01 de maio de 2026 · 8 min de leitura
Osaka voltou. E o retorno dela me ensinou algo que demorei anos para entender.
Eu lia a oscilação do meu filho como falta de comprometimento. Naomi Osaka me mostrou, anos depois, o quanto esse erro custa caro para um atleta jovem.
por Eder Miranda
Naomi Osaka está de volta a Roland Garros. Com toda a oscilação, os sumiços, as polêmicas, os retornos que a mídia questiona antes mesmo de ela pisar na quadra. Eu acompanhei tudo isso por anos com um julgamento claro na cabeça: que atleta difícil. Que falta de consistência. Que desperdício de talento.
Depois aprendi, da pior forma possível, que essa leitura é completamente errada. E aprendi dentro do meu próprio carro, no silêncio pesado depois de uma derrota do meu filho mais velho, quando eu abria a boca para analisar o que tinha dado errado e ele olhava pela janela como se eu não existisse.
Eu fui esse pai. O que confunde oscilação com preguiça, queda de rendimento com falta de comprometimento, silêncio com descaso. Demorei anos para entender o que estava acontecendo de verdade. E foi o retorno imperfeito, humano e real de uma jogadora de tênis profissional que finalmente me fez ver com clareza.
O erro que a maioria dos pais comete sem perceber
Quando meu filho mais velho começou a competir de verdade, eu me tornei um analista involuntário. Cada torneio virava material de estudo. Cada derrota precisava de explicação. Cada semana em que ele jogava abaixo do que treinava me gerava uma ansiedade que eu despejava nele, embrulhada em perguntas técnicas, comparações com treinos anteriores e aquela frase terrível que eu repetia sem saber o estrago que causava: “Eu sei que você consegue mais do que isso.”
O problema não era a frase em si. O problema era o momento. Era o que ela comunicava por baixo das palavras: que o que ele estava entregando não era suficiente. Que a oscilação era escolha. Que ele estava me decepcionando.
Quando um atleta oscila, raramente é porque decidiu se esforçar menos. Quase sempre é porque alguma coisa por dentro está pedindo atenção, e o corpo entrega o recado antes que a cabeça consiga formular.
Eu não conseguia enxergar isso. Via números, via resultados, via o ranking que subia devagar demais. Não via o menino.
O que Osaka fez que nenhum atleta da geração dela tinha feito
Em 2021, Naomi Osaka se retirou de Roland Garros depois de se recusar a fazer entrevistas coletivas e explicar publicamente o motivo: proteção à própria saúde mental. O mundo do esporte reagiu como costuma reagir. Uma parte com compreensão, outra com impaciência, e uma terceira com o tipo de análise fria que reduz um ser humano a um investimento que não está dando retorno.
Ela continuou oscilando. Saiu do circuito por períodos longos. Virou mãe. Voltou. Perdeu cedo em torneios que ela mesma provavelmente esperava vencer. Voltou de novo.
Cada retorno foi tratado pela mídia como um teste: será que ela recuperou o nível? Será que o hiato custou caro demais? Será que ela ainda tem o que é preciso?
Essas perguntas todas partem do mesmo pressuposto equivocado: que a carreira de um atleta só tem valor quando está em linha ascendente. Que pausa é perda. Que oscilação é sinal de problema.
O que Osaka fez, ao nomear publicamente o que estava sentindo, foi algo que a maioria dos atletas jovens não tem vocabulário nem espaço para fazer. Ela disse: estou esgotada, preciso de distância, vou cuidar de mim. E pagou um preço alto por isso em termos de imagem e de pressão pública.
Meu filho mais velho não tinha esse vocabulário aos doze, treze, quatorze anos. Mas o corpo dele entregava o recado da mesma forma. Eu é que não sabia ler.
O que esgotamento emocional parece quando você não sabe o nome dele
Não é dramatico. Não chega com choro ou com uma declaração de que precisa parar. Chega assim:
- O atleta trava em momentos que nos treinos ele resolve com facilidade.
- O rendimento em torneio fica consistentemente abaixo do que apresenta nos treinos.
- Ele para de falar sobre o esporte em casa, responde com monossílabos quando você pergunta como foi.
- Pequenos erros viram grandes crises. Uma bola na rede vira um jogo perdido na cabeça dele antes do set acabar.
- Ele começa a encontrar motivos para não treinar, fica mais irritado nos dias anteriores à competição.
Eu interpretava cada um desses sinais como variações do mesmo problema: falta de foco, falta de maturidade competitiva, necessidade de mais cobrança. A solução que eu aplicava era mais conversa, mais análise, mais pressão velada.
O efeito era o contrário do que eu queria. Porque a criança que já está no limite emocional não precisa de mais demanda. Precisa de menos peso. Precisa saber que o pai vai continuar lá independente do resultado do próximo torneio.
Isso não significa abandonar a exigência. Significa calibrar quando a exigência ajuda e quando ela afunda.
Carreira não linear não é sinônimo de carreira desperdiçada
Naomi Osaka tem quatro títulos de Grand Slam. Chegou ao número um do mundo. Também tem anos inteiros de oscilação, derrotas precoces em torneios que ela deveria vencer no papel, períodos longos fora das quadras.
Se você pegar só os vales da carreira dela, parece desperdício. Se você pegar só os picos, parece uma trajetória de genialidade. A carreira real é as duas coisas ao mesmo tempo, e é exatamente essa complexidade que a torna verdadeira.
Com meu filho mais velho foi igual. Houve torneios que ele jogou muito abaixo do potencial em fases que eu considerei, na época, perdidas. Hoje eu sei que nenhuma delas foi perdida. Em algumas ele aprendeu a lidar com pressão de formas que nenhum treino ensina. Em outras ele simplesmente sobreviveu a um período difícil, e sobreviver também é parte do desenvolvimento.
O erro que eu cometia era tratar a carreira dele como uma linha que só poderia ir para cima. Qualquer desvio dessa linha eu lia como ameaça. E comunicava isso a ele sem perceber, toda vez que eu analisava uma derrota como se fosse um problema a resolver em vez de uma experiência a processar.
A carreira não é linear. E isso não é fracasso. É honestidade.
A pergunta que passei a me fazer, depois de muito custo, foi diferente da que eu fazia antes. Parei de perguntar “por que ele não está rendendo o que deveria” e comecei a perguntar “o que ele está precisando agora que eu não estou oferecendo”.
É uma mudança pequena na forma, mas enorme no efeito.
Osaka vai jogar Roland Garros com tudo que ela carrega: os títulos, os hiatos, a maternidade, as polêmicas, o retorno que a imprensa vai questionar até ela ganhar ou perder. Eu vou acompanhar torcendo por ela, não apesar da oscilação, mas incluindo ela. Porque foi a oscilação dela que me ensinou a enxergar a do meu filho com outros olhos.
Se você ainda está na fase em que lê queda de rendimento como falta de comprometimento, esse post não é julgamento. É reconhecimento. Eu fui esse pai por muito tempo.
Perguntas frequentes
Como diferenciar oscilação normal de um problema real de comprometimento?
Oscilação normal aparece em ciclos e costuma estar ligada a volume de treino, pressão de fase escolar ou acúmulo de competições. Falta de comprometimento tem padrão diferente: o atleta também reduz esforço nos treinos, não apenas nas competições. Se ele treina bem mas trava nos torneios, o problema quase nunca é comprometimento.
O que fazer quando meu filho joga muito abaixo do esperado num torneio importante?
A primeira coisa é resistir ao impulso de analisar na saída da quadra. O momento logo após a derrota não é momento de lição técnica. É momento de presença. Uma frase neutra como “estou aqui, vamos embora” faz mais do que qualquer análise bem-intencionada feita na hora errada.
Quando a oscilação do meu filho pode ser sinal de esgotamento emocional?
Preste atenção em combinações de sinais: queda de rendimento em competição com treinos mantidos, irritabilidade nos dias antes de torneios, distância do assunto esporte em casa e pequenos erros que viram colapsos desproporcionais. Qualquer combinação de dois ou mais desses sinais merece uma conversa honesta, sem agenda técnica.
Devo reduzir a carga de treino quando percebo que meu filho está emocionalmente esgotado?
Essa decisão é do treinador, em conjunto com o atleta. O papel do pai nesse momento é criar espaço para que o filho consiga comunicar o que sente ao treinador sem medo de julgamento. Muitos atletas jovens escondem o esgotamento porque temem decepcionar adultos. Quando o pai deixa claro que não vai punir a honestidade, o atleta consegue pedir o que precisa.
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