01 de maio de 2026 · 7 min de leitura
Roddick disse que errou. E me fez pensar no que nunca ensinei ao meu filho.
Andy Roddick confessou que não soube se despedir do tênis. Esse arrependimento me fez encarar o erro silencioso que cometi com meu filho mais velho.
por Eder Miranda
Andy Roddick disse, em uma entrevista recente, que gostaria de ter feito o que Stan Wawrinka está fazendo agora: planejar a despedida. Dar ao encerramento a mesma atenção que deu ao começo. Criar um ponto final digno para uma fase inteira da vida, em vez de simplesmente parar de aparecer.
Essa confissão me bateu de um jeito que eu não esperava. Não porque seja fã incondicional de Roddick, embora o respeite muito. Mas porque, quando ele falou sobre não ter sabido encerrar, eu me vi no espelho. Vi o pai que fui durante anos, completamente obcecado com o próximo passo e absolutamente cego para o que estava sendo deixado para trás sem cerimônia.
Eu nunca ensinei meu filho mais velho a terminar. Ensinei a começar, a insistir, a competir, a aceitar a derrota e voltar mais forte. Mas o ato de encerrar um ciclo com consciência, de celebrar o que foi antes de partir para o que vem, esse ensinamento ficou de fora. E só percebi quando já era tarde para voltar atrás em algumas dessas fases.
O que a gente ensina e o que deixa de ensinar
A narrativa do esporte de formação é quase sempre construída em torno do começo e do meio. Você matricula o filho, ele aprende a bater na bola, começa a competir, sobe de categoria, evolui no ranking. Cada etapa é comemorada como uma conquista. Cada degrau subido vira combustível para o próximo.
O problema é que ninguém para para ensinar o outro lado desse ciclo. Ninguém senta com a criança, ou com o adolescente, e diz: “Olha, um dia você vai sair da categoria mirim e entrar na infanto. Um dia você vai deixar de ser o mais novo da chave e vai ser o mais velho. Um dia o tênis vai ocupar um lugar diferente na sua vida, e tudo bem. Vamos falar sobre isso antes que aconteça.”
Eu nunca tive essa conversa. Nem uma vez.
O esporte ensina a criança a começar. Cabe ao pai ensinar a encerrar com gratidão.
Quando meu filho mais velho foi crescendo dentro do tênis, eu vivia no modo de antecipação permanente. O próximo torneio, o próximo adversário, o próximo nível de treinamento. Cada fase que se encerrava, cada categoria que ficava para trás, passava como se fosse apenas uma transição logística. Não havia ritual. Não havia pausa para reconhecer o que tinha acontecido. Só havia a pressão, muitas vezes silenciosa, de que o próximo ciclo precisava ser melhor.
Os ciclos que deixei passar sem cerimônia
Penso em momentos concretos. O último jogo de uma categoria que ele nunca mais disputaria. O treino final antes de uma mudança de grupo. A última vez que ele competiu com determinado parceiro de duplas antes de os caminhos se separarem. Nenhum desses momentos recebeu de mim o que merecia: reconhecimento.
Não estou falando de festa ou de drama. Estou falando de uma conversa simples. De parar, olhar para o que foi, e dizer em voz alta: isso aqui teve valor. Você cresceu aqui. Agora a gente vai para o próximo capítulo, mas esse capítulo foi real e importou.
Em vez disso, o que eu fazia era o seguinte:
- Identificar o que tinha faltado no ciclo que acabava de terminar.
- Transformar essa análise em lista de ajustes para o ciclo seguinte.
- Apresentar o novo ciclo como uma chance de corrigir os erros do anterior.
- Repetir o processo indefinidamente.
Era uma máquina de começar recomeços. Nunca uma máquina de honrar encerramentos.
O efeito disso, que só fui entender muito depois, é que meu filho aprendeu a encarar cada fase encerrada como uma espécie de fracasso pendente. Se o ciclo acabou e ainda havia coisas a melhorar, então o ciclo foi insuficiente. Não foi uma vitória celebrada. Foi um rascunho descartado.
O que Roddick e Wawrinka têm a dizer para pais de atletas
Quando Roddick fala que gostaria de ter se despedido como Wawrinka está se despedindo, ele não está falando só de protocolo ou de cerimônia pública. Ele está tocando em algo mais profundo: a relação que o atleta tem com o próprio encerramento. A capacidade de olhar para uma fase da vida e dizer “isso foi real, foi meu, e agora eu encerro com consciência”.
Wawrinka, ao planejar sua despedida, está fazendo algo que poucos atletas conseguem: tratando o fim como parte do projeto, e não como a negação dele. O encerramento é tão digno quanto qualquer vitória em Grand Slam. Às vezes mais.
Para nós, pais de atletas jovens, a lição é direta. Se o maior nome do tênis americano de uma geração se arrepende de não ter feito isso, o que nos faz pensar que nossos filhos vão saber encerrar ciclos se ninguém nunca lhes mostrou como?
A transição da categoria de base para a formação, do treino recreativo para o competitivo, do competitivo para a decisão de seguir ou largar: todos esses momentos são encerramentos que merecem atenção. Não silêncio apressado seguido de novo objetivo.
Encerrar bem é uma habilidade. E ela se aprende
Há uma crença no mundo do esporte, especialmente no tênis, de que parar é fraqueza. De que reconhecer que um ciclo chegou ao fim equivale a desistir. Essa crença é transmitida de gerador a geração com uma naturalidade assustadora, e eu fui um transmissor fiel dela por muito tempo.
Mas encerrar com dignidade não é desistir. É o oposto. É ter maturidade suficiente para reconhecer que cada fase da vida tem começo, meio e fim, e que honrar o fim é tão importante quanto celebrar o começo.
Praticamente, isso significa algumas coisas que eu gostaria de ter feito:
- Marcar o fim de cada categoria com uma conversa real. Não uma reunião de avaliação, mas uma conversa sobre o que ele viveu, o que aprendeu, do que se orgulhava.
- Separar a análise técnica do reconhecimento emocional. O que precisa melhorar pode esperar um dia. O que foi construído merece ser dito primeiro.
- Perguntar como ele se sentia ao encerrar, em vez de já apresentar o plano para a fase seguinte.
- Deixar que ele próprio nomeasse o que estava encerrando. Não eu definindo o que a fase significou, mas ele tendo espaço para dizer.
Nada disso é complicado. Mas exige que o pai saia do modo de gestão de performance e entre no modo de presença. E isso, pelo menos para mim, era o passo mais difícil.
Roddick falou sobre um arrependimento. Wawrinka está escrevendo um exemplo. Eu estou tentando, com algum atraso, aprender com os dois. E escrever aqui é parte desse aprendizado.
Se você ainda está no meio do caminho com seu filho, ainda há tempo de parar antes do próximo ciclo e perguntar: o que a gente está encerrando agora, e como a gente vai honrar isso?
Perguntas frequentes
Por que é importante preparar um filho atleta para encerrar ciclos e não só para começar?
Crianças e adolescentes que só aprendem a começar ciclos desenvolvem uma relação ansiosa com os encerramentos, encarando cada fim como fracasso em vez de parte natural do crescimento. Preparar para encerrar com consciência constrói maturidade emocional e evita que o atleta carregue culpa desnecessária ao longo da carreira.
Como eu, como pai, posso marcar o fim de uma fase esportiva do meu filho de forma significativa?
Não precisa ser um ritual elaborado. Uma conversa onde você pergunta o que ele viveu, o que aprendeu e do que se orgulha já é suficiente. O essencial é separar esse momento de reconhecimento de qualquer análise de erros ou planejamento da próxima fase.
A partir de que idade devo começar a falar com meu filho sobre encerramento de ciclos no esporte?
Desde que ele comece a competir em categorias com início e fim definidos, independentemente da idade. Crianças de oito ou nove anos já entendem quando uma fase acabou. O que muda com a idade é a profundidade da conversa, não a necessidade de tê-la.
O que fazer se meu filho demonstra tristeza ou resistência quando um ciclo esportivo se encerra?
A tristeza é uma resposta saudável e não deve ser eliminada com pressa. Valide o sentimento, dê espaço para que ele nomeie o que está perdendo e só depois, quando ele estiver pronto, converse sobre o que vem a seguir. Apressar essa transição pode gerar resistência maior no longo prazo.
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