Ponto a Ponto

02 de maio de 2026 · 8 min de leitura

Genie Bouchard falando sobre saúde mental me fez lembrar de uma coisa que ignorei por anos

Bouchard sumiu do topo do tênis e apareceu num painel sobre saúde mental. Eu assisti e fiquei quieto. Porque eu já fui o pai que via resultado, não filho.

por Eder Miranda

Pai sentado sozinho nas arquibancadas de uma quadra de tênis vazia, olhar distante, luz fria de tarde nublada, expressão de quem está refletindo sobre algo pesado.

Genie Bouchard era considerada a próxima grande do tênis mundial. Top 5, final de Wimbledon, rosto de uma geração inteira. E de repente sumiu. Não foi uma lesão definitiva, não foi um escândalo. Foi algo mais difícil de nomear. Agora ela aparece num painel do Tennis Canada falando sobre saúde mental na formação de atletas, e a imagem dela lá, tentando articular palavras para algo que o esporte raramente deixa a gente dizer em voz alta, ficou comigo por mais tempo do que eu esperava.

Eu assisti àquilo e fiquei quieto por um tempo. Não porque o assunto fosse novo. Mas porque ele me devolveu uma versão de mim que preferia não rever. Houve um período em que eu olhava pro meu filho mais velho e via resultado, não pessoa. Via ranking, não menino. Via retorno do investimento que a gente nunca fala que está fazendo, mas está. E eu sei que não estava sozinho nisso. Estou falando de algo que a maioria dos pais de atletas jovens carrega sem perceber que carrega.

A pressão que a gente não chama de pressão

Tem uma ilusão muito conveniente no universo do esporte de formação: a de que cobrar é a mesma coisa que acreditar. Que quanto mais exigente o pai, mais longe o filho vai chegar. Que o silêncio tenso no carro depois de uma derrota é só uma forma de levar a sério. Que a comparação com outro atleta é motivação, não humilhação.

Eu já usei todos esses disfarces. E o problema com disfarces é que eles convencem primeiro a quem os usa.

A pressão emocional que pais exercem sobre filhos atletas raramente tem nome. Ela não aparece como agressão, não vira notícia, não gera processo. Ela mora no tom de voz depois de um erro, no olhar que não celebra o esforço quando o resultado não veio, no silêncio no banco de trás do carro que a criança aprende a decifrar antes mesmo de entender o placar.

O silêncio que o pai usa como punição é uma das formas mais eficazes de comunicar que o amor tem condição de desempenho.

Isso não é educação esportiva. É condicionamento emocional. E o custo vem com juros.

O que o caso Bouchard mostra de verdade

Seria fácil reduzir a trajetória de Bouchard a uma narrativa de talento desperdiçado ou de atleta que não aguentou a pressão. Mas essa leitura ignora a pergunta mais importante: de onde vem a pressão que um atleta de formação aprende a internalizar antes de chegar ao profissional?

Nenhum atleta falha sozinho. Nenhum. O colapso de performance que a gente vê nos adultos tem raízes plantadas anos antes, na infância e adolescência, nos ambientes que deveriam ser de desenvolvimento e às vezes eram de exigência sem suporte emocional.

O esporte de alto rendimento é exigente por natureza. Ninguém chega ao nível de Bouchard sem trabalho brutal. Mas existe uma diferença enorme entre a dureza do processo de desenvolvimento e o peso emocional de sentir que você só vale enquanto está vencendo. A primeira forma atletas. A segunda quebra pessoas.

Os sinais que a gente ignora porque é inconveniente enxergá-los:

  • A criança que para de falar sobre o esporte em casa, porque aprendeu que a conversa vai ser sobre o que errou.
  • O adolescente que vence e não celebra, porque já está processando o que vem pela frente.
  • O jovem que joga lesionado sem avisar, porque sabe que parar vai decepcionar alguém.
  • O atleta que some do esporte logo depois de chegar lá, sem conseguir explicar por quê.

Esse último é o mais silencioso. E o mais caro.

O que eu aprendi olhando para o espelho errado

Por muito tempo eu confundi intensidade com cuidado. Achei que estar presente em todos os treinos, pagar as melhores academias, acompanhar cada torneio era o máximo que um pai podia fazer. E é muito. Mas não é suficiente se o filho aprende, nesse processo todo, que o pai aparece pelo desempenho dele, não por ele.

A virada para mim não foi um momento dramático. Foi um acúmulo de pequenas percepções que eu fui adiando porque era desconfortável parar e olhar direito. Vi o corpo do meu filho dar sinais que eu minimizei porque o calendário não podia parar. Vi o entusiasmo pelo esporte oscilar de formas que eu racionalizei como fase, como cansaço, como qualquer coisa que não exigisse que eu mudasse minha postura.

A questão que ficou comigo depois de assistir Bouchard falar foi simples e brutal: quantos pais estão fazendo hoje o que eu fiz, sem saber o preço que estão passando pro filho pagar depois?

Pressão sem suporte emocional não forma campeão. Forma uma pessoa que aprendeu a funcionar com medo de decepcionar.

Esse é um dos temas que trato em Ponto a Ponto, porque achei que valia a pena ir fundo nele sem suavizar. Não como especialista em psicologia esportiva. Como pai que esteve no banco de trás desse carro e demorou demais para entender o que estava comunicando com o silêncio.

O que dá para fazer diferente

Não estou aqui para dar lista de dicas de como ser o pai perfeito do atleta. Não existe isso. Mas existem perguntas que eu acho que vale fazer com honestidade:

  1. Quando meu filho ou minha filha erra, minha primeira reação é sobre o erro ou sobre a pessoa que errou?
  2. A conversa depois do treino ou da competição começa pelo resultado ou pelo filho?
  3. Ele ou ela consegue me contar quando não quer mais, quando está cansado, quando algo está doendo, sem medo da minha reação?
  4. Eu consigo genuinamente comemorar um esforço que não virou vitória?

Não precisa responder para mim. Mas precisa responder para você mesmo com honestidade. Porque a resposta importa muito mais do que qualquer ranking de categoria.

Bouchard apareceu num painel falando sobre saúde mental e uma parte de mim ficou aliviada. Não pelo sofrimento dela, mas pelo fato de que o assunto está saindo do subsolo. De que atletas estão conseguindo dizer em voz alta o que por muito tempo só se dizia em consultório, ou não se dizia em lugar nenhum.

Espero que a geração de pais que está nesse processo agora ouça com menos defensividade do que a minha ouvia. O esporte de formação pode ser uma das experiências mais ricas da vida de um jovem. Ou pode ser a origem de uma ferida que ele vai carregar por muito tempo sem conseguir nomear. A diferença, em boa parte, passa por nós.

Perguntas frequentes

Como saber se estou colocando pressão emocional excessiva no meu filho atleta?

Observe como ele reage depois de derrotas e erros na sua presença, não só no resultado em si. Se ele evita falar sobre o esporte em casa, fica tenso antes de competições ou para de demonstrar entusiasmo, esses são sinais de que o ambiente emocional ao redor do esporte pode estar pesado demais. A pergunta mais direta é: ele consegue te contar quando não quer mais, quando está com dor, quando quer parar, sem medo da sua reação?

Qual é a diferença entre cobrar desempenho e pressionar emocionalmente um jovem atleta?

Cobrar desempenho dentro de um contexto de suporte emocional significa que o filho sabe que o pai está presente independente do resultado. Pressão emocional acontece quando a criança aprende, pelo comportamento do pai, que o afeto e a aprovação dependem de como ela performou. A segunda cria um condicionamento que pode durar décadas, muito além do esporte.

O silêncio depois de uma derrota realmente prejudica o filho?

Sim, quando usado como punição ou como forma de comunicar decepção, o silêncio é uma das ferramentas mais eficazes e mais invisíveis de pressão emocional. A criança aprende rapidamente a ler esse silêncio como rejeição condicional. Isso não significa que o pai precisa fingir que tudo está bem sempre, mas que a forma de processar derrotas juntos precisa ser explícita e segura para o filho.

Como o esporte de formação pode afetar a saúde mental de jovens atletas no longo prazo?

Atletas que crescem em ambientes onde o desempenho é a principal moeda de aprovação têm mais risco de desenvolver ansiedade de performance, dificuldade de lidar com fracasso e, em casos mais graves, abandono do esporte ou colapso de identidade quando a carreira termina ou não vai como esperado. O caso de Bouchard é um exemplo público de algo que acontece em silêncio com muitos jovens atletas que nunca chegaram ao alto rendimento.

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