aversão ao esporte na infância não volta. O longo prazo no esporte infantil começa no próximo fim de semana, na decisão de entrar ou não em mais um torneio quando o seu filho claramente precisava de descanso.

Como reconhecer que você passou do ponto

Não existe um alarme que toca. Não existe um placar que muda de verde para vermelho. O excesso de carga se instala de forma gradual e quase sempre com justificativa razoável. “É só mais esse torneio.” “Ele descansa semana que vem.” “A temporada está quase acabando.”

Alguns sinais que eu ignorei e que hoje reconheço como alertas reais:

  1. Queixas físicas que aparecem toda semana, mesmo que em locais diferentes. Dor no joelho essa semana, no ombro na outra. O corpo fala em vários canais ao mesmo tempo.
  2. Resistência para ir ao treino que antes não existia. Não é preguiça. É sinal de que o prazer foi consumido pela obrigação.
  3. Desempenho caindo em torneios seguidos, mesmo com treino regular. Corpo sem recuperação não performa, não importa quanto treino coloque por cima.
  4. Criança que para de falar sobre o esporte fora do contexto do esporte. Quando o tênis, o futebol, a natação sai das conversas espontâneas, saiu também do coração.
  5. Você mesmo está mais ansioso com o calendário do que seu filho. Esse talvez seja o sinal mais honesto de todos.

Se você se reconhece em mais de um desses pontos, o problema não é o seu filho. É o calendário que você montou para ele.

O que vem depois de reconhecer o excesso

Reconhecer que você errou na dosagem não apaga o erro, mas abre a possibilidade de fazer diferente. No meu caso, a reconstrução foi lenta. A confiança do meu filho mais velho em mim como parceiro de jornada, não como cobrador de resultados, levou tempo para voltar. Não voltou porque eu pedi desculpas. Voltou porque meu comportamento mudou de forma consistente.

Menos torneios. Mais presença no treino sem comentário sobre o que deu errado. Mais perguntas, menos respostas prontas. Mais respeito pelo que o corpo dele dizia, mesmo quando a cabeça dele queria continuar.

Alcaraz e Djokovic vão voltar. Têm equipe, têm experiência, têm estrutura para gerenciar a recuperação. O seu filho de doze anos só tem você. Isso é uma responsabilidade enorme, mas também é um privilégio que passa rápido demais para ser desperdiçado em fins de semana que não valiam a pena.

Perguntas frequentes

Como saber se meu filho está jogando torneios demais?

Observe se ele apresenta queixas físicas recorrentes, resistência crescente para treinar ou queda de rendimento mesmo mantendo a rotina. Se dois ou mais desses sinais aparecem juntos, o calendário provavelmente está além da capacidade de recuperação dele.

Quantos torneios por mês é considerado razoável para uma criança de 10 a 13 anos?

Não existe número universal, porque depende do esporte, da intensidade dos treinos e do histórico físico da criança. O que especialistas em desenvolvimento esportivo consistentemente apontam é que nessa faixa a prioridade deve ser treino de qualidade, não volume de competição. Um torneio por mês com recuperação adequada tende a ser mais construtivo do que quatro torneios apertados.

Meu filho diz que quer jogar mais torneios. Isso não significa que ele aguenta?

Nem sempre. Crianças frequentemente querem agradar os pais ou não conseguem distinguir entusiasmo de capacidade física real. A vontade de competir é saudável, mas a decisão sobre carga de competição é responsabilidade do adulto, não da criança. Querer e aguentar são perguntas diferentes.

Já errei no calendário do meu filho. Como recuperar a relação?

O passo mais importante é mudar o comportamento de forma concreta, não apenas pedir desculpas. Reduza a carga, pergunte o que ele quer, ouça sem já ter a resposta pronta. A confiança volta pelo que você faz de forma consistente, não pelo que você diz uma vez.

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