18 de julho de 2026 · 7 min de leitura
Como é que eu não superprotejo num mundo desses?
Não deixe de ler. Eu imploro. Mês passado eu escrevi que a gente protege demais. Essa semana eu vi uma coisa que me deixou sem chão na minha própria tese.
por Eder Miranda
O mundo tá louco.
É parede rebocando pedreiro, é banana comendo macaco, é rabo balançando o cachorro.
E antes de você ler uma linha do que eu escrevi aqui, assiste isso: o vídeo do Marcelo Toledo que originou esse texto.
Ele é longo, já aviso. Três minutos, que hoje em dia é uma eternidade. Esse texto também é longo, e é um dos mais duros que eu já escrevi. Mas sem o vídeo, metade do que vem abaixo perde o peso.
Assistiu? Então vamos.
Mês passado eu escrevi aqui que a gente está involuindo. Que o QI médio parou de subir e começou a cair nos países mais ricos, que a ciência matou a explicação genética comparando irmãos da mesma casa, e que sobrou o ambiente. E eu apontei o dedo pra nós: a gente protege demais, tira toda dificuldade da frente do filho, e criança precisa de atrito pra ficar forte.
Continuo achando isso. Mas essa semana eu vi uma coisa que me deixou sem chão na minha própria tese.
O Corinthians fechou patrocínio com a Fatal Fans, plataforma de conteúdo adulto do mesmo grupo da Fatal Model. São R$ 22 milhões até dezembro de 2027, com cláusula que pode levar o contrato a R$ 31 milhões. A marca vai no calção do time masculino, nas costas do uniforme do basquete e na barra da camisa do futsal.
No time feminino a marca não aparece. No lugar dela entram mensagens de causas sociais.
Para nesse último parágrafo comigo. Se a marca precisa ser escondida de um lado, alguém sabe muito bem o que ela representa. Ninguém esconde o que acha inofensivo.
E eu fiquei com uma pergunta atravessada na garganta o fim de semana inteiro.
Como é que eu não superprotejo num mundo desses?
O que mais me incomodou não foi a camisa
Foi o silêncio depois.
Não teve escândalo. Teve dois dias de comentário e a vida seguiu. Porque quando a casa de aposta subiu no peito da camisa ninguém caiu da cadeira, quando a propaganda de aposta invadiu a narração do jogo a gente reclamou e continuou assistindo, e agora isso. O degrau seguinte, seja lá qual for, já vai parecer normal antes de existir.
Tem uma frase do vídeo que eu não consigo tirar da cabeça: a decadência não chega de uma vez, ela chega em prestações. Nenhuma parcela é grande o bastante pra você contestar. Por isso ninguém contesta.
Mas o que me tira o sono não é o patrocínio. É o que ele diz sobre onde a gente já chegou sem perceber.
Tem menina de quinze anos hoje enxergando aquilo como plano de carreira. Não como último recurso, como desgraça, como coisa que se faz escondido. Como carreira mesmo, com influenciadora explicando o passo a passo, faturamento no story, gente parabenizando nos comentários. Isso não é um problema moral abstrato de que eu vou reclamar em roda de conversa. É uma menina da idade dos filhos das pessoas que estão lendo isso aqui.
Agora você entende por que eu comecei do jeito que comecei.
E antes que eu aponte o dedo pra alguém
O Brasil está sempre entre os dez países que mais consomem esse tipo de conteúdo no mundo. Por qualquer critério, em qualquer levantamento, todo ano.
Esse número não é de uma indústria distante. É nosso.
Não existe menina achando que aquilo é carreira sem uma multidão pagando pra sustentar esse mercado. Não existe plataforma com dinheiro pra comprar o calção de um time gigante sem receita. E essa receita sai do bolso de gente comum, muita dela pai de família, muita dela indignada com a camisa do clube.
Então eu não vou escrever aqui um texto batendo em menina de periferia que virou produto de um mercado que os homens desse país sustentam. Isso seria covardia, e das piores. A conta é de quem paga.
Aí vem a parte difícil, que é a minha contradição
Se eu escrevi mês passado que superproteger enfraquece, e agora eu olho pra esse cenário, o que eu faço?
Porque a minha vontade, sinceramente, é trancar a porta. É tirar o celular, cancelar tudo, criar meus filhos numa bolha até os trinta anos. Qualquer pai que diga que nunca teve essa vontade está mentindo, ou não estava prestando atenção.
E eu passei dias achando que tinha me contradito. Até entender que não.
O que eu defendi em junho tem nome e tem limite. Eu falei de atrito. De deixar perder feio, deixar carregar a própria mochila, deixar resolver o problema com o técnico sem eu traduzir, deixar sentar com a frustração alguns minutos sem eu correr pra apagar o incêndio. Isso constrói, e a gente atrapalha quando tira.
Só que isso é uma coisa. Ambiente é outra.
Dificuldade é peso na barra. O filho levanta, dói, ele fica mais forte. Ninguém fica mais forte por baixar o padrão do que é aceitável ao redor dele. Não existe versão da antifragilidade em que o piso descer te fortalece. Piso descendo não é desafio a vencer, é chão saindo do lugar.
O erro que eu quase cometi
E eu preciso falar disso porque é justamente o risco de um texto como o que eu escrevi em junho.
É muito conveniente ler “não superprotege” e usar isso como licença pra não segurar nada. Você desliga, deixa correr solto, e ainda se sente pedagogicamente moderno. Diz que está formando um filho independente, que não é pai controlador, que confia.
Mas na maior parte das vezes isso não é confiança. É cansaço com nome bonito. Porque segurar dá trabalho e não dá recibo.
Dar é fácil. Você compra, libera, permite, e a cara do seu filho ilumina na hora. Segurar é o contrário: você fala não e vira o chato, ouve que todo mundo pode, aguenta cara feia por três dias. Ninguém nunca vai te agradecer no mesmo dia por um limite. E ninguém, nunca, vai te cobrar por ter cedido.
Por isso ceder é o caminho natural. Não porque a gente é fraco. Porque só um dos dois lados dessa balança dá retorno imediato.
Onde eu cheguei
Não superproteger não significa não proteger. Significa escolher direito o que eu deixo o meu filho enfrentar sozinho.
Derrota, frustração, esforço, injustiça de arbitragem, treino num dia que ele não quer: tudo isso ele enfrenta, e é bom que enfrente, e eu vou estar inteiro pra conversa depois. Essa parte eu não tiro dele nem que doa em mim.
Mas o que a família trata como normal não é território pra ele descobrir sozinho no meio do barulho. Isso é o piso, e piso quem sustenta sou eu.
Não é trancar em casa, porque isso não funciona e ele vai encontrar tudo lá fora de qualquer jeito. É chegar antes. É falar do assunto antes que ele chegue pronto de outro lugar, sem sermão, admitindo que eu também não tenho todas as respostas. Adolescente desliga na hora que vira palestra, mas escuta quando o pai fala olhando na cara e sem fingir que sabe tudo.
E é aceitar ser impopular dentro da minha própria casa em alguns dias. Continuar disponível depois, quando passar.
Talvez seja isso que eu não tinha entendido direito quando escrevi o texto de junho. Eu falei de tudo que eu preciso soltar. Faltou dizer o que eu não posso soltar de jeito nenhum.
O meu filho vai encontrar esse mundo. Não tem bolha que impeça, e a bolha, se existisse, faria mal. O que ele não pode encontrar é uma casa onde ninguém achou aquilo estranho.
Esse texto nasceu do vídeo do Marcelo Toledo que eu pedi pra você assistir lá em cima. O raciocínio das prestações e a leitura do contrato são dele, não meus. Eu só puxei pro lugar onde isso me pegou, que é dentro de casa. Vale seguir o trabalho dele: @marcelotoledo.
gostou? compartilha
continuar lendo
Outros textos que você deveria ler
paternidade · superprotecao · involucao · valores · limites · familia · adolescencia