Ponto a Ponto

02 de maio de 2026 · 7 min de leitura

Raducanu se retira de novo. E parte dos pais ainda pergunta: mas não dá para jogar?

Emma Raducanu se retirou mais uma vez. E a reação de muita gente foi: ela não podia forçar? Eu já fiz essa pergunta. Com outras palavras, mas o sentido era o mesmo.

por Eder Miranda

Pai de meia-idade sentado sozinho nas arquibancadas de uma quadra de tênis vazia, cotovelos apoiados nos joelhos, olhar distante, luz fria de tarde nublada, expressão de quem está reavaliando algo.

Emma Raducanu se retirou mais uma vez. Doença que arrasta, recuperação que não vem no prazo que ninguém pediu. E a primeira reação de uma parcela considerável de pessoas foi exatamente essa: ela não podia forçar um pouco?

Eu já fiz essa pergunta. Com outras palavras, com um tom que tentava soar razoável, mas o sentido era o mesmo. Lembro de uma viagem com meu filho mais velho, ele doendo, o corpo dando sinais que eu via e escolhia ignorar, e eu ali calculando se dava para ele jogar porque o torneio era importante e a passagem já estava paga. Dava vergonha até de pensar nisso. Mas eu pensava. E com uma naturalidade que hoje me assusta.

Esse é o tipo de honestidade que a maioria dos pais de atletas não coloca em voz alta. A gente faz o cálculo. A gente pesa o custo da viagem, o peso do ranking, o que está em jogo naquele fim de semana específico, e tenta encaixar o corpo do filho nessa equação como se ele fosse uma variável ajustável. Não é. Nunca foi.

O corpo do atleta não negocia com a agenda de ninguém

O corpo de um atleta não respeita custo de passagem aérea. Não liga para o ranking. Não se importa com o que o pai investiu naquele mês, naquele ano, naquela viagem específica. Quando precisa parar, ele para. E quando a gente tenta forçar esse processo, ele para de um jeito muito pior, por um tempo muito mais longo.

O que Raducanu está fazendo ao se retirar não é fraqueza. É o oposto exato disso. É reconhecer que um corpo que não está pronto para competir não vai se tornar mais pronto porque a agenda manda. É saber que forçar é o caminho mais curto para uma lesão que vai tirar não um torneio, mas uma temporada inteira. Às vezes mais.

Forçar um corpo que não está pronto não é determinação. É a decisão mais cara que um atleta pode tomar.

O exemplo de Raducanu é interessante porque ela já passou por isso antes, de formas diferentes e públicas. E a reação do público, toda vez, inclui uma fatia expressiva de pessoas que a leem como alguém que não tem garra, que não quer o suficiente, que deveria conseguir superar. Essa leitura diz muito menos sobre ela do que sobre quem faz a leitura.

O cálculo que os pais fazem em silêncio

Poucos pais vão admitir isso em voz alta, mas o cálculo existe. Eu passei tempo demais fazendo ele. Às vezes de forma quase inconsciente, outras vezes com toda a clareza do mundo, fingindo para mim mesmo que estava apenas sendo prático.

O cálculo tem variáveis conhecidas:

  • O custo financeiro já realizado (passagem, hospedagem, inscrição).
  • A importância percebida do torneio para o desenvolvimento do filho.
  • A avaliação subjetiva do pai sobre o quanto o filho está realmente sentindo.
  • O medo de que o filho esteja usando o desconforto como saída para a pressão competitiva.

Esse último ponto é onde a coisa fica mais complicada. Porque há uma diferença real entre um filho que evita competição por ansiedade e um filho que está fisicamente incapaz de competir sem se machucar mais. Essa diferença existe. Mas o problema é que muitos pais, inclusive eu em algum momento, usam a primeira possibilidade para justificar a pressão nos dois casos. A gente inverte o benefício da dúvida: em vez de presumir que o filho está sendo honesto sobre o próprio corpo, a gente presume que ele está sendo fraco, e trata as duas coisas como se fossem a mesma.

O que eu aprendi, tarde demais para alguns momentos

Eu aprendi que o meu filho conhece o próprio corpo melhor do que eu. Aprendi isso de um jeito que não foi bonito. Vi sinais que escolhi não enxergar porque enxergar teria significado abrir mão de algo que eu queria mais do que ele queria naquele momento. E isso é uma frase dura de escrever, mas é verdadeira.

A virada não veio de uma conversa reveladora ou de um livro que eu li. Veio de perceber que, depois de algumas dessas situações, o meu filho começou a me dizer que estava bem quando não estava. Porque ele aprendeu, a partir do meu comportamento, que dizer que não estava bem tinha um custo. Que a honestidade sobre o próprio corpo criava atrito. Então ele ajustou o que me dizia para evitar esse atrito.

Isso é o oposto de tudo o que eu queria construir com ele.

O que muda quando a gente para de fazer o cálculo:

  1. O filho aprende que pode ser honesto sobre o que sente, sem que isso vire uma negociação.
  2. A relação entre pai e filho para de ser transacional em torno da performance.
  3. O atleta desenvolve a capacidade de gerenciar o próprio corpo com autonomia, que é uma habilidade que ele vai precisar para a vida inteira.
  4. A confiança nos profissionais de saúde que acompanham o filho passa a valer mais do que a opinião do pai sobre o que é possível forçar.

A pergunta que nenhum pai gosta de ouvir

Quando o seu filho ou a sua filha precisou parar, você apoiou de verdade? Ou você pressionou de um jeito que disfarçou de apoio?

Essa distinção importa. Apoio disfarçado de pressão tem formas muito sofisticadas. É o “eu confio em você, mas você conhece a importância desse torneio”. É o “a decisão é sua, mas pensa bem”. É o silêncio carregado no carro depois que o filho disse que não conseguia jogar. É a pergunta aparentemente inocente sobre se o médico tinha certeza.

Nenhum desses comportamentos se anuncia como pressão. Mas o filho sente. Sempre sente.

Essa é a conversa mais difícil que existe dentro de famílias com atletas jovens. Mais difícil do que falar sobre resultados, sobre carreira, sobre dinheiro investido. Porque ela exige que o pai olhe para si mesmo e admita que o interesse dele na performance do filho, em algum momento, pesou mais do que o bem-estar do filho. Essa admissão dói. Mas é o único ponto de partida que tem alguma utilidade.

Esse é um dos temas que trato em Ponto a Ponto, o livro que estou escrevendo sobre paternidade no esporte. Não existe resposta fácil nessas páginas, porque não existe resposta fácil nessa experiência.

O que existe é a escolha de parar de fazer o cálculo. Ou pelo menos de reconhecer quando você está fazendo ele.

Perguntas frequentes

Como saber se meu filho está evitando competir por ansiedade ou por dor física real?

A melhor fonte de informação é um profissional de saúde que acompanha o seu filho, não a sua intuição de pai. Se você está em dúvida, a decisão mais segura é sempre dar o benefício da dúvida ao filho. Presumir fraqueza quando há dor real cria um padrão de silêncio que é muito difícil de reverter depois.

O que fazer quando já paguei passagem e inscrição e meu filho diz que não está bem para jogar?

O custo já foi realizado e não volta se o filho jogar. O que ainda está em jogo é a saúde dele e a confiança que ele deposita em você. Forçar para recuperar um custo financeiro é uma troca muito ruim: você pode perder muito mais, em lesão e em relação, do que o valor da passagem.

Como apoiar meu filho quando ele precisa se retirar de um torneio sem parecer aliviado demais ou frustrado demais?

Seja direto e curto: “Você tomou a decisão certa. Estou aqui.” Sem análise, sem retrospecto, sem a famosa frase de que vai ter outros torneios. O filho não precisa de perspectiva nesse momento. Precisa saber que a decisão de cuidar do próprio corpo não vai custar a aprovação do pai.

A partir de que momento a retirada frequente de torneios vira um sinal de alerta real?

Quando há um padrão recorrente sem explicação física clara, vale buscar apoio profissional, tanto médico quanto psicológico. Mas esse diagnóstico não é do pai. A função do pai não é detectar o padrão e agir sobre ele diretamente. É criar um ambiente seguro o suficiente para que o filho fale sobre o que está sentindo, e garantir acesso aos profissionais certos para avaliar.

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