Eu nunca vi o meu pai conversar com um amigo sobre como ser pai.
Ele saía de casa muito cedo, de segunda a sábado. Voltava tarde, cansado. Tomava banho, jantava e dormia. No dia seguinte começava tudo outra vez. Era marceneiro. Amoroso do jeito dele, que era um jeito de poucas palavras.
Tenho pensado muito nele nesta semana. Às vezes eu me pergunto o que ele faria se tivesse tido a chance de conversar com os amigos do trabalho sobre paternidade. Sobre o filho que estava crescendo, sobre o jeito certo de falar com ele, sobre a dúvida de estar fazendo direito.
Essa conversa não existia. Não por falta de amor. O mundo em que ele virou pai não tinha espaço pra ela.
Quando eu nasci, a lei dava ao pai um dia de folga. Um dia só. E não era pra ficar com o filho. A CLT dizia que a folga servia “para o fim de efetuar o registo civil”. Era pra ir ao cartório.
Quando os filhos daquela geração falam dos próprios pais, o retrato se repete. Num estudo brasileiro, um pai de primeira viagem resumiu o dele assim: “O pai falou, é certo, não se discute.” Outro disse: “Meu pai não tinha essa abertura pra gente conversar.”
Não é acusação. É o retrato de homens que trabalhavam de sol a sol porque foi isso que ensinaram pra eles que um pai fazia. E eles fizeram, com tudo o que tinham.
Agora olha pra cá. Você está lendo um texto inteiro sobre ser pai, por vontade própria. Talvez já tenha lido um livro sobre isso, ouvido um podcast, conversado em casa sobre o jeito certo de falar com o seu filho. Talvez tenha um amigo com quem troca essas dúvidas.
Que privilégio.
A régua subiu. A gente se cobra por uma coisa que a geração anterior nem sabia que dava pra cobrar. Isso não é peso. É o sinal de que a gente chegou mais longe.
Só que o privilégio não trabalha sozinho. As pesquisas mostram que a tendência natural é repetir o pai que a gente teve. Fazer diferente não chega de herança. Chega de parar pra pensar no assunto, de preferência com alguém do lado. Foi isso que o meu pai não teve. É isso que você está fazendo agora.
E tempo é só a matéria prima. Dá pra estar na mesma sala com a cabeça no celular. Dá pra passar o caminho inteiro dando conselho. Ou dá pra simplesmente estar junto.
O cronista gaúcho Fabrício Carpinejar escreveu sobre as três noites que passou no hospital com o pai, um homem que nunca o abraçava: “Recuperei todo o nosso tempo perdido nas três noites de vigília.” Nunca é tarde. Mas a gente não precisa esperar um hospital. A gente tem o café da manhã, a carona pra escola, o jantar de domingo.
O meu pai foi me buscar na escola uma vez na vida. Foi no dia em que o meu avô materno morreu e a minha mãe não podia ir. Nos outros dias ninguém ia buscar ninguém. A turma voltava a pé. Nesse dia não tinha jeito. Tinha que ir.
A gente pode aparecer em todos os outros.