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Troféu de participação: a ciência do elogio que enfraquece

A indústria de troféus e medalhas movimenta três bilhões de dólares por ano. Boa parte é prêmio de participação. A ciência do elogio mostra que esse presente, dado pra criança não sentir a dor de perder, pode estar fazendo exatamente o contrário do que a gente espera.

por Eder Miranda

Estante de quarto infantil cheia de troféus de plástico dourado idênticos e uma única medalha de participação pendurada, luz de fim de tarde entrando pela janela, foco no contraste entre tantos prêmios iguais.

Essa semana eu esbarrei num número que não saiu mais da minha cabeça.

A indústria de troféus e medalhas movimenta cerca de três bilhões de dólares por ano só nos Estados Unidos e no Canadá. E a parte que me fez parar não é o tamanho do número. É a composição dele. Boa parte desses troféus não vai pra mão de campeão nenhum. É troféu de participação, aquela medalha que toda criança leva pra casa só por ter aparecido.

Quem puxou esse fio primeiro foi a jornalista Ashley Merryman, num texto que ficou famoso e tem um título que parece provocação, mas é ciência: perder faz bem pra você.

A ideia por trás do troféu pra todo mundo é generosa. Ninguém quer ver criança voltando pra casa de mãos vazias e chorando. Então a gente nivela: todo mundo ganha alguma coisa, todo mundo é especial, ninguém perde de verdade. O problema é o que a ciência foi descobrir quando olhou pra dentro dessa generosidade.

O elogio que parece combustível e é freio

Carol Dweck, psicóloga de Stanford, fez um dos estudos mais replicados da área. Pegou crianças, deu uma prova e dividiu o elogio em dois tipos. Pra um grupo: você é muito inteligente. Pro outro: você se esforçou muito. Só isso, uma frase de diferença.

Depois ofereceu a elas uma escolha: um desafio mais difícil, em que iam aprender, ou um mais fácil, em que iam acertar. As crianças elogiadas pelo esforço escolheram o difícil. As elogiadas pela inteligência fugiram pro fácil. E quando vinha o erro, essas últimas desistiam mais rápido, rendiam menos e se divertiam menos. É o achado central de Mueller e Dweck, publicado em 1998.

A leitura é incômoda. O elogio que parece encher a criança de confiança ensina ela, na verdade, a proteger uma imagem. Se eu sou o inteligente, o pior que pode me acontecer é tentar o difícil e descobrir que não sou. Então eu evito o difícil. O troféu que diz você é especial faz a mesma coisa: vira uma coisa a defender, não um lugar de onde arriscar.

E aqui o tiro sai pela culatra de vez

Tem um pesquisador holandês, Eddie Brummelman, que foi atrás da pergunta seguinte: e a autoestima? A gente enche a criança de elogio e troféu justamente pra ela se sentir forte por dentro. Será que funciona?

Num estudo publicado na PNAS, ele mostrou que pais que supervalorizam o filho, que acham ele mais especial e mais merecedor que as outras crianças, elogiam cerca de sessenta por cento mais. E que essa supervalorização não prevê autoconfiança saudável. Prevê narcisismo. É o que descreve Origins of narcissism in children.

Em outro trabalho ele foi mais fundo. O elogio inflado, do tipo isso não está só bonito, está incrivelmente bonito, aplicado em crianças com autoestima mais baixa, fazia elas evitarem o próximo desafio com medo de não repetir o espetáculo. E, ao longo do tempo, previa autoestima menor, não maior. O elogio que era pra levantar afundava.

Junta as duas pontas e dá um nó. A gente dá o troféu pra criança não sentir a dor de perder e pra ela se sentir forte. E a ciência diz que, na dose errada, o troféu faz ela fugir do difícil e se sentir mais frágil. O presente vira armadilha.

A superproteção virada objeto

Quem acompanha já viu pra onde isso vai. Em outro texto eu escrevi sobre a tese do psicólogo Jonathan Haidt, de que as crianças são antifrágeis, que precisam de uma dose de dificuldade pra ficar fortes e que a superproteção atrofia isso.

O troféu de participação é essa superproteção virada objeto. É a dificuldade removida e embrulhada em plástico dourado. A gente pega a derrota, que tinha uma informação valiosa dentro e troca por uma medalha que diz pra criança que não aconteceu nada.

E é por isso que o esporte é tão cruel e tão bom

Porque o esporte de verdade não dá medalha de participação.

Seu filho pode deixar a vida dele numa partida, correr atrás de cada bola, nadar até não sentir mais o braço, lutar os seis minutos inteiros e mesmo assim perder. E sair de lá com nada. Sem troféu, sem pódio, sem consolo institucional. Só o placar e a caminhada comprida até o carro. O esporte levado a sério é um dos últimos lugares onde a recompensa é conquistada, nunca distribuída.

E a tentação, pra mim como pai, é virar a fábrica de troféu particular dele. Você jogou super bem quando ele não jogou. O juiz te prejudicou quando não prejudicou. Comprar o sorvete pra transformar a derrota numa festinha, pra ele não sentir. Cada uma dessas frases é uma medalha de participação que eu entrego com a boca. E cada vez que eu apago a derrota, eu tiro dele a única coisa que ela tinha pra dar: a descoberta de que dá pra perder, sobreviver e voltar na semana seguinte.

O contrário disso não é esfregar a derrota na cara

Não é dizer você perdeu porque não treina, não é cara fechada no carro, não é punição. Isso é o erro do outro lado. Esse machuca de verdade.

É nomear o que aconteceu sem maquiar, com colo do lado. Você perdeu hoje. Doeu, eu vi. Amanhã a gente treina o que faltou. A derrota nomeada com afeto constrói. A derrota apagada com troféu anestesia. Parece a mesma cena, um pai consolando um filho, mas uma entrega a realidade junto com o abraço e a outra esconde a realidade embaixo dele.

O ponto que fica

Talvez a autoestima de verdade não venha do troféu que a gente dá. Venha do troféu que ele descobre que é capaz de conquistar sozinho. E da certeza de que, no dia em que não conquistar, o amor no carro na volta pra casa continua exatamente o mesmo.

O resto é plástico dourado. E criança sabe, lá no fundo, a diferença entre o que ela ganhou e o que ela conquistou.

Perguntas frequentes

Troféu de participação faz mal para a criança?

O problema não é o objeto em si. É o que ele substitui. O troféu de participação é dado para a criança não sentir a frustração de perder. A pesquisa em psicologia do desenvolvimento mostra que essa frustração, em dose adequada, é parte do que constrói resiliência. Ao remover a derrota e trocá-la por um prêmio, retira-se a informação valiosa que a derrota carrega: a descoberta de que é possível perder, sobreviver e voltar a tentar. Em excesso, a recompensa distribuída a todos ensina a criança a esperar prêmio sem esforço.

Qual a diferença entre elogiar o esforço e elogiar o talento?

Nos estudos clássicos de Carol Dweck e Claudia Mueller, publicados em 1998, crianças elogiadas pela inteligência (você é muito inteligente) passaram a evitar desafios difíceis, desistiam mais rápido diante do erro e se divertiam menos. Crianças elogiadas pelo esforço (você se esforçou muito) escolhiam tarefas mais difíceis e persistiam mais. Elogiar o talento ensina a criança a proteger uma imagem; elogiar o esforço ensina que a capacidade pode crescer com trabalho.

Elogiar demais a criança aumenta a autoestima?

Nem sempre. As pesquisas de Eddie Brummelman indicam o contrário em vários casos. A supervalorização parental, quando os pais acham o filho mais especial e merecedor que as outras crianças, está associada a mais narcisismo, não a autoconfiança saudável. E o elogio inflado, aplicado em crianças com autoestima mais baixa, fez essas crianças evitarem novos desafios e, ao longo do tempo, previu autoestima menor. O elogio que pretendia levantar acabava afundando.

Como reagir quando o filho perde no esporte?

O caminho não é apagar a derrota com elogio falso (você jogou super bem quando não jogou) nem culpar o árbitro para poupá-lo. Também não é o extremo oposto, de esfregar a derrota na cara ou punir. O equilíbrio é nomear o que aconteceu sem maquiar, com afeto do lado: reconhecer que perdeu, que doeu e apontar para o próximo treino. A derrota nomeada com acolhimento constrói; a derrota apagada com prêmio apenas anestesia.

Por que o esporte ajuda no desenvolvimento da criança?

O esporte levado a sério é um dos poucos ambientes que não oferece prêmio de participação. A criança pode se dedicar de verdade e mesmo assim perder e sair sem nada além do placar. Em modalidades individuais como tênis, judô, natação e atletismo, não há time para se esconder atrás nem técnico decidindo cada lance por ela, então o resultado é encarado de frente. Isso transforma o esporte num treino de autorregulação e de tolerância à frustração, no qual a recompensa é conquistada e não distribuída.

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