Ponto a Ponto

· 8 min de leitura

Pai, por que eu tenho que jogar se eu vou perder?

Luiz Felipe Pondé passou três minutos de uma entrevista sobre faculdade descrevendo, sem saber, a arquibancada do circuito juvenil. O pai que vai cobrar o professor, o filho que só queria um estágio, e a frase que responde a pergunta mais difícil que um filho faz antes de um torneio difícil.

por Eder Miranda

Capa tipográfica em fundo marrom escuro com a pergunta Pai, por que eu tenho que jogar se eu vou perder, e abaixo a linha cinco frases de uma entrevista sobre faculdade que cabem inteiras na beira da quadra.

Você já reparou que quase ninguém fala do pai de atleta fora do esporte? A conversa sempre acontece dentro da bolha, entre gente que conhece o calendário e sabe o que é uma chave de 32.

Aí um filósofo dá uma entrevista sobre faculdade, o entrevistador pergunta “e os pais?”, e ele passa três minutos descrevendo a arquibancada do circuito juvenil sem citar uma única vez a palavra esporte.

Luiz Felipe Pondé é filósofo e professor universitário, um dos poucos que virou figura conhecida falando de filosofia em jornal e em televisão. Deu aula de graduação por muitos anos e já foi coordenador de curso, que é o cargo em que o professor para de dar aula e passa a atender pai de aluno na sala ao lado. É dessa cadeira que ele fala.

Vou te dar as frases dele e a tradução de cada uma para a beira da quadra. Você vai reconhecer o circuito inteiro.

Os pais iam à faculdade com médico junto. Alguns, com advogado.

Essa é a primeira e é a mais forte. Ele conta como os pais apareciam por lá:

“Iam e iam, às vezes, acompanhada por médicos, em alguns casos raros por advogados.”

E completa dizendo o que quase todos queriam:

“A maior parte era basicamente querendo que o professor X, não necessariamente eu, passasse o filho.”

Não é preciso muito esforço para achar o equivalente. É o pai que liga para o técnico no dia seguinte ao treino. É o que discute a escalação da equipe do clube. É o que troca de academia quando o filho não foi chamado. É o que manda áudio de dez minutos perguntando por que o técnico mexeu no saque.

A instituição muda, o pai é o mesmo. E repare no detalhe que faz a cena ser boa: ninguém vai junto com um médico para melhorar o filho. Vai para melhorar a nota.

”Meu pai quer que eu salve o mundo, eu só quero achar um estágio”

Essa foi um aluno que disse a ele, um pouco antes da pandemia. É a frase mais engraçada da entrevista e é a mais triste também, porque ela mede exatamente a distância entre o projeto do pai e o desejo do filho.

Logo depois vem a imagem que fecha o argumento:

“Os filhos têm que ter sentimentos ótimos, têm que ser pessoas maravilhosas. E ao mesmo tempo, têm que ser capaz de ser designer de IA. Tem que ser uma mistura de um monge budista com Steve Jobs.”

Traduz sozinho. A gente quer o filho com a disciplina de um monge, a fome competitiva do Alcaraz, nota boa na escola, educação de moleque bem criado e cabeça resolvida para perder sem chorar. Aos treze anos.

Ele só quer jogar no sábado.

”Minha mãe nem sabia o que eu estava fazendo”

Aqui o contraste fica físico. Ele lembra da própria época de aluno:

“Eu era aluno em escola e depois de universidade. Minha mãe nem sabia o que eu estava fazendo na minha casa. O assunto completamente não deles.”

Agora pensa no pai de hoje. Ele sabe o ranking do filho, sabe a porcentagem de primeiro saque, sabe quantas duplas faltas saíram no segundo set, sabe o nome do técnico do adversário e sabe a que horas sai a chave.

Não estou dizendo que a gente devia saber menos. Estou dizendo que saber tudo mudou o lugar em que a gente senta. O pai da geração anterior estava do lado de fora olhando de longe, e a gente está dentro do jogo, com opinião sobre cada bola.

Uma pergunta boa para o carro na volta: das coisas que eu sei sobre o jogo do meu filho, quantas ele me pediu para saber?

Pai e mãe viraram uma das populações mais ansiosas que tem

A frase dele é melhor do que qualquer resumo:

“Pai e mãe hoje é uma das populações mais paranoicas e ansiosas que tem por aí. Fica olhando no YouTube conselhos de gente de todo tipo, de picaretagem, explicando como você deve ser pai e mãe.”

Eu gosto dessa frase porque ela põe uma régua em mim também. Eu escrevo para pai de atleta, então a régua vale aqui dentro.

E vale para o circuito inteiro. O grupo de WhatsApp dos pais do clube é uma central de conselho não pedido rodando o dia inteiro. Tem pai formando opinião sobre carga de treino a partir de um vídeo de trinta segundos, e tem mãe decidindo troca de técnico com base no que outra mãe falou na van.

A saída não é parar de buscar informação, é escolher de quem. Quem tem nome, quem mostra a fonte, quem já esteve na quadra, e principalmente quem não promete atalho.

A frase que responde à pergunta mais difícil

Essa é a que eu mais quero que você leve.

Ele conta que uma aluna chegou nele com isso: “Pondé, por que que eu tenho que ler Macbeth? Eu comecei a ler Macbeth e me faz mal.” Macbeth é a peça de Shakespeare sobre um sujeito que ganha tudo o que quer e é destruído pelo caminho que escolheu para chegar lá. Faz mal mesmo, é para fazer.

A resposta dele foi essa:

“Justamente porque te faz mal, meu querido.”

Agora vai a tradução, e é quase literal. Seu filho já te fez alguma versão desta pergunta: pai, por que eu tenho que jogar esse torneio se eu vou perder? Por que eu tenho que enfrentar o cara que é dois anos mais velho? Por que eu não posso pular essa semana?

Justamente porque faz mal. O desconforto não é o efeito colateral do treino, o desconforto é o treino. A quadra talvez seja o único lugar da vida dele onde a frustração aparece em dose medida, com hora para começar e para acabar, e com o pai por perto.

Isso não é empurrar o filho para dentro de tudo. É parar de tratar o jogo duro como um problema a ser evitado.

O guru que diz que estudar não serve

O último bloco da entrevista é sobre o que mais aparece hoje na internet. Ele fala do “crescimento das redes sociais de gurus para jovens que dão conselhos como você virar um empreendedor e que ir para a faculdade não vale nada”.

E conta o argumento que um menino levou até ele: “Eu fiz faculdade, eu tenho um irmão que fez só escola, está rico e eu estou ganhando salário.”

Esse argumento é velho e funciona sempre, porque ele é verdade em um caso. Sempre tem um. O que ele não mostra é a fila enorme de gente que apostou igual e não apareceu para contar.

No tênis o discurso é o mesmo, trocando a faculdade pela escola. Foca no tênis, escola é perda de tempo, os melhores todos largaram. E a decisão cai no colo do pai, no meio de um calendário apertado, quase sempre com informação de rede social.

A resposta que ele dá vale para os dois mundos e é a parte mais útil da entrevista:

“A educação não é só o conteúdo, é o treino mental. É a socialização que você faz.”

Repara que é exatamente a mesma coisa que um técnico bom fala do esporte. Ninguém coloca o filho no tênis pelo forehand. Coloca porque o esporte constrói cabeça, rotina e convivência.

Então a pergunta de casa não é escola contra quadra. É o que cada uma das duas está entregando ao seu filho neste ano, e o que ele perde se uma delas sair da conta cedo demais.

O que eu tiro dessa conversa

Um filósofo que nunca pisou num torneio de tênis descreveu a nossa arquibancada melhor do que muita gente de dentro. Isso é uma boa notícia, e não uma bronca.

É boa notícia porque significa que o que a gente vive não é um defeito do circuito nem uma maluquice de pai de tenista. É uma coisa maior, que está na sala de aula, na faculdade e na quadra ao mesmo tempo. Uma geração de pais mais presente, mais informada e mais ansiosa do que qualquer outra antes.

Presença e informação são conquistas. A ansiedade é o preço, e o preço dá para negociar.

Três coisas para negociar esta semana, e nenhuma delas custa dinheiro:

  1. Escolher de quem você aceita conselho. Um técnico, um preparador, um autor. Não o algoritmo.
  2. Deixar o jogo difícil acontecer. Ele faz mal, e é justamente por isso.
  3. Perguntar ao seu filho qual é o sonho dele este ano. E anotar a resposta dele, não a sua.

O resto do caminho a gente faz junto.

Escrevi sobre os vinte minutos mais perigosos dessa história, que é a volta para casa depois da derrota, num guia curto que está de graça em paideatleta.com.br/climao-no-carro. E a história completa está em Ponto a Ponto, o manual de sobrevivência para pais de atletas.

Perguntas frequentes

Quem é Luiz Felipe Pondé?

Filósofo e professor universitário brasileiro, um dos poucos que virou figura pública falando de filosofia em jornal e em televisão. Deu aula de graduação por muitos anos e já foi coordenador de curso, que é o cargo em que o professor para de dar aula e passa a atender pai de aluno na sala ao lado. Ele conta que hoje não dá mais aula presencial na graduação, e é dessa cadeira, a de quem viu a mesma cena se repetir por duas décadas, que ele fala dos pais.

O que a faculdade tem a ver com o tênis juvenil?

A instituição muda, o pai não. Toda a descrição que Pondé faz do pai universitário cabe na arquibancada: a expectativa desproporcional, a intervenção junto de quem avalia, a terceirização do combinado, o filho que precisa ser excelente em tudo ao mesmo tempo. A diferença é que na quadra o placar sai na hora e o pai está a dez metros do filho, então tudo acontece mais rápido e mais alto.

Meu filho precisa escolher entre a escola e o tênis?

A pergunta que vale mais é outra: o que a escola entrega além do conteúdo. A resposta de Pondé é que a formação é treino mental e convivência, e essas duas coisas são exatamente as que um técnico bom diz que o tênis também entrega. Quem trata as duas como inimigas está escolhendo por antecipação, e quase sempre com informação de rede social. O calendário é apertado e a decisão é de cada família, mas ela merece ser tomada com a conta na mesa e não com o discurso de um guru que ganha dinheiro para dizer que estudar não serve.

Como responder quando o filho diz que não quer jogar um torneio porque vai perder?

A resposta do professor à aluna que não queria ler Macbeth serve inteira: justamente porque te faz mal. O desconforto não é o efeito colateral do treino, é o treino. O jogo difícil é o único lugar onde ele aprende a lidar com a frustração antes que a vida cobre por outro motivo. Isso não quer dizer empurrar o filho para dentro de tudo, quer dizer parar de tratar o jogo duro como um problema a ser evitado.

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