02 de maio de 2026 · 8 min de leitura
Kei Nishikori se aposenta. E eu pensei no meu filho.
A aposentadoria de Nishikori levantou uma pergunta que me incomoda há anos como pai: quando o tênis acabar, quem é o meu filho?
por Eder Miranda
Kei Nishikori anunciou a aposentadoria. Ex-número 4 do mundo, semifinalista do US Open 2014, o primeiro asiático a chegar tão longe em um Grand Slam. Uma carreira linda, construída com talento real e uma disciplina que poucos conseguem sustentar por tanto tempo. O tênis perde um nome importante.
Mas a primeira coisa que senti quando li a notícia não foi nostalgia pela elegância do backhand dele. Foi uma pergunta que me incomoda há anos e que, de tempos em tempos, volta com força total: quando o tênis acabar, quem é o meu filho?
Não é uma pergunta retórica. É literal. É o tipo de coisa que um pai que passou anos na arquibancada, dentro de carros indo e voltando de torneio, do lado de fora de quadras observando, precisou aprender a fazer a si mesmo. Porque durante muito tempo eu não fiz essa pergunta. Durante muito tempo eu estava tão focado no atleta à minha frente que esqueci de olhar para a pessoa.
Eu já fui o pai que cobrava resultado acima de tudo. Já fui o pai que transformava o carro de volta pra casa num tribunal silencioso, onde cada erro do jogo pairava no ar sem ninguém falar nada, mas todo mundo sentindo. Levei um bom tempo para entender o estrago que isso faz.
O esporte pode engolir a identidade de uma criança antes que ela saiba o que está acontecendo
Existe um momento no desenvolvimento de um jovem atleta em que o esporte deixa de ser uma atividade e vira uma identidade. Isso acontece gradualmente, quase sem que ninguém perceba. A criança começa a se apresentar não pelo nome, mas pela posição no ranking. Os amigos são todos do circuito. Os finais de semana existem para os torneios. As férias são campos de treinamento.
Até aí, pode parecer dedicação. E é, em parte. Mas tem um ponto em que a dedicação vira fusão, e a fusão vira armadilha.
Quando o tênis é tudo, uma derrota não é uma derrota no tênis. É uma derrota como pessoa. Uma lesão não é um revés temporário. É uma crise de identidade. E a aposentadoria, seja aos 34 anos como Nishikori, seja aos 18 quando a carreira não decola como o esperado, vira um colapso existencial.
O problema não é o esporte exigir muito. O problema é quando ninguém ajuda o atleta a construir algo além do esporte enquanto ainda há tempo.
Eu vi isso de perto. Vi o corpo do meu filho dar sinais que eu precisei aprender a respeitar. Vi o peso que um menino carrega quando sente que decepcionar no tênis é decepcionar o pai. Não preciso de detalhe médico ou data específica para saber que esse peso existe e que eu contribuí para ele por um tempo.
O que a aposentadoria de Nishikori ensina sobre o trabalho invisível
O que me chamou atenção na forma como Nishikori se despediu foi a inteireza. Ele foi embora com classe, com gratidão, sem amargura aparente. Agradeceu aos fãs, à família, à equipe. Falou com leveza sobre uma carreira que teve altos e baixos severos, incluindo anos lutando contra lesões que ameaçaram encerrar tudo muito antes da hora.
Isso não acontece por acaso. E não é só caráter individual, embora caráter importe. Isso acontece quando alguém, em algum momento da trajetória de um atleta, ajudou a construir uma pessoa que joga tênis, e não uma raquete com nome.
Esse é o trabalho que ninguém vê na arquibancada. Não aparece no placar. Não tem estatística. Mas é o trabalho mais importante que um pai pode fazer:
- Separar o desempenho do valor. A criança não vale mais quando ganha nem menos quando perde. Isso precisa ser dito com palavras e confirmado com comportamento.
- Criar conversas que não sejam sobre tênis. Perguntar sobre o amigo, sobre a música, sobre o que ele achou do filme. Mostrar que existe vida além da quadra e que você se interessa por essa vida.
- Deixar a derrota existir sem precisar resolvê-la imediatamente. Às vezes o silêncio acolhedor vale mais do que a análise técnica no carro de volta pra casa.
- Falar sobre o futuro sem colocar o esporte no centro. “O que você quer aprender?” é uma pergunta diferente de “O que você precisa melhorar no saque?”
- Celebrar quem ele é, não só o que ele faz dentro de uma quadra.
Nenhum desses itens aparece no relatório do treinador. Mas todos eles constroem o alicerce que vai segurar a pessoa quando o atleta um dia tiver que sair de cena.
Eu levei tempo para aprender a diferença entre torcer pelo atleta e torcer pelo filho
Existe uma diferença entre torcer pelo atleta e torcer pelo filho. Por um longo período, eu confundi as duas coisas. Achava que estava fazendo o segundo quando estava fazendo o primeiro.
Torcer pelo atleta é querer que ele vença, que suba no ranking, que conquiste o torneio, que justifique o investimento de tempo e dinheiro que toda a família fez. É legítimo, mas é limitado. Para quando o tênis para.
Torcer pelo filho é querer que ele cresça. Que aprenda a lidar com pressão, com fracasso, com a própria limitação. Que saia do esporte, seja quando for, com autoestima intacta, com amizades reais, com a sensação de que viveu algo que valeu, não apenas algo que performou.
Quando eu comecei a entender essa distinção, mudou o que eu dizia depois dos jogos. Mudou o que eu perguntava nos treinos. Mudou o que eu celebrava. Não parei de me importar com o resultado. Mas o resultado deixou de ser o único termômetro que eu usava para medir se as coisas estavam indo bem.
Torcer pelo filho significa conseguir olhar para além do placar e perguntar: como você está?
Parece simples. Na prática, é um dos exercícios mais difíceis que conheço.
A pergunta que fica depois que a carreira acaba
Nishikori vai começar uma nova fase. Com 34 anos, tem muito pela frente. A questão é: ele sabe quem é fora das quadras? Pelos sinais que deu na despedida, parece que sim. E isso é o que importa mais do que qualquer estatística de carreira.
Todo pai de atleta vai enfrentar esse momento de alguma forma. Pode ser a aposentadoria formal, pode ser quando o filho decide parar, pode ser quando a lesão decide por ele, pode ser quando o nível exigido passa do que o talento alcança. O momento vai chegar.
A pergunta que cada pai precisa fazer agora, enquanto ainda está tempo, é: o que eu estou construindo junto com o tênis? Estou criando um atleta que joga bem? Ou estou ajudando a formar uma pessoa que, quando o tênis acabar, sabe quem é e tem base para começar de novo?
Essa pergunta não tem resposta fácil. Mas fazer ela em voz alta, para si mesmo, já é um começo.
Perguntas frequentes
Como saber se meu filho está confundindo sua identidade com o esporte?
Observe o que acontece depois de uma derrota. Se o comportamento muda de forma intensa e duradoura, se ele se isola, se deixa de falar sobre qualquer outra coisa, isso pode ser sinal de que o esporte virou a única fonte de autoestima. Pergunte a ele sobre interesses fora da quadra e veja se ele consegue falar com entusiasmo.
O que eu posso dizer depois de uma derrota que realmente ajuda?
Menos do que você imagina, e mais cedo do que você tenta. O imediato depois de uma derrota raramente é hora de análise. “Eu estava aqui torcendo por você” ou “quer comer alguma coisa?” costumam fazer mais do que qualquer revisão técnica. Deixe o espaço existir antes de qualquer conversa.
É possível o filho ser competitivo e ainda ter uma identidade saudável fora do tênis?
Não só é possível como é necessário para a longevidade no esporte. Atletas que têm vida fora da quadra, amizades diversas, interesses variados, tendem a lidar melhor com a pressão competitiva porque o resultado de um torneio não ameaça a existência inteira deles. Competitividade e identidade sólida não se excluem.
Quando devo começar a falar com meu filho sobre o que vem depois do tênis?
Antes que você ache necessário. Não como ameaça ou como falta de confiança na carreira dele, mas como parte natural de qualquer conversa sobre futuro. Mostrar interesse genuíno em quem ele quer ser além do esporte não diminui a dedicação ao tênis. Só amplia o horizonte de quem ele está se tornando.
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