Ponto a Ponto

02 de maio de 2026 · 8 min de leitura

Quem define o ritmo do seu filho atleta: você ou o calendário?

Alcaraz lesionado fora da temporada de saibro levanta a pergunta que todo pai de atleta evita: quem está no controle do ritmo do seu filho?

por Eder Miranda

Pai sentado na arquibancada de uma quadra de saibro observando o filho adolescente treinar sozinho ao fundo, postura pensativa, luz de fim de tarde, distância entre os dois visível.

Carlos Alcaraz está fora da temporada de saibro. O melhor tenista do mundo no momento pagou com o corpo um calendário construído sem pausa suficiente. O Guardian foi direto ao ponto: agendamento inteligente não é luxo de equipe profissional, é condição de sobrevivência no esporte de alto rendimento. A notícia circulou rápido nos grupos de tênis, virou pauta de podcast, gerou comentário de especialistas. Mas o que me prendeu não foi a análise tática sobre o ranking ou a temporada europeia. Foi a pergunta que a notícia não faz explicitamente e que todo pai de atleta conhece muito bem por dentro: quem está decidindo o ritmo aqui?

Eu já fui esse pai. Não o pai do melhor tenista do mundo. O pai que, diante de cada novo convite de torneio, de cada nova janela no calendário, sentia que recusar era o mesmo que desistir. Que deixar uma vaga passar era desperdiçar algo que não voltaria. Confundi quantidade de competição com comprometimento real. E quem pagou a conta não fui eu.

A tentação de aceitar tudo

Quando meu filho mais velho começou a aparecer nos torneios, a lógica que comandava minhas decisões era simples e completamente equivocada: mais torneios igual a mais desenvolvimento igual a mais chance. Chegava convite, eu aceitava. Aparecia uma gira, eu encaixava. O calendário foi crescendo e eu fui interpretando isso como sinal de que estávamos no caminho certo.

O problema é que essa lógica ignora uma variável fundamental: o atleta tem corpo, não só vontade. E o corpo de uma criança ou adolescente em formação não funciona como o de um profissional adulto com equipe de suporte. O sinal de cansaço que um preparador físico experiente lê num atleta profissional, eu, como pai, simplesmente não sabia identificar. Ou pior: sabia identificar e escolhia não enxergar.

A tentação de aceitar todo torneio quase sempre vem do pai, não do atleta. O filho está cansado. O pai ainda quer mais uma chance.

Isso não é julgamento. É descrição honesta de um padrão que eu vivi e que vejo se repetir com frequência em outros pais. A motivação raramente é má-fé. Quase sempre é medo. Medo de que a janela feche. Medo de que o filho fique para trás enquanto os outros avançam. Medo de que uma decisão conservadora hoje custe caro lá na frente.

O que o caso Alcaraz revela sobre estrutura e ausência dela

Alcaraz tem ao redor dele um aparato que a maioria dos atletas jovens brasileiros jamais terá: médico de equipe, preparador físico dedicado, nutricionista, psicólogo do esporte, agente experiente, e ainda assim o ritmo venceu o plano. A lesão aconteceu. A temporada de saibro, que era o momento mais esperado do calendário europeu para ele, ficou comprometida.

Se isso acontece com essa estrutura toda, o que acontece com uma criança de 12 ou 14 anos cujo único filtro de decisão é o pai no carro de volta do treino?

A diferença não é só de recurso financeiro. É de quem tem autoridade e informação para dizer não. Numa equipe profissional, o médico pode vetar uma viagem. O preparador pode barrar uma semana de torneios. Existe uma cadeia de pessoas cujo trabalho é proteger o atleta do excesso, inclusive do excesso de ambição do próprio atleta.

No esporte jovem amador, essa cadeia quase não existe. O pai ocupa simultaneamente os papéis de técnico, motorista, psicólogo, nutricionista e tomador de decisão. E nenhum desses papéis o prepara para o mais difícil de todos: dizer não quando há uma oportunidade à vista.

Os sinais que eu aprendi a ignorar

Vou ser direto sobre como esse padrão funciona na prática, porque acho que reconhecer os mecanismos ajuda mais do que discutir princípios abstratos.

Os sinais de que o ritmo estava alto demais costumavam aparecer assim:

  • Meu filho acordando já cansado nos dias de treino, sem o ânimo que eu associava ao esporte que ele gostava.
  • Reclamações físicas que eu rotulava mentalmente como frescura ou nervosismo pré-competição.
  • Uma irritação no carro de volta que eu interpretava como imaturidade emocional, não como esgotamento real.
  • Uma queda de rendimento que eu atribuía a falta de foco, nunca à sobrecarga acumulada.
  • A vontade dele de ficar em casa num fim de semana que eu transformava em discussão sobre dedicação.

Nenhum desses sinais é dramático isoladamente. Juntos, são um quadro que um adulto com atenção calibrada lê com clareza. Eu não tinha essa calibração. Tinha entusiasmo e medo, que são péssimos instrumentos de leitura.

Quem tem a autoridade para parar

Essa é a pergunta que o caso Alcaraz coloca de volta na mesa, e que eu acho que todo pai de atleta precisa responder para si mesmo antes de montar o próximo calendário.

Num atleta profissional adulto, a decisão de parar envolve o próprio atleta, a equipe médica, o técnico e o agente. Há tensão entre esses interesses, e às vezes o atleta vence quando não deveria. Mas ao menos existe o debate, existe alguém cuja função explícita é proteger o corpo.

No esporte jovem, a estrutura de proteção é o pai. Só que o pai é também o principal interessado em que o filho continue competindo. É um conflito de interesse que a maioria de nós não reconhece porque está dentro dele.

Alguns pontos que me ajudaram a repensar esse papel:

  1. A decisão de recusar um torneio não é desistência. É gestão. Atletas profissionais recusam torneios o tempo todo. Não chamamos isso de fraqueza.
  2. O corpo fala antes da lesão. O sinal de cansaço crônico vem semanas antes do momento em que algo cede. Aprender a ler esse sinal é mais valioso do que qualquer tática de jogo.
  3. O filho cansado que compete mal não está sendo forjado pelo desafio. Está sendo desgastado. Há diferença entre pressão produtiva e sobrecarga, e essa diferença tem consequências físicas mensuráveis.
  4. Perguntar ao filho como ele está não é fraqueza paterna. É coleta de dado. E o dado mais importante que você pode ter antes de aceitar ou recusar um compromisso.
  5. O calendário não tem sentimento. Quem tem é o seu filho. A agenda não vai se importar se ele chegar lesionado no torneio mais importante do semestre.

Esse é um dos temas que trato em Ponto a Ponto, porque é onde eu vejo mais pais repetindo erros que têm solução simples, mas que exigem uma honestidade difícil sobre quem a agenda está servindo.

O que Alcaraz não precisa que seu filho talvez precise

Alcaraz vai se recuperar. Tem estrutura, tem time, tem 21 anos e um nível de resiliência física que é parte do motivo pelo qual chegou onde chegou. A temporada de saibro ficou comprometida, mas a carreira continua.

Seu filho, no momento em que estiver sobrecarregado aos 13 anos, não tem esse colchão. Uma lesão mal gerida nessa fase pode mudar a trajetória de forma permanente. Não estou falando de catástrofe dramática. Estou falando do menino que começa a associar o esporte com dor, cansaço e pressão, e que aos poucos perde a razão de continuar.

O ritmo que você define agora para o filho não é só sobre o próximo torneio. É sobre quanto tempo ele vai querer continuar.


Perguntas frequentes

Como saber se meu filho está sobrecarregado ou apenas sem vontade de treinar?

Cansaço crônico e preguiça pontual têm sinais diferentes. O filho sobrecarregado costuma mostrar queda de rendimento mesmo em atividades que antes gostava, irritabilidade persistente, queixas físicas difusas e dificuldade de dormir bem. A vontade de pular um treino específico é normal. A aversão crescente ao esporte como um todo é sinal de alerta.

Recusar um torneio realmente não prejudica o desenvolvimento do filho?

Não existe desenvolvimento sem recuperação. Atletas profissionais de alto rendimento planejam períodos de ausência de competição exatamente para preservar a qualidade do rendimento nos momentos que importam. No esporte jovem, o raciocínio é o mesmo: menos torneios bem descansado produz mais aprendizado do que uma sequência exaustiva.

Quem deve decidir o calendário competitivo de um atleta jovem?

Idealmente, técnico, pai e o próprio atleta constroem o calendário juntos, com o técnico tendo voto de qualidade sobre carga e o atleta sendo ouvido sobre disposição. Quando não há técnico acompanhando de perto, o pai precisa compensar essa ausência sendo mais conservador, não mais agressivo na montagem da agenda.

A partir de que idade o filho pode ter voz ativa na decisão de competir ou não?

Do ponto de vista do desenvolvimento, a partir dos 10 a 12 anos a criança já tem consciência suficiente do próprio corpo para dar informações úteis sobre cansaço e disposição. Isso não significa que a palavra final é dela, mas que ignorar sistematicamente o que ela relata é um erro tanto de gestão esportiva quanto de relação pai e filho.

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