Ponto a Ponto

01 de maio de 2026 · 8 min de leitura

Wawrinka se aposenta em paz. Isso vale mais do que qualquer troféu.

Stan Wawrinka usou a palavra 'paz' ao anunciar sua aposentadoria. Essa escolha me fez pensar no maior erro que cometi como pai de atleta, e no que realmente importa no fim.

por Eder Miranda

Wawrinka se aposenta em paz. Isso vale mais do que qualquer troféu.

Stan Wawrinka anunciou que o Australian Open deste ano seria seu último Grand Slam. Três títulos de Grand Slam, quase três décadas de tênis de alto nível, e a palavra que ele escolheu para descrever o momento foi ‘paz’. Não alívio. Não exaustão. Não saudade antecipada. Paz.

Essa escolha me parou. Não pelo que ela diz sobre o Wawrinka, mas pelo que ela diz sobre o que a maioria dos atletas não consegue sentir quando encerra a carreira. E, sendo direto, pelo que ela diz sobre o papel que os pais jogam nessa equação desde o primeiro torneio de fim de semana.

Eu levei anos para entender isso. Anos em que fui exatamente o tipo de pai que tornava difícil qualquer chance de meu filho chegar ao fim de um ciclo com esse sentimento. Cobrava demais. Ficava em silêncio depois de derrota de um jeito que pesava mais do que qualquer bronca. Transformei o tênis, aos poucos e sem perceber, numa obrigação com gosto amargo. Quase provoquei o pior desfecho possível: que ele parasse com raiva, não com gratidão.

O que a palavra ‘paz’ realmente significa na boca de um atleta

Quando um atleta de elite usa ‘paz’ para descrever a aposentadoria, ele está dizendo que chegou ao fim sem uma conta aberta com o esporte. Sem a sensação de que foi explorado, pressionado além do limite ou que nunca foi suficiente para as pessoas ao redor. Isso não é pouca coisa. É, na verdade, uma conquista tão rara quanto um Grand Slam.

Pense em quantos ex-atletas você conhece, em qualquer nível, que falam do período de competição com amargura. Que associam o esporte a memórias de humilhação, cobrança desproporcional ou relacionamentos que azedaram por causa de resultados. Que passaram anos tentando se desintoxicar da pressão que viveram quando tinham doze, quinze, dezoito anos.

A paz que o Wawrinka descreve hoje não caiu do céu no dia da aposentadoria. Ela foi construída ao longo de décadas de escolhas, dentro e fora da quadra. E uma parte considerável dessa construção depende de quem estava ao redor do atleta, especialmente nos anos de formação.

Encerrar um ciclo em paz é maturidade. E maturidade se ensina desde o primeiro torneio, não no último.

O atleta que chega ao fim com paz é, em geral, aquele que foi tratado como pessoa inteira durante o caminho, não apenas como um conjunto de resultados a ser otimizado.

O maior fracasso não é parar de jogar

Esse é o ponto que mais me custou aceitar como pai. Durante muito tempo, eu carregava um medo concreto: que meu filho desistisse, que jogasse a toalha antes de descobrir até onde podia chegar. Esse medo moldava meu comportamento de formas que eu nem percebia.

O climão depois de uma derrota. A pergunta sobre o que tinha errado quando ele ainda mal tinha saído da quadra. As comparações veladas com outros jogadores da idade. Frases que saíam como análise técnica, mas que na prática comunicavam uma coisa só: você não foi suficiente hoje.

Não era maldade. Era medo mal processado, disfarçado de comprometimento. E o efeito era o oposto do que eu queria.

O maior fracasso não é seu filho parar de jogar. É ele parar com as seguintes marcas:

  • A sensação de que nunca correspondeu ao que os pais esperavam dele.
  • A associação entre o esporte e ansiedade, vergonha ou conflito familiar.
  • A incapacidade de olhar para o período de competição com afeto genuíno.
  • A crença de que seu valor como pessoa estava diretamente ligado ao placar.
  • O alívio, e não a saudade, quando tudo acabou.

Esse é o fracasso real. E ele não aparece no ranking. Aparece anos depois, numa conversa, num terapeuta, numa relação com o esporte que ficou torta para sempre.

O que eu fiz errado e o que mudei

Ser honesto aqui importa mais do que parecer um pai exemplar. Eu errei de formas específicas, e reconhecer isso foi o que me permitiu mudar.

O primeiro erro foi confundir investimento com pressão. Porque eu me dedicava de verdade, acordava cedo, levava para os torneios, bancava os custos, achei que isso me dava direito a uma cota de cobrança. Não dá. Dedicação dos pais é responsabilidade, não moeda de troca.

O segundo erro foi fazer do resultado um assunto familiar. Derrota virava pauta de jantar, tensão no carro, silêncio carregado. Vitória aliviava o clima em casa como se todos tivéssemos jogado. Isso coloca um peso absurdo nos ombros de uma criança ou adolescente: a responsabilidade pelo humor da família.

O terceiro erro foi não separar o atleta do filho. Quando ele perdia, eu tratava como se algo tivesse falhado nele como pessoa. A crítica ao backhand virava, na prática, uma crítica ao caráter. Não era essa a intenção, mas era isso que chegava.

O que mudei foi, basicamente, aprender a fazer perguntas diferentes depois de cada jogo. Em vez de analisar o que errou, perguntar como ele se sentiu. Em vez de apontar o que precisava melhorar, perguntar do que ele tinha gostado. Parece simples. Custou meses de esforço consciente para virar hábito.

O papel do pai é garantir a gratidão, não o topo

Eu não tenho como garantir que meu filho vai chegar ao topo do tênis. Nenhum pai tem. O talento, o corpo, a sorte, as oportunidades, tudo isso está fora do nosso controle de um jeito fundamental.

O que eu posso garantir, com as escolhas que faço em cada torneio, em cada derrota, em cada conversa no carro de volta pra casa, é a qualidade da memória que ele vai carregar desse período.

Quando ele parar de jogar, seja com dezesseis, com vinte e dois ou com quarenta anos, quero que ele olhe para esse ciclo e sinta gratidão. Que lembre do esporte como algo que valeu a pena, que ensinou, que deu alegria mesmo nas partes difíceis. Que a figura paterna nessa história seja de alguém que esteve ao lado, não de alguém que pesou nas costas.

A paz que o Wawrinka descreveu não é um destino reservado para campeões de Grand Slam. É um destino disponível para qualquer atleta cujos pais entenderam desde cedo que o papel deles não era produzir um resultado, mas proteger uma relação.

Isso se constrói ponto a ponto. Não no último jogo. No primeiro.


Quando meu filho jogar o último ponto da carreira dele, eu quero que a primeira pessoa que ele queira ligar seja eu. Não por obrigação, mas porque o tênis foi uma coisa boa que vivemos juntos. Esse é o único troféu que depende quase inteiramente de mim.

Perguntas frequentes

Como saber se estou colocando pressão demais no meu filho atleta?

O sinal mais claro é observar o comportamento dele antes dos jogos: se ele demonstra ansiedade desproporcional, evita falar sobre tênis em casa ou parece mais preocupado com a sua reação do que com o resultado, a pressão provavelmente já está alta demais. Outro indicador é checar como você mesmo se sente após uma derrota dele: se você fica de mau humor ou em silêncio pesado, isso comunica algo para ele mesmo sem palavras.

O que dizer para uma criança ou adolescente depois de uma derrota difícil?

A primeira coisa é não dizer nada sobre o jogo imediatamente. Dê espaço físico e emocional. Quando ele estiver pronto para conversar, pergunte como ele se sentiu, não o que errou. A análise técnica tem lugar certo, que é o treino com o técnico, não o carro na saída do torneio. Sua função nos minutos após a derrota é ser presença segura, não analista.

Qual é a diferença entre acompanhar de perto e ser um pai que sufoca o filho no esporte?

A diferença está em quem é o dono da experiência. Acompanhar de perto significa estar disponível, present e interessado sem fazer do esporte do filho uma extensão das suas próprias ambições ou ansiedades. Sufocar é quando o resultado do filho vira regulador do seu próprio humor, quando você toma decisões pelo filho sem consultar o técnico, ou quando o filho sente que decepciona você como pai ao perder como atleta.

É possível reconstruir a relação com o filho se eu já errei muito nessa área?

Sim, e não exige um discurso longo nem uma sessão de terapia conjunta para começar. Começa com uma mudança de comportamento consistente nos próximos torneios: perguntas diferentes, silêncios menos carregados, separação clara entre o que ele faz na quadra e quem ele é para você. Crianças e adolescentes percebem a mudança rápido quando ela é genuína. O importante é que a mudança seja nos atos, não nas palavras.

gostou? compartilha

continuar lendo

Outros textos que você deveria ler

aposentadoria · paideatleta · saudeemocional · tenis · wawrinka