edição #20 · 19 de setembro de 2026
Pai, por que eu tenho que jogar se eu vou perder?
A melhor resposta que eu encontrei para essa pergunta não veio do tênis. Veio de um filósofo falando de faculdade, numa entrevista em que a palavra esporte não aparece uma única vez.
Seu filho já te fez essa pergunta. Pai, por que eu tenho que jogar esse torneio se eu vou perder? Por que eu tenho que enfrentar o cara que é dois anos mais velho? Por que eu não posso pular essa semana?
A melhor resposta que eu encontrei para ela não veio do tênis.
Tem uma conversa sobre pai de atleta que só acontece dentro da bolha. A gente fala entre nós, no grupo do clube, na van a caminho do torneio, na beira da quadra, com quem conhece o calendário de cor e sabe o que é uma chave de 32. Isso é bom, porque ninguém precisa explicar nada. E é estreito, porque o retrato sai sempre pela mesma lente.
A resposta desta edição veio de fora.
Um filósofo deu uma entrevista sobre o valor da faculdade. O entrevistador perguntou dos pais de hoje, e ele passou três minutos descrevendo a nossa arquibancada sem falar uma única vez a palavra esporte. Luiz Felipe Pondé é professor universitário, um dos poucos que virou figura conhecida falando de filosofia em jornal e na televisão, e já foi coordenador de curso, que é o cargo em que o professor para de dar aula e passa a atender pai de aluno na sala ao lado. É dessa cadeira que ele fala.
O pai que vai junto
A primeira frase é a mais forte. Ele conta que os pais apareciam na faculdade acompanhados de médicos, e em casos raros de advogados. E que a maior parte queria uma coisa só: que o professor passasse o filho.
Troca a faculdade pela quadra e a cena é a mesma. É o áudio de dez minutos para o técnico no dia seguinte ao treino. É a discussão sobre quem entra na equipe do clube. É a troca de academia quando o filho não foi chamado para a viagem.
E repara no detalhe que faz a cena ser boa. Ninguém leva um médico junto para o filho ficar melhor. Leva para a nota subir.
Monge budista com Steve Jobs
Um aluno disse a ele, pouco antes da pandemia: meu pai quer que eu salve o mundo, eu só quero achar um estágio.
Logo depois ele resume o que se pede de um jovem hoje. Ele tem que ter sentimentos ótimos, tem que ser uma pessoa maravilhosa e, ao mesmo tempo, tem que ser capaz de projetar inteligência artificial. Uma mistura de monge budista com Steve Jobs.
A gente faz a versão com raquete. Disciplina de monge, fome competitiva do Alcaraz, nota boa na escola, educação de moleque bem criado e cabeça resolvida para perder sem chorar. Aos treze anos.
E ele só quer jogar no sábado.
O que a gente sabe
Outra lembrança dele é da própria época de aluno. A mãe nem sabia o que ele estava fazendo. O assunto não era dela.
Agora pensa no pai de hoje. Ele sabe o ranking, sabe a porcentagem de primeiro saque, sabe quantas duplas faltas saíram no segundo set, sabe o nome do técnico do adversário e sabe a hora em que sai a chave.
Não é para saber menos. Saber é presença, e presença é uma conquista desta geração de pais. Mas saber tudo mudou o lugar em que a gente senta. O pai de antes olhava de longe. A gente está dentro do jogo, com opinião formada sobre cada bola.
A pergunta boa para a volta de carro é essa: das coisas que eu sei sobre o jogo do meu filho, quantas ele me pediu para saber?
Justamente porque te faz mal
Essa é a parte que eu mais quero que você leve desta edição.
Uma aluna chegou nele dizendo que não queria ler Macbeth, porque a peça fazia mal a ela. Macbeth é a peça de Shakespeare sobre um homem que consegue tudo o que quer e é destruído pelo caminho que escolheu para chegar lá. Faz mal mesmo. É para fazer.
A resposta do professor foi essa: justamente porque te faz mal, meu querido.
Agora traduz, e é quase literal. Volta na pergunta que abriu esta edição, a que o seu filho te faz na véspera do torneio duro.
Justamente por isso. O desconforto não é o efeito colateral do treino, o desconforto é o treino. A quadra é um dos pouquíssimos lugares da vida dele onde a frustração aparece em dose medida, com hora para começar, hora para acabar e o pai por perto. Isso não é empurrar o filho para dentro de tudo. É parar de tratar o jogo duro como um problema a ser evitado.
A régua que vale para mim também
Ele diz ainda que pai e mãe viraram uma das populações mais ansiosas que existem, olhando no YouTube conselho de gente de todo tipo sobre como ser pai.
Eu escrevo para pai de atleta, então essa régua vale aqui dentro. E vale para o circuito inteiro. O grupo de WhatsApp do clube é uma central de conselho não pedido funcionando o dia todo. Tem pai formando opinião sobre carga de treino a partir de um vídeo de trinta segundos, e tem mãe decidindo troca de técnico pelo que ouviu na van.
A saída não é parar de buscar informação. É escolher de quem. Quem tem nome, quem mostra a fonte, quem já esteve na quadra e, principalmente, quem não promete atalho.
O que eu tiro dessa conversa
Um filósofo que nunca pisou num torneio de tênis descreveu a nossa arquibancada melhor do que muita gente de dentro. Isso é uma boa notícia, e não uma bronca.
É boa notícia porque significa que o que a gente vive não é defeito do circuito nem maluquice de pai de tenista. É uma coisa maior, que acontece na sala de aula, na faculdade e na quadra ao mesmo tempo. Somos a geração de pais mais presente e mais informada que já existiu. A ansiedade é o preço, e preço se negocia.
Três coisas para negociar nesta semana, e nenhuma delas custa dinheiro.
A primeira é escolher de quem você aceita conselho. Um técnico, um preparador, um autor. Não o algoritmo.
A segunda é deixar o jogo difícil acontecer. Ele faz mal, e é justamente por isso.
A terceira é perguntar ao seu filho qual é o sonho dele neste ano, e anotar a resposta dele, não a sua.
O resto do caminho a gente faz junto.
a leitura desta edição
Pai, por que eu tenho que jogar se eu vou perder?
Luiz Felipe Pondé passou três minutos de uma entrevista sobre faculdade descrevendo, sem saber, a arquibancada do circuito juvenil. O pai que vai cobrar o professor, o filho que só queria um estágio, e a frase que responde a pergunta mais difícil que um filho faz antes de um torneio difícil.
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