Ponto a Ponto

21 de agosto de 2026 · 23 min de leitura

As 5 lesões que mais tiram o tenista juvenil de quadra

Juvenil de elite quebra mais osso do que profissional: 20,3% contra 7,5%. Não é descuido. É vontade chegando mais rápido do que o corpo consegue reconstruir. O que são essas cinco lesões, por que o tênis produz cada uma delas, e a parte da prevenção que é sua e de mais ninguém.

por Eder Miranda

Fundo branco e letras pretas. Em cima, grande, "20,3% JUVENIL"; embaixo, bem menor, "7,5% PROFISSIONAL". No pé: quem quebra mais osso não é quem treina há mais tempo, é quem ainda está crescendo.

Quem você acha que quebra mais osso no tênis: o profissional que treina há vinte anos, ou o menino de dezesseis?

Eu teria chutado o profissional. E a resposta certa é o motivo deste texto existir.

O número que inverte a lógica

Em 2006, dois médicos argentinos, Javier Maquirriain e Juan Pablo Ghisi, acompanharam 139 tenistas de elite durante dois anos contando fraturas por estresse. Fratura por estresse é aquela que ninguém viu acontecer: não tem pancada, não tem queda, o osso simplesmente cede debaixo de carga repetida.

Acharam 18 fraturas em 15 jogadores. Até aí, o esperado.

O que não é esperado é como elas se dividiram.

Entre os profissionais, 7,5% tiveram fratura por estresse no período. Entre os juvenis, 20,3%.

Quase três vezes mais.

Para no número um segundo, porque ele é contraintuitivo. O profissional treina mais horas, bate mais forte, joga mais torneios, viaja mais, dorme pior em hotel e tem mais anos de desgaste acumulado no corpo. Deveria quebrar mais.

Quem quebra é o menino.

O afastamento médio dessas fraturas foi de 15,1 semanas. Quase quatro meses. E vale registrar a parte boa, porque ela também é dado: 93,3% voltaram exatamente ao nível que tinham antes. Fratura por estresse não encerra carreira. Ela rouba uma temporada.

Por que quebra quem ainda está crescendo

São três motivos que se somam, e o terceiro é o que ninguém fala.

O primeiro é o osso. O esqueleto do adolescente ainda está mineralizando. Onde o adulto tem osso maduro, ele tem cartilagem de crescimento — que é justamente o elo mais fraco da corrente. A carga procura o ponto mais frágil, e no menino esse ponto existe. No adulto, não.

O segundo é o descompasso da maturação. A ideia de que no estirão o tendão fica curto e puxa demais é a explicação clássica, e ela é mais frágil do que parece: quando foram medir, quem se lesionou crescia na mesma velocidade de quem não se lesionou. O que os relatos de fratura de costela em adolescente descrevem é uma versão mais específica e mais defensável disso, que é a maturação óssea atrasada em relação ao desenvolvimento muscular. O menino ficou forte antes de o osso terminar de endurecer, e aí quem puxa é mais forte do que a âncora onde está preso.

O terceiro não é biológico, é organizacional. E é o que muda o que dá pra fazer.

O profissional tem periodização. Tem uma equipe que soma a carga da temporada inteira, decide onde é pico e onde é vale, marca as semanas de descarga no calendário antes de o ano começar. Alguém está com a planilha na mão.

O juvenil tem escola, academia, preparador físico, torneio de fim de semana, seleção estadual e às vezes um segundo esporte. Cada um desses otimiza o próprio pedaço com competência, e ninguém soma o total.

O treinador vê as horas dele. O preparador vê as dele. O torneio vê o fim de semana. E a soma, que é a única coisa que o osso enxerga, não está na mão de nenhum deles.

Está na sua.

O que está acontecendo dentro do osso

Antes das cinco, o mecanismo. Porque quando você entende isso, o resto do texto se explica sozinho.

Osso não é uma peça de plástico duro. É tecido vivo, e está em obra permanente.

E a primeira surpresa está logo no começo. Osso carregado do jeito certo não afrouxa pra depois ficar mais forte: ele engrossa direto. Quando mediram recrutas ao longo de treze semanas de treinamento pesado, a casca dura do osso ficou entre 3% e 5% mais espessa e o marcador de demolição caiu.

O afrouxamento é a outra rota, e é a que interessa aqui: a do reparo de microtrinca.

Quando aparece uma trinca microscópica dentro do osso, o corpo abre um canteiro de obra em cima dela. Primeiro demole em volta, depois preenche. E essa obra é lenta: a fase de demolição leva cerca de quatro semanas, e o preenchimento leva mais uns três meses. Enquanto ela está aberta, aquele ponto tem um buraco e está mais fraco do que estava antes.

Se a carga seguinte chega no meio disso, o osso acumula líquido por dentro, e na ressonância isso aparece como uma mancha branca.

Essa mancha é o edema ósseo.

A escada tem quatro degraus. Osso normal. Reação de estresse, que é o edema. Fratura por estresse, uma linha fina no osso. E fratura completa.

E aqui está a parte que eu mais queria que fosse simples, e não é. O edema às vezes dói, e às vezes não dói nada. Na classificação de Kaeding e Miller, que é a que os médicos usam, o grau I é definido justamente como reação de estresse sem sintoma. Quando ressonaram recrutas de elite, só 40% das lesões ósseas por estresse encontradas estavam doendo.

Então a leitura correta é essa: quando dói, o seu filho teve sorte. Ganhou um aviso de graça, com tempo de agir, e o custo de ignorar esse aviso é trocar semanas por meses. O que não dá é usar a ausência de dor como prova de que a obra fechou.

Repara que isso reposiciona a notícia inteira. Um filho com edema ósseo que dói não é um filho com o corpo falhando. É um filho com o corpo funcionando, e dessa vez com o alarme tocando.

As cinco que mais afastam

Uma revisão sistemática publicada em 2025 na revista Sports juntou 37 estudos sobre lesão em tênis de alto rendimento, dezesseis deles só com adolescentes. Os números de base: entre 46% e 54% dos juvenis sofrem ao menos uma lesão por temporada, e 43% dessas lesões são graves, quer dizer, tiram o jogador por mais de 28 dias.

Metade do grupo se machuca todo ano. Quase metade das lesões custa mais de um mês.

Essas são as cinco regiões que dominam a lista. Repara que quatro das cinco são lesão de acúmulo, não de acidente.

1. Coluna lombar — a mais cara de todas

Quanto pesa: de 24% a 39% das lesões em juniores. É a região mais gravemente acometida em meninos e meninas, e a que mais tempo custa.

Por que o tênis produz: o saque. Repara no movimento: o jogador estende a coluna pra trás, roda o tronco e inclina pro lado, tudo ao mesmo tempo, e depois despenca em rotação. Existe uma parte pequena da vértebra, chamada pars interarticularis, que é exatamente onde essas três forças se encontram. O backhand de duas mãos repete parte disso.

Milhares de vezes por semana, num osso que ainda não terminou de calcificar.

E aqui tem um detalhe fino que vale ouro. Um grupo de pesquisadores australianos, liderado por Amity Campbell, comparou adolescentes de elite com histórico de dor lombar incapacitante, com lesão confirmada em L4 e L5, contra colegas sem histórico. O que separou os dois grupos não foi o tamanho da extensão. Foi a inclinação lateral — significativamente maior nos lesionados, e acontecendo no mesmo instante do pico de força vertical, da extensão e da rotação.

Ou seja: o que separou os dois grupos não foi o quanto eles estendiam a coluna. Foi o quanto eles inclinavam pro lado, num movimento que já acontece junto com o pico de força e com a rotação.

Isso é acionável, e é a razão de mostrar esse texto pro treinador: inclinação lateral no saque é ajustável, e é um alvo bem mais específico do que “cuidar da lombar”.

O resultado clínico, quando não se ajusta, tem nome: espondilólise, uma fratura por estresse nessa parte da vértebra. É a causa identificável mais comum de dor nas costas em adolescente que faz esporte. Entre jogadores de 11 a 19 anos com dor lombar, estima-se que 60% tenham uma alteração sintomática ali.

A regra que virou lei aqui em casa: dor lombar em adolescente atleta não se assume como contratura. Se dura mais de duas semanas, ou se piora quando ele estende a coluna pra trás, isso vai ao médico. Quem decide se cabe imagem é ele, não eu, e não a internet. O meu trabalho é não deixar passar.

O que reduz: controlar volume de saque, não só horas de quadra — são coisas diferentes, e uma sessão de 40 minutos só de saque carrega mais a lombar do que duas horas de peloteio. Mais fortalecimento profundo de core, e mobilidade de quadril e de coluna torácica, porque o que essas duas regiões não giram, a lombar gira no lugar delas.

2. Ombro — a lesão que se instala em silêncio, ao longo de anos

Quanto pesa: é a segunda região que mais afasta, logo atrás da lombar.

Por que o tênis produz: o ombro do braço dominante se adapta ao saque. Ele ganha rotação externa, pra armar mais atrás, e vai perdendo rotação interna, porque a cápsula posterior enrijece. Isso não acontece num treino ruim. Acontece em anos, um grau de cada vez, e é progressivo com o tempo de prática.

Essa perda tem sigla: GIRD, o déficit de rotação interna do ombro. E aqui está a parte que quase todo material de internet erra: em tenista, essa diferença é adaptação, não defeito. A média em jogadores fica em torno de 24 graus. Se você medir seu filho e der 15, isso está dentro do esperado, e não é motivo pra pânico nenhum.

O que realmente merece atenção é outra medida: o arco total de rotação do ombro, que é a rotação interna mais a externa somadas. O braço que joga troca rotação interna por externa, então o total tende a se manter parecido com o do outro braço. Quando o total do lado dominante começa a encolher em relação ao outro, aí sim a literatura enxerga um sinal.

A boa notícia: isso é medível em dois minutos. O fisioterapeuta deita o menino, estabiliza a escápula e mede as duas rotações dos dois lados. Uma vez a cada quatro ou seis semanas. Peça o arco total, não só a rotação interna.

O que reduz: alongamento da cápsula posterior logo depois do treino, quando o tecido ainda está quente, e trabalho excêntrico de rotadores externos e de escápula.

3. Tornozelo — a única da lista que é acidente

Quanto pesa: de 18% a 25% de todas as lesões. Em número de ocorrências, é a campeã. O membro inferior como um todo responde por cerca de metade das lesões do tênis juvenil.

Por que o tênis produz: deslize lateral, freada, mudança de direção em fração de segundo. É a lesão aguda do esporte, a que acontece num instante e todo mundo vê.

O detalhe que quase todo pai subestima: o maior fator de risco pra uma entorse é uma entorse anterior mal reabilitada. O tornozelo não perde só ligamento, perde a propriocepção, que é o sentido que o corpo tem da própria posição no espaço. Sem esse sentido calibrado, ele torce de novo.

O que reduz: essa é uma das evidências mais sólidas de toda a medicina esportiva. Treino de equilíbrio e propriocepção reduz recidiva de forma consistente. E a régua que eu levo pra conversa: “voltou a andar” não é o mesmo que estar pronto. Quem libera é quem trata, e o critério que vale a pena perguntar é se ele já faz o gesto do esporte, na intensidade do jogo, sem proteger o tornozelo.

4. Cotovelo e punho — onde o equipamento errado cobra caro

Quanto pesa: o membro superior concentrou 22% das fraturas por estresse do estudo argentino, incluindo dois casos no osso lunato, no punho.

Por que o tênis produz: o punho e a mão viraram geradores de força em vez de elos da cadeia. Empunhaduras extremas, tipo western no forehand, jogam o punho num desvio que sobrecarrega o lado do dedo mínimo, onde passa um tendão chamado extensor ulnar do carpo. No backhand de duas mãos, a mão de cima trabalha em desvio com extensão enquanto gira, e é por isso que tanto juvenil sente dor no punho da mão não dominante, o que confunde todo mundo.

O que reduz, e é quase de graça: o tamanho da empunhadura. Cabo pequeno demais obriga a apertar mais forte a cada bola, e esse aperto extra vai inteiro pro antebraço. Some a isso tensão de corda alta demais em corda rígida. E tem o detalhe que ninguém lembra de checar: a mão dele cresceu, e o cabo continua o mesmo do ano passado.

Uma ressalva importante: dor na parte de fora do cotovelo num menino que ainda está crescendo não é a mesma coisa que cotovelo de tenista de adulto. Ali tem placa de crescimento, e isso vai ao ortopedista antes de ir à loja de raquete.

5. Apofisites — a dor no ponto onde o tendão se prende

Quanto pesa: a apofisite da tuberosidade tibial, mais conhecida como doença de Osgood Schlatter, aparece em cerca de um em cada dez adolescentes. Entre os que praticam esporte, sobe pra um em cada cinco, contra menos de um em vinte entre os que não praticam.

Onde fica: no joelho, na saliência óssea abaixo da patela onde o tendão patelar se prende na tíbia. É uns bons centímetros abaixo da rótula, não colado nela. No calcanhar, onde o tendão de Aquiles se insere, é a doença de Sever.

Por que acontece: existe uma explicação clássica que você vai ouvir de todo mundo, inclusive na primeira versão deste texto: no estirão o osso alonga primeiro, o tendão fica relativamente curto e passa a puxar com força a cartilagem onde se prende. É plausível, está nos manuais, e é honesto dizer que ela não está provada. Quando foram medir, a proporção entre tendão e osso não muda durante o estirão: o tendão cresce junto. E num estudo com cerca de 1.200 jovens atletas, quem se lesionou estava crescendo na mesma velocidade de quem não se lesionou, 4,8 cm por ano nos dois grupos.

O que aparece com força nos dados é bem mais simples: apofisite dá em quem treina. Cinco vezes mais em adolescente que faz esporte do que em adolescente que não faz. Numa coorte que acompanhou mais de 1.600 crianças por cinco anos e meio, praticar esporte de salto e mudança de direção multiplicou o risco por dois ou mais. Aula de educação física a mais, não.

A parte que tranquiliza, e que ninguém diz pro pai: apófise é ponto de tração de tendão, ela não é a placa que alonga o osso. Distúrbio de crescimento depois de lesão de apófise é raro. Isso não vai mexer na altura final do seu filho.

O que reduz: ajustar a dose e a superfície, e tratar dor em ponto de inserção como informação, não como frescura. Vale acompanhar a altura de três em três meses pra saber em que fase ele está, mas sem transformar centímetro em diagnóstico: quem decide o que é aquela dor é quem examina o joelho.

A rara que apareceu aqui em casa

Meu filho mais velho está com edema ósseo por estresse na costela. Dói quando ele respira fundo.

Fratura e edema de costela em tenista existem, mas são raros o suficiente pra virarem relato de caso na literatura. Um deles descreve um tenista de elite de 16 anos com dor no ombro que acabou sendo, na imagem, uma fratura na primeira costela.

O mecanismo é bonito de entender e assustador de imaginar. A primeira costela é puxada para baixo pelo serrátil anterior e para cima pelos escalenos. Bem no ponto onde essas duas forças opostas se encontram fica a parte mais fina do osso, o sulco onde passa a artéria subclávia. Se o atleta desenvolve muito essas musculaturas e repete o gesto do saque milhares de vezes, o osso vive sendo esticado nos dois sentidos ao mesmo tempo.

Nas costelas de baixo, o serrátil e os oblíquos fazem trabalho parecido durante o saque e o smash.

E os relatos de caso repetem duas coisas. A primeira é o alerta de que, como a dor aparece no ombro, nas costas ou ao respirar, essa lesão é confundida com contratura, com problema de escápula, com “ele dormiu torto” — e passa despercebida. Dor que muda quando o menino respira é motivo pra consulta, não pra observar mais uma semana.

A segunda é a descrição do perfil de quem tem: adolescente com maturação óssea atrasada em relação ao desenvolvimento muscular.

Lê essa frase de novo, porque ela é o resumo do texto inteiro. É o menino que ficou forte rápido demais. Que treinou tanto que a musculatura chegou na frente do osso.

É elogio virando fator de risco.

O dado que muda a conversa dentro de casa

Esse aqui eu preciso que você leia devagar.

Um grupo de pesquisadores ressonou a coluna de 25 tenistas juvenis de elite, média de 13 anos, e todos eles eram assintomáticos. Nenhum tinha dor. Nenhum tinha reclamado de nada.

Acharam alteração lombar em 64% deles. Alteração na pars em 36%. Edema ósseo em 24%.

Um em cada quatro meninos que estava treinando normalmente, jogando torneio no fim de semana, sem nenhuma queixa, já tinha líquido acumulado dentro do osso da coluna.

Isso ensina duas coisas ao mesmo tempo, e as duas importam.

A primeira é a que os autores fazem questão de dizer: imagem sem sintoma não é sentença. Se seu filho fez uma ressonância e apareceu alguma coisa, isso sozinho não define nada. Muita alteração convive com um atleta saudável a vida inteira. Não trate um laudo como diagnóstico, e desconfie de quem tratar.

A segunda é a que interessa ao pai que decide o calendário: “ele não está sentindo nada” não é informação. É ausência de informação.

A carga já está escrevendo dentro do osso muito antes de o menino perceber. Você não vai receber o aviso a tempo pela boca do seu filho, e não é porque ele mente. É porque ele genuinamente não sente ainda. E quando ele sentir, se ele for como o meu, ele vai esconder por três semanas pra não perder o torneio.

Por isso a dose não pode ser decidida pelo relato dele. Precisa ser medida.

A parte que é sua

Agora a pergunta prática. Se metade se machuca todo ano, se o corpo não avisa em tempo e se ninguém no sistema está somando a carga total, o que sobra pro pai fazer?

Sobra a coisa mais importante, e ela é bem mais simples do que parece.

Olha o sistema em volta do seu filho de novo. Todo mundo ali tem um incentivo legítimo pra empurrar. O treinador é pago pra treinar, e treinar mais parece dedicação. O torneio vive de inscrição. O preparador quer o pico na data certa. A academia quer o resultado que vira vitrine.

E o filho é o que mais empurra de todos. A vontade dele é infinita, ele tem a idade em que corpo parece detalhe, e ele quer.

Sobra você. Você é o único adulto do sistema sem conflito de interesse.

E o seu trabalho não é aumentar a vontade dele. Ele não precisa disso. Vontade nunca foi o recurso escasso nessa casa. O recurso escasso é recuperação — e recuperação acontece fora da quadra, que é exatamente o território que é seu.

São oito coisas concretas, e nenhuma exige diploma de medicina.

1. Meça a carga em vez de sentir a carga. Uma planilha boba com horas de treino, número de jogos e número de saques por semana. Duas réguas seguram a maior parte do risco: não subir mais de 15% por semana, e não deixar a semana atual passar de 1,3 vez a média das quatro anteriores. Não são leis da física, são limites de bom senso pra impedir o salto que o osso não acompanha, e servem principalmente pra te dar um número onde antes você só tinha impressão.

2. Use a idade como teto. Neeru Jayanthi é médico esportivo e acompanhou cerca de 1.200 jovens atletas por três anos. A regra que saiu dali é fácil de lembrar: horas semanais de esporte organizado não devem passar da idade em anos, com teto em torno de 16 horas, ao menos três meses por ano longe da competição (não precisam ser seguidos) e no máximo duas horas de esporte organizado pra cada hora de brincadeira livre.

3. Trate sono como treino. Matthew Milewski é cirurgião ortopédico pediátrico e mediu isso em atletas adolescentes: quem dorme menos de 8 horas por noite tem 1,7 vez mais lesão. É a intervenção mais barata que existe e é sempre a primeira que o calendário atropela — voo de madrugada, jogo às oito da manhã, prova na segunda. Quando você defende o sono dele, você está fazendo prevenção de lesão, não mimo.

4. Peça a medida do ombro, e peça a certa. Rotação interna e externa dos dois lados, a cada quatro ou seis semanas, dois minutos com o fisio. O que interessa não é a rotação interna sozinha, que em tenista é normal estar bem menor no braço que joga: é o arco total encolher em relação ao outro lado.

5. Cuide do cabo da raquete. Empunhadura do tamanho certo pra mão que ele tem hoje, corda e tensão compatíveis. É a prevenção mais barata da lista inteira e a que ninguém lembra, porque a mão cresce e o cabo fica.

6. Dor lombar tem prazo, dor ao respirar tem pressa. Duas semanas de dor nas costas em adolescente atleta, ou dor que piora ao estender a coluna, é hora de marcar consulta. Dor que muda com a respiração é hora de marcar hoje. O que investigar e como, quem decide é o médico.

E três coisas que não esperam prazo nenhum: desmaio ou quase desmaio durante o esforço, dor no peito ao exercício, e dor que vem com febre, perda de peso ou suor noturno. Nada disso é lesão de carga, e nada disso espera duas semanas.

7. Se a sua atleta é menina, olhe a energia e o ciclo. Não é assunto delicado, é fator de risco medido. Comer menos do que se gasta derruba a densidade óssea, altera a estrutura do osso e aumenta a chance de lesão por estresse, e a menstruação que fica irregular ou some é o sinal mais visível de que isso está acontecendo. Numa adolescente o custo não é só a temporada: é o pico de massa óssea que ela deveria alcançar até os vinte e poucos e não vai mais alcançar, o que antecipa problema de osso lá na frente. Isso é conversa de médico, não de treinador, e não é assunto pra resolver com “come mais”.

8. Bote a semana de descarga no calendário antes de ele encher. E se você acha isso exagero de pai, considere o seguinte: a própria ITF, a federação internacional, limita o jogador de 13 anos a 10 torneios no ano e o de 14 a 14 torneios. Uma federação inteira precisou escrever uma regra porque descobriu que ninguém segura sozinho. Nem o treinador, nem o atleta, nem o pai no meio da euforia de uma boa fase.

Uma ressalva honesta: eu não sou médico. Nada disso substitui o ortopedista, o fisioterapeuta e o preparador que acompanham seu filho. O que esse texto faz é te dar as perguntas certas pra levar até eles, e a noção de qual parte da conta é sua.

A mesma carga que quebra é a que constrói

Eu não quero terminar esse texto com você com medo de carga, porque isso seria falso e seria ruim pro seu filho.

Então olha esse dado.

Mede o úmero, que é o osso do braço, dos dois lados de um tenista. O braço que joga tem entre 14% e 27% mais conteúdo mineral ósseo que o outro, e a área de osso cortical, que é a casca dura, chega a ser cerca de um terço maior. O mesmo saque que pode trincar uma costela construiu um osso visivelmente mais forte do lado que trabalha.

E tem um detalhe que muda o jeito de olhar pra esses anos. Mediram mais de cem tenistas mulheres e separaram as que começaram a jogar antes ou durante a puberdade das que começaram bem depois. A vantagem óssea das que começaram cedo era de duas a quatro vezes maior. A janela em que o esqueleto responde melhor ao tênis é exatamente essa que o seu filho está atravessando agora.

E o que se ganha nela não vai embora quando ele parar. Mediram ex atletas cerca de cinquenta anos depois de largar o esporte: metade da vantagem de tamanho do osso e um terço da vantagem de resistência ainda estavam lá.

Quer dizer: seu filho está construindo, agora, um esqueleto que vai ser dele aos setenta anos.

Carga não é veneno. Carga é o estímulo, e o único jeito de o osso ficar forte. A diferença entre o osso que fica mais forte e o osso que racha não está na quantidade de carga. Está no intervalo entre uma carga e a seguinte — no tempo que você dá pra obra fechar antes de mandar demolir de novo.

Prevenção de lesão em jovem atleta não é fazer menos. É fazer com espaçamento.

E a conversa que dá pra ter hoje

A parte mais difícil de um filho parado não é o osso. É o tempo.

Ele quer saber quando volta. Você quer saber quando volta. E “quando você volta?” é uma pergunta que parece cuidado e funciona como cobrança, porque transforma cada dia de recuperação em atraso.

Troca por outra: como está hoje, comparado com ontem?

Muda tudo. A primeira olha pra uma data que ninguém controla. A segunda olha pra uma direção, e direção é a única coisa que ele consegue influenciar deitado.

E tem uma coisa que vale dizer em voz alta, antes que ele conclua sozinho outra: isso não aconteceu porque ele fez errado. Aconteceu porque ele se dedicou de um jeito que o corpo ainda está aprendendo a sustentar. A vontade dele não é o problema dessa história. A vontade dele é o patrimônio.

O que muda daqui pra frente é a administração da dose. É engenharia, não é caráter.

Osso quebrado por estresse volta em 15 semanas, e mais de nove em cada dez atletas voltam exatamente ao nível que tinham. Menino que aprende que o corpo dele é assunto dele, e que descobre que tem um pai capaz de segurar a dose sem nunca ter tirado o sonho, esse volta melhor do que estava.

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