Ponto a Ponto

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Herança em vida

Não é o que a gente deixa quando morre. É o que a gente entrega enquanto ainda está aqui pra ver o filho usar.

por Eder Miranda

Eder Miranda e o filho sentados num banco de praça, num parque coberto de folhas de outono.

Tem uma frase que eu repito em toda palestra e em toda entrevista: “herança em vida”.

A gente pensa em herança como o que fica quando a gente morre. A casa, o carro, a conta no banco. Eu acredito em outra, a que se entrega enquanto a gente ainda está aqui pra ver o filho usar.

A chave do carro

Ninguém empresta o carro pro filho antes da carteira de motorista. Tem autoescola, tem prova. Só depois a gente entrega a chave.

Com o dinheiro é igual. Antes de ele ter o próprio, ele precisa aprender a usar. E a autoescola do dinheiro é a casa.

E ela começa mais cedo do que parece. Em 2013 a Universidade de Cambridge fez uma pesquisa a pedido do órgão de orientação financeira do governo britânico. Os pesquisadores David Whitebread e Sue Bingham concluíram que os hábitos de pensamento que guiam as decisões de dinheiro se formam nos primeiros anos de vida. Aos sete anos a maioria das crianças já reconhece o valor do dinheiro, sabe que as coisas se compram com ele e consegue planejar e esperar.

Teve um detalhe que me chamou a atenção. Antes dos oito anos elas ainda não separam o que é luxo do que é necessidade.

Essa separação é aula de casa. Ninguém mais vai dar.

O prato limpo

A primeira aula é o exemplo. Não deixar sobrar comida no prato. Não desperdiçar. Saber o que é essencial e o que é supérfluo. E mostrar essa diferença na hora de comprar.

Filho aprende muito mais olhando o pai do que ouvindo o pai. Ele não lembra do sermão sobre economia. Lembra do pai que raspou o prato.

O prato é a primeira conta que uma criança faz. Tudo o que está ali custou alguma coisa a alguém. Quem aprende isso na mesa leva pra carteira quando ela chegar.

E a pergunta “isso é essencial ou é supérfluo?” cabe em qualquer lugar. No mercado, na loja, no aniversário, na lista de presente. Feita em voz alta, sem bronca, ela vira o jeito de pensar dele.

O dinheiro que sai de casa

A segunda aula é a generosidade. A doação pra caridade. A caixinha do garçom. A oferta na igreja.

Parece detalhe, mas é aí que o filho aprende que dinheiro não serve só pra dentro de casa. Que existe gente em volta. Que a mesa onde ele comeu teve alguém servindo.

A boa notícia é que a criança já vem pronta pra essa aula. Em 2012 três pesquisadores canadenses, Lara Aknin, Kiley Hamlin e Elizabeth Dunn, deram petiscos a crianças com menos de dois anos e filmaram o rosto delas. Elas ficaram mais felizes dando um petisco a um boneco do que recebendo um. E ficaram mais felizes ainda quando o petisco que deram era o delas.

Dar o que é seu deixa feliz antes mesmo de a criança saber falar direito.

Na Bíblia, o apóstolo Paulo escreve numa carta aos cristãos da cidade grega de Corinto que Deus ama quem dá com alegria. Não quem dá muito. Quem dá com alegria. É essa cara que o filho precisa ver quando o pai coloca a oferta ou deixa a caixinha.

E tem uma parte que vai além do exemplo. O estudo Women Give 2013, da Universidade de Indiana, acompanhou 903 crianças e jovens de 8 a 19 anos. Os filhos de pais que conversavam sobre doar tinham 20% mais chance de doar. Só o exemplo, sem a conversa, funcionou menos.

O exemplo abre a porta. A conversa explica por que a porta está aberta. Por que a gente doa, pra quem, o que aquilo muda pra quem recebe.

O elevador do terceiro andar

E tem uma terceira aula, que quase ninguém dá: cuidar do que é de todos.

Imagina que você mora no primeiro andar e nunca vai à reunião de condomínio. Dá preguiça, é terça à noite, sempre tem alguém reclamando da vaga da garagem.

Um dia chega o comunicado no elevador. Por decisão da assembleia, o elevador passa a atender só do terceiro andar pra cima. Quem mora no primeiro e no segundo usa a escada.

Quem foi à reunião pensou só no próprio andar. Quem não foi deixou.

É a mesma lição da caixinha do garçom, num tamanho maior. Generosidade é pensar no prédio inteiro. Aparecer é colocar isso em prática.

E a reunião de condomínio é uma ótima sala de aula. É pequena, a pauta é concreta e o resultado aparece no dia seguinte, no elevador, na portaria, na conta do mês. Levar o filho junto é mostrar como uma decisão de todos é tomada. Quem fala, quem escuta, quem vota, quem cede. Depois, no caminho de volta, dá pra conversar sobre o que ele viu.

O que vale pro prédio vale pra escola, pro bairro e pro país. Quem não aparece mora no prédio que os outros decidiram.

Hoje

Hoje é dia de eleição. É um bom dia pra dar essa aula. Leva o seu filho junto pra votar e conta como você escolhe. Não em quem, mas como.

O que acaba com uma herança

Dois consultores americanos, Roy Williams e Vic Preisser, passaram anos ouvindo famílias que tinham perdido a fortuna. Juntaram mais de 3.250 delas e contaram a história no livro Preparing Heirs, que quer dizer “preparando herdeiros”.

A gente imagina que o dinheiro some por causa de um investimento errado, um mau conselho, uma crise. Menos de 3% das famílias disseram isso.

O motivo de 60% delas foi outro: a confiança e a conversa dentro de casa tinham quebrado. E mais 25% disseram que os herdeiros simplesmente não estavam preparados pra receber.

Ou seja, quase nunca o problema era o dinheiro. Era o que ninguém ensinou antes de entregar.

É por isso que eu falo em herança em vida. O testamento cuida do que vai ser entregue. A casa cuida de quem vai receber.

Três aulas, uma de cada vez

Nada disso exige curso, planilha ou aplicativo. Cabe na semana comum.

  • Na mesa: o prato limpo e a pergunta do essencial e do supérfluo, feita em voz alta.
  • Na rua: a caixinha do garçom, a doação, a oferta. E a conversa sobre por que a gente dá.
  • No prédio: a próxima reunião de condomínio, com o filho do lado.

O que fica

O livro de Provérbios diz pra ensinar a criança no caminho em que ela deve andar, porque quando ela for velha não vai se desviar dele. Ensinar o caminho. Não só entregar o destino.

A herança que a gente deixa quando morre o filho recebe sozinho. A herança em vida a gente entrega com a mão no ombro dele.

Perguntas frequentes

O que é herança em vida?

É o que o pai entrega ao filho enquanto ainda está vivo pra acompanhar: o jeito de usar o dinheiro, a generosidade e o cuidado com o que é de todos. A herança do testamento o filho recebe sozinho. A herança em vida ele recebe com o pai do lado.

Com que idade começar a ensinar o filho a lidar com dinheiro?

Cedo. Um estudo da Universidade de Cambridge de 2013, de David Whitebread e Sue Bingham, mostrou que aos sete anos a maioria das crianças já reconhece o valor do dinheiro, consegue planejar e adiar uma decisão. A mesma pesquisa viu que antes dos oito elas ainda não separam o que é luxo do que é necessidade. É exatamente a aula que a casa pode dar.

Dar o exemplo basta pra ensinar generosidade?

O exemplo abre a porta, mas a conversa completa. O estudo Women Give 2013, da Universidade de Indiana, acompanhou 903 crianças e jovens de 8 a 19 anos e encontrou que os filhos de pais que conversam sobre doar têm 20% mais chance de doar. Só o exemplo, sem conversa, teve efeito menor.

Por que tantas famílias perdem o patrimônio na segunda geração?

No levantamento de Roy Williams e Vic Preisser publicado no livro Preparing Heirs, com mais de 3.250 famílias que perderam a fortuna, menos de 3% atribuíram a perda a investimento ruim. 60% apontaram a quebra de confiança e de conversa dentro da família e 25% disseram que os herdeiros não estavam preparados.

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