Ponto a Ponto

02 de julho de 2026 · 9 min de leitura

Pais educam filhos. Mas quem educa os pais?

Içami Tiba escreveu em 2002 que educar filho não é trabalho da escola, é da família. Pai de atleta tem uma armadilha a mais: terceiriza a formação não só pro colégio, mas pro técnico, pro psicólogo do clube, pra federação. Eu fiz isso durante anos sem perceber.

por Eder Miranda

Pai sentado sozinho numa cadeira de plástico ao lado de uma quadra de tênis vazia no fim do treino, raquete infantil e mochila esportiva aos pés, luz de fim de tarde entrando pela tela do alambrado.

O meu mais velho devia ter uns treze anos. Reunião de pais na academia, daquelas de início de temporada, com planilha de torneios na mesa e o técnico explicando a periodização do semestre. Em algum momento eu levantei a mão e perguntei se ele podia apertar o meu filho na questão da pontualidade, porque ele estava se atrasando pras coisas e não estava nem aí.

O técnico anotou. Educado, profissional. Disse que ia conversar com ele.

Eu saí da reunião satisfeito. Demorei anos pra entender o que tinha acabado de acontecer naquela sala: eu tinha pedido pra outro homem educar o meu filho. Não treinar. Educar. Pontualidade não é fundamento de tênis. Pontualidade é respeito pelo tempo dos outros, e isso se ensina em casa, na hora do jantar, no horário de dormir, no compromisso pequeno de toda semana. Eu estava terceirizando, e nem percebia, porque a terceirização tinha cara de envolvimento. Eu estava na reunião, não estava? Eu estava pagando, acompanhando, cobrando. Eu era um pai presente.

Presente e terceirizando. As duas coisas juntas. Essa é a armadilha.

Um livro de 2002 que eu li tarde demais

Içami Tiba escreveu Quem Ama, Educa! em 2002, quando o meu mais velho ainda nem existia. Foi o livro mais vendido do Brasil em 2003. Minha casa, como milhões de casas brasileiras, tinha um exemplar. Eu li com décadas de atraso, e li do jeito que a gente lê livro de paternidade depois de errar: reconhecendo cena por cena.

A tese central do Tiba cabe numa frase: escola ensina, quem educa é a família. Escola dá conteúdo, dá convivência, dá matemática e recreio. Mas o núcleo ético de uma criança, o limite, a tolerância à frustração, o respeito, a responsabilidade, isso se forma dentro de casa, por repetição e por exemplo, num processo que não tem férias nem terceirização possível.

Tiba escreveu isso mirando a família que empurra tudo pro colégio. Ele não chegou a escrever o capítulo que eu precisava, mas a conta é a mesma. Porque pai de atleta não terceiriza só pra escola. Pai de atleta tem um cardápio inteiro de terceirização à disposição, e todos os fornecedores são competentes, bem intencionados e caros.

A minha auditoria

Quando li o Tiba, fiz uma lista. Recomendo o exercício e aviso que dói.

A pontualidade eu tinha entregado pro técnico, como contei. A frustração eu tinha entregado pro psicólogo esportivo: quando o mais velho desabava depois de derrota, minha reação era agendar sessão, como quem leva o carro no mecânico. O respeito ao adversário eu tinha entregado pro regulamento, porque tem árbitro pra isso, tem código de conduta, tem punição. E os valores, a parte mais profunda da formação, essa eu tinha entregado pra uma frase que todo pai de atleta adora repetir: o esporte forma o caráter.

Passei anos repetindo essa frase. Hoje eu acho ela a mais conveniente das mentiras que a gente conta pra si mesmo nesse mundo. O esporte não forma caráter. O esporte revela e amplifica o caráter que a casa formou. Bota uma criança bem educada sob pressão e você vê uma criança bem educada sob pressão. Bota uma criança sem limite numa quadra com placar e plateia e você vê a falta de limite em alta definição, com testemunhas.

Se o esporte formasse caráter sozinho, não existiria atleta profissional mal educado. A lista de exemplos em contrário é longa e está nos jornais toda semana.

As três coisas que sobram pra você

Depois da auditoria, sobrou o que não dava pra entregar pra ninguém. Cheguei em três. Não porque sejam as únicas, mas porque foram as que eu quase perdi a janela de ensinar.

Perder com dignidade. O técnico ensina seu filho a não perder. É o trabalho dele, é pra isso que você paga. Mas ninguém no clube ensina a perder, porque derrota, na lógica do treinamento, é defeito a corrigir, não experiência a atravessar. Só que seu filho vai perder a maior parte dos jogos da vida dele, dentro e fora da quadra, e a diferença entre um adulto inteiro e um adulto quebrado costuma estar no que ele aprendeu a fazer com a derrota aos doze. Isso se ensina no carro voltando pra casa. Já escrevi sobre esse carro antes, e vou escrever de novo, porque foi nele que eu mais errei.

Escolher por si. A rotina do atleta juvenil é uma máquina de decidir pela criança. O calendário decide o fim de semana, a periodização decide as férias, o ranking decide a prioridade. Uma criança pode chegar aos dezesseis anos de vida esportiva sem nunca ter tomado uma decisão relevante sozinha. E aí a gente se espanta quando o adolescente não sabe o que quer. Ensinar a escolher exige entregar escolhas de verdade, com consequência de verdade, começando pequeno. Nenhuma federação faz isso pelo seu filho. É intransferível.

Decidir parar. Essa é a mais difícil, porque contraria o interesse de todo mundo em volta. O clube não vai sugerir que seu filho pare. O técnico não vai. O calendário muito menos. Se um dia a decisão de parar, ou de mudar de rumo, ou de escolher outra vida, precisar ser tomada, o único lugar do mundo onde ela pode nascer com segurança é dentro da sua casa, e só se seu filho souber que o amor da família nunca esteve pendurado no ranking. Esse alicerce se constrói dez anos antes de ser necessário. Ou não se constrói.

Meu pai não tinha academia

Meu pai era marceneiro. Não entendia de tênis, não pisava em clube, não saberia dizer o que é um cabeça de chave. E me educou inteiro, na marcenaria, na mesa do jantar, no exemplo diário de um homem que cumpria o que falava. Ele errou em muitas coisas, e eu já escrevi sobre os silêncios dele. Mas uma coisa ele nunca fez: nunca esperou que outro adulto ensinasse o filho dele a ser gente.

Eu, com muito mais recurso, muito mais informação e uma estrutura esportiva profissional em volta do meu filho, esperei. Essa é a ironia que o Tiba me jogou na cara com vinte anos de atraso: quanto mais competente é a estrutura em volta do seu filho, mais fácil fica confundir formação esportiva com formação humana. Meu pai não tinha a quem terceirizar. Eu tinha, e terceirizei.

O mais velho tem dezoito hoje e mora na Espanha. Ninguém em Alicante cobra a cama arrumada dele, e nenhum técnico de lá liga pra me contar se ele foi pontual. O que ficou foi o que foi ensinado em casa, no tempo em que ele ainda estava em casa. Algumas dessas coisas eu ensinei. Outras eu deleguei, e a lacuna aparece de vez em quando, e cada vez que aparece eu sei exatamente de qual reunião de pais ela veio.

Com a do meio e com o caçula a lista da auditoria fica colada na minha consciência. Técnico treina. Escola ensina. Psicólogo dá ferramenta. Educar, sobra pra mim e pra Tatiana. Sobrar, aqui, não é peso. É o único pedaço que eu não aceito mais entregar.

Quem educa os pais?

O Tiba responde a primeira pergunta com uma clareza que incomoda: quem educa os filhos é a família. Mas tem uma segunda pergunta que o livro deixa ecoando, e essa me incomodou mais. Se a educação do filho é minha, quem me educou pra isso?

Ninguém. Essa é a resposta honesta. A escola me ensinou matemática. A faculdade me formou engenheiro. Pra profissão eu tive professor, estágio, chefe, curso, certificação. Pra função mais difícil e mais permanente que eu ia exercer na vida, nada. A gente assume o cargo de pai sem um dia de treinamento, e o único manual que recebe é o exemplo dos próprios pais, gravado trinta anos antes, escrito pra um mundo que não existe mais. Já contei aqui o que acontece quando esse manual roda sozinho: a gente repete o que jurou nunca repetir. Herança não é formação. É repetição.

Então quem me educou como pai, de verdade? Fazendo a lista, ela tem quatro linhas. Os meus erros, que foram muitos e alguns caros. A terapia, cinco anos dela, que me ensinou a olhar pro que eu estava fazendo em vez de olhar só pro que o meu filho estava jogando. Os livros, lidos tarde, este do Tiba incluído. E, na linha mais importante, os meus próprios filhos. Foi o mais velho quem me mostrou, sem saber, cada lugar onde eu estava falhando, porque filho devolve em tempo real o efeito do que a gente faz. A do meio e o caçula continuam o curso. Filho é a única escola de pais que dá aula todos os dias, e a maioria de nós mata a aula olhando o placar.

O título do Tiba diz que quem ama, educa. Demorei pra entender que a frase vale nas duas direções. Quem ama o filho aceita ser educado por ele. E aceita o resto do serviço também: se a formação do filho não pode ser terceirizada, a formação do pai muito menos. Ninguém vai fazer essa por você. Nem técnico, nem escola, nem psicólogo, nem este blog.


Se você é pai ou mãe de atleta, faz o exercício da lista antes de fechar esta página. Escreve o que você espera que o técnico, o clube ou o psicólogo ensinem ao seu filho este ano. Depois marca, item por item, o que é fundamento de esporte e o que é fundamento de gente. A segunda coluna é sua. Sempre foi.

E quando terminar, responde a pergunta que ficou aberta: quem está te educando pra dar conta dela?

referências

  1. Quem Ama, Educa!

    Içami Tiba , Editora Integrare · 2002 ISBN 9788573123821

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