Ponto a Ponto

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Como se retribui um pai

Aristóteles, Tomás de Aquino e o Buda responderam a mesma pergunta sem nunca terem se lido. E a resposta dos três é ótima notícia.

por Eder Miranda

Estrada de terra batida seguindo em linha reta pelo campo aberto até o sol baixo no horizonte, com uma cerca de madeira acompanhando de um lado, na luz dourada do fim da tarde.

Tem uma frase que circula muito no dia dos pais: eu me tornei o pai que eu queria ter tido.

Eu gosto de outra.

Meu pai era marceneiro. Nunca leu um livro na vida. O mundo inteiro dele cabia em dois ou três canais de televisão e uma ou duas estações de rádio. Foi com esse material que ele decidiu como me criar e me pôs de pé.

Eu quero ser o pai que ele teria sido se tivesse na mão o que eu tenho.

E foi essa frase que me levou a uma pergunta.

A pergunta que ninguém faz em voz alta

Como é que se retribui uma coisa dessas?

Ninguém pergunta isso na mesa do almoço, mas quase todo mundo já pensou nisso sozinho, dirigindo.

E tem gente que já fez muito. Comprou remédio, bancou a casa, largou o trabalho pra levar no médico, atravessou a cidade num sábado de manhã. E mesmo assim continua com aquela sensação esquisita de que ainda falta alguma coisa.

Não é impressão sua. É assim mesmo. Faz dois mil e trezentos anos que alguém percebeu isso e escreveu.

Três homens que nunca se falaram

O primeiro é o Aristóteles. Filósofo grego, uns trezentos e tantos anos antes de Cristo, foi professor particular de Alexandre o Grande quando Alexandre ainda era um moleque.

Ele escreveu um tratado sobre como se vive uma vida boa. O livro ficou conhecido como Ética a Nicômaco. E Nicômaco não é um conceito, é nome de gente: era o nome do pai dele e foi o nome que ele deu ao próprio filho. Ou seja, o tratado mais influente da história sobre como viver direito carrega um nome que veio do avô e foi passado pro neto.

Lá dentro tem uma frase seca: não é possível fazer aos pais uma retribuição igual. Você nunca vai devolver o mesmo tanto que recebeu.

O segundo é o Tomás de Aquino. Mil e seiscentos anos depois, um frade italiano se sentou pra organizar, num calhamaço só, tudo o que a fé cristã pensava sobre tudo. O calhamaço chama Suma Teológica e virou o livro mais influente da história da Igreja. Ele era gordo e calado. Os colegas de classe o chamavam de boi mudo. O professor avisou a turma: um dia o mugido desse boi vai ser ouvido no mundo inteiro.

Numa das perguntas da Suma, Tomás pega essa frase do Aristóteles e vai fundo nela.

Ele está tentando classificar uma coisa que os antigos chamavam de piedade filial. Não se assusta com o nome: é só o termo técnico pra aquilo que você sente pelos seus pais. A mistura de dever, gratidão e afeto que faz você atender o telefone às dez da noite.

A pergunta dele é: isso é justiça, aquela do de igual pra igual?

E a resposta é não.

Justiça de igual pra igual, diz ele, existe quando os dois lados se emparelham. Um dá cem, o outro devolve cem e ninguém fica em falta com ninguém. Entre pai e filho isso não acontece nunca, porque ninguém devolve a alguém o próprio existir.

O terceiro é o Buda. E aqui fica interessante de verdade.

Do outro lado do mundo, mais ou menos na mesma época do Aristóteles, sem nenhum contato com a Grécia nem com Israel, perguntaram ao Buda como é que um filho retribui aos pais.

Resposta: mesmo que você carregasse o pai num ombro e a mãe no outro a vida inteira, mesmo que você os fizesse rei e rainha do país, ainda não seria igual.

Um grego, um italiano e um indiano. Nenhum dos três leu os outros dois. Mesma descoberta.

E a descoberta é ótima notícia

Porque a conclusão dos três não é que você ficou devendo alguma coisa.

A conclusão é outra. E é linda: isso nunca foi feito pra voltar.

O que vem de pai anda em linha reta. Sempre pra frente e só pra frente. Não volta pro ponto de origem, não empata, não se emparelha. E isso não é falha do projeto. É o projeto.

Você não devolve ao seu pai. Você entrega ao seu filho. E o que o seu filho receber vai andar pra frente também, pra alguém que você não vai conhecer.

O próprio Tomás, aliás, dá a saída generosa. Essa parte quase ninguém cita. Ele diz que no que é material ninguém iguala mesmo. Mas que na vontade e na disposição, o filho pode entregar mais do que recebeu. E que onde nem isso couber nas forças da pessoa, a boa vontade já basta.

Faz todo sentido, se você pensar como pai. Nenhum homem trabalhou a vida inteira torcendo pra ser o teto do filho. Ser ultrapassado pelo filho não é derrota nenhuma: é literalmente o resultado que ele encomendou.

Então o que fazer pelo velho que está aqui

A tradição judaica respondeu isso com duas histórias, guardadas no Talmude, que é a grande coletânea de debates dos rabinos antigos.

Um homem alimentava o pai com faisão, a comida mais cara que existia na época. Um dia o velho perguntou como o filho conseguia bancar aquilo. E o filho respondeu: velho, o que é que você tem com isso? Mastiga e come. Esse se perdeu.

Outro fazia o pai girar a mó do moinho, serviço pesadíssimo, o oposto de um gesto bonito. Esse se salvou. Por quê? Porque quando vieram convocar o velho para o serviço do rei, que era muito pior, o filho disse: mói você por mim, que eu vou no seu lugar.

Um deu faisão e se perdeu. O outro pôs o pai no moinho e se salvou.

Não é o que você dá. É a cara com que você dá.

E tem, no mesmo lugar, uma discussão que eu acho a coisa mais moderna de todo esse assunto. Eles ficaram debatendo de que bolso sai a despesa quando um filho cuida do pai. E concluíram que sai do bolso do próprio pai.

Espera aí. Então o filho não entra com nada?

Entra. E o texto diz exatamente com o quê: o trabalho interrompido. O que sai do filho é o tempo que ele deixou de render enquanto estava ali.

Repara que eles chegaram nisso há quase dois mil anos. O que vale não é o que sai do bolso. É o tempo. O presente é bonito e some. A tarde que você passou lá fica.

Não à toa, quando o código enfim lista as obrigações concretas, a lista é material e sem poesia: dá de comer e de beber, veste e cobre, leva pra dentro e traz pra fora. E aí vem o fecho, que parece detalhe e é a coisa toda: e faz isso com semblante agradável.

O que o versículo não diz

Agora vale ler o mandamento devagar, prestando atenção no que não está escrito.

Não está escrito honra teu pai se ele foi presente. Não está escrito se ele acertou. Não está escrito se ele pediu desculpa, se foi justo, se soube te dizer as coisas.

Está escrito honra teu pai e tua mãe. Ponto.

De todos os dez mandamentos, esse é o único em que a pessoa do outro lado pode estar errada e a ordem continua de pé. Não tem cláusula de desempenho.

É aqui que a coisa costuma travar, porque honrar se confunde fácil com concordar.

Honrar não é concordar. Não é dizer que estava tudo certo quando não estava, não é fingir. Honrar é reconhecer que aquele homem te pôs de pé com o material que ele tinha na mão e fazer alguma coisa com isso.

A tradição, aliás, é muito menos ingênua do que a plaquinha de parede. Ela encara o caso do pai difícil de frente há séculos. Uma corrente sustenta que se honra mesmo o pai que errou feio, porque a obrigação vem do vínculo e não da qualidade da relação. Outra sustenta o contrário. Mas as duas respeitam o mesmo limite: você pode não servir. Ferir, não pode. E onde houve crueldade deliberada e não doença, a tradição libera o filho de se submeter.

E tem a metade que ninguém cita. No mesmo código, os pais são advertidos a não pôr jugo pesado demais sobre os filhos nem ser meticulosos demais quanto à própria honra. E o pai que bate num filho já adulto é posto sob excomunhão. O texto que mais se usa pra cobrar filho traz, na mesma página, a cláusula que segura o pai.

Honrar quer dizer dar peso

Tem uma última coisa que muda a leitura. Ela está na palavra.

No hebraico o verbo é kabed, da mesma raiz de kavod, que é glória. E o sentido físico dessa raiz é um só: peso. Honrar não é sentir nada por alguém. É dar peso. Fazer pesar.

A prova está no antônimo. O oposto de kabed, dentro do próprio texto da lei, é qalal, que significa literalmente tornar leve.

Quer dizer que a lei nunca esteve preocupada com palavrão. O que ela quer é que o velho tenha peso na vida de quem ficou.

E dar peso é uma coisa bem concreta. É ir, em vez de mandar áudio. É deixar o almoço correr sem olhar a hora. É ouvir a história pela quarta vez com as mãos livres. É decidir o futuro dele com ele na sala e não na sala ao lado.

Nenhuma dessas coisas aparece em sermão nenhum. E é exatamente disso que o mandamento está falando.

E quando ele já não está aqui

Minha mãe partiu quando eu tinha 18 anos. Meu pai foi bem mais recente, eu já tinha 45. Então essa pergunta também é minha.

E a resposta é a mesma da conversa toda: a coisa continua andando pra frente. Só muda de forma.

A tradição diz, com todas as letras, que se honra o pai enquanto ele está aqui e se honra o pai depois que ele parte. E a forma concreta disso é manter o nome vivo, o que não é poesia nem consolo. No Egito e na Mesopotâmia isso era serviço formal de um filho: um escriba comum mandou gravar na lápide da mãe a frase é o filho dela quem perpetua o nome dela. E o faraó Seti I se declarou o filho que honra o pai mantendo o nome dele conhecido.

Na prática significa contar ele. Escolhe uma história com cena, com cheiro, com barulho e conta pro seu filho hoje: o que ele fazia pra ganhar a vida, do que ele ria, como era a voz dele quando chamava você de dentro de casa.

Seu filho carrega no sobrenome um avô que ele quase não conheceu. A única porta que existe pra esse avô é a sua boca. Enquanto você contar, ele está na mesa.

A promessa, sem mistério

Todo mundo repete que honrar pai e mãe é o mandamento que veio com promessa. Quase ninguém lê o que ela diz.

Está lá: para que se prolonguem os teus dias sobre a terra.

E o mecanismo não tem mistério nenhum.

Quem está aprendendo hoje, na sua cozinha, como se trata um velho é a mesma pessoa que vai te tratar daqui a trinta anos. E ela não está ouvindo o que você manda. Está olhando o tom que você usa no telefone com o seu pai, a paciência que você tem ou não tem, a cara que você faz quando ele repete a história.

Os dias se prolongam porque a linha se prolonga. A aula é hoje e o professor é você.

Isso não é coisa de uma religião só

Vale saber que a gente não está falando de uma esquisitice de um povo só.

Confúcio, na China, não trata a piedade filial como um dever entre outros. Trata como a raiz de todas as virtudes, o alicerce de ser gente por inteiro.

O Alcorão põe o mandamento colado, na mesma frase, à ordem de não adorar ninguém além de Deus. E desce a um detalhe que eu acho impressionante: se um dos dois envelhecer sob os teus cuidados, não lhes digas nem ufa. Não é sobre bater nem sobre abandonar. É sobre o suspiro de impaciência.

Os textos sagrados da Índia dizem seja aquele para quem a mãe é Deus e o pai é Deus.

E Roma fez disso a virtude nacional. Tanto que a imagem fundadora da cidade inteira é um filho, Eneias, carregando o pai velho nos ombros pra fora de Troia em chamas.

Grécia, Roma, Israel, Índia e China concordando sobre alguma coisa é raro como chuva no deserto. Aqui elas concordam.

O que fica

Quando o segundo dos dois parte, você olha pra cima e não tem mais ninguém acima de você. A pessoa mais velha da sua linha, agora, é você.

Aquilo tem nome: é um posto. A partir dali, o que a sua casa faz vira tradição, porque não tem mais ninguém acima pra definir.

Você não herdou só o sobrenome. Herdou a caneta.

Meu pai me pôs de pé com dois ou três canais de televisão e uma ou duas estações de rádio e não faltou nada. Deu tudo o que tinha. Chegar mais longe do que ele chegou não tira nada dele: é o trabalho dele dando resultado depois do prazo.

Então entrega hoje. Não pra trás, que pra trás nunca foi o caminho. Pra frente.

E entrega na frente do seu filho, porque é a aula mais barata que essa casa vai dar e a que mais rende.

Feliz dia dos pais.

Perguntas frequentes

Como é que um filho retribui o que recebeu do pai?

Não retribuindo pra trás. Essa é a descoberta que muda tudo. Aristóteles escreveu que não é possível fazer aos pais uma retribuição igual e Tomás de Aquino explicou o motivo: emparelhar os dois lados exige que os dois lados sejam comparáveis. Ninguém devolve a alguém o próprio existir. O Buda, do outro lado do mundo e sem contato com nenhum dos dois, disse o mesmo. Mas a conclusão dos três não é que você está devendo alguma coisa. É que aquilo nunca foi feito pra voltar. O que vem de pai anda em linha reta, sempre pra frente. É exatamente assim que o projeto foi desenhado. Você não devolve ao seu pai. Você entrega ao seu filho. É isso que o seu pai queria desde o começo.

E o que fazer pelo pai que ainda está vivo?

Aparecer. E aparecer com boa cara. A tradição judaica guarda duas histórias que resolvem isso melhor do que qualquer conselho: um filho alimentava o pai com faisão, a comida mais cara que existia, mas respondia mal quando o velho perguntava o preço. Esse se perdeu. Outro fazia o pai girar a mó do moinho, serviço pesadíssimo. Esse se salvou, porque quando convocaram o velho pra um trabalho muito pior ele foi no lugar dele. Não é o que você dá, é a cara com que você dá. E os mesmos rabinos concluíram que o que vale não é o que sai do bolso, é o tempo: o que sai do filho é o trabalho que ele interrompeu pra estar ali. Por isso a lista de obrigações concretas termina numa cláusula que parece detalhe e é a coisa toda: faz isso com semblante agradável.

E se a minha relação com o meu pai foi difícil?

O versículo não tem cláusula de desempenho. Não está escrito honra teu pai se ele foi presente, se ele acertou ou se ele pediu desculpa. É o único dos dez mandamentos em que a pessoa do outro lado pode estar errada e a ordem continua de pé. Dito isso, a tradição encara esse caso de frente e há séculos: uma corrente sustenta que a obrigação vem do vínculo e independe da qualidade da relação. Outra sustenta que o pai violento não obriga a atos positivos de honra. As duas respeitam o mesmo limite, que é você poder não servir mas não poder ferir. Onde houve crueldade deliberada a tradição libera o filho de se submeter. Honrar nunca significou concordar, fingir que estava tudo certo ou se expor a dano.

Meu pai já partiu. Ainda dá pra fazer alguma coisa por ele?

Dá. E continua sendo entrega pra frente. A tradição diz com todas as letras que se honra o pai enquanto ele está aqui e se honra o pai depois que ele parte. A forma concreta é manter o nome vivo. Isso não é poesia nem consolo: no Egito e na Mesopotâmia, perpetuar o nome era parte formal do serviço de um filho: um escriba comum mandou gravar numa lápide para a mãe a frase é o filho dela quem perpetua o nome dela. Na prática significa contar ele. Escolher uma história com cena, com cheiro e com barulho e contar pra quem veio depois: o que ele fazia pra ganhar a vida, do que ele ria, como era a voz dele. Seu filho carrega no sobrenome um avô que ele quase não conheceu. A única porta que existe pra esse avô é a sua boca.

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