Ponto a Ponto

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Pais educam filhos. Mas quem educa os pais?

Içami Tiba escreveu em 2002 que educar filho não é trabalho da escola, é da família. Pai de atleta tem uma armadilha a mais: terceiriza a formação não só pro colégio, mas pro técnico, pro psicólogo do clube, pra federação. E dá pra fazer isso por anos achando que está sendo presente.

por Eder Miranda

Pai sentado sozinho numa cadeira de plástico ao lado de uma quadra de tênis vazia no fim do treino, raquete infantil e mochila esportiva aos pés, luz de fim de tarde entrando pela tela do alambrado.

O meu mais velho devia ter uns treze anos. Reunião de pais na academia, daquelas de início de temporada, com planilha de torneios na mesa e o técnico explicando a periodização do semestre. Em algum momento eu levantei a mão e perguntei se ele podia apertar o meu filho na questão da pontualidade, porque ele estava se atrasando pras coisas e não estava nem aí.

O técnico anotou. Educado, profissional. Disse que ia conversar com ele.

Eu saí da reunião satisfeito. Naquela sala tinha acontecido uma coisa que quase ninguém nota: um pai pedindo pra outro homem educar o filho dele. Não treinar. Educar. Pontualidade não é fundamento de tênis. Pontualidade é respeito pelo tempo dos outros. Isso se ensina em casa, na hora do jantar, no horário de dormir, no compromisso pequeno de toda semana. A terceirização passa despercebida porque tem cara de envolvimento. O pai está na reunião, não está? Está pagando, acompanhando, cobrando. É um pai presente.

Presente e terceirizando. As duas coisas juntas. Essa é a armadilha.

Um livro de 2002

Içami Tiba escreveu Quem Ama, Educa! em 2002, quando o meu mais velho ainda nem existia. Foi o livro mais vendido do Brasil em 2003. Minha casa, como milhões de casas brasileiras, tinha um exemplar. Quem abre esse livro hoje, com filho no circuito, reconhece cena por cena.

A tese central do Tiba cabe numa frase: escola ensina, quem educa é a família. Escola dá conteúdo, dá convivência, dá matemática e recreio. Mas o núcleo ético de uma criança, o limite, a tolerância à frustração, o respeito, a responsabilidade, isso se forma dentro de casa, por repetição e por exemplo, num processo que não tem férias nem terceirização possível.

Tiba escreveu isso mirando a família que empurra tudo pro colégio. Ele não chegou a escrever o capítulo que eu precisava, mas a conta é a mesma. Porque pai de atleta não terceiriza só pra escola. Pai de atleta tem um cardápio inteiro de terceirização à disposição. Todos os fornecedores são competentes, bem intencionados e caros.

A minha auditoria

Com o Tiba na cabeça, vale fazer uma lista. Recomendo o exercício.

A pontualidade vai pro técnico, como na reunião. A frustração vai pro psicólogo esportivo: o filho desaba depois da derrota e a reação é agendar sessão, como quem leva o carro no mecânico. O respeito ao adversário vai pro regulamento, porque tem árbitro pra isso, tem código de conduta, tem punição. E os valores, a parte mais profunda da formação, vão pra uma frase que todo pai de atleta adora repetir: o esporte forma o caráter.

Essa frase é a mais conveniente das mentiras que a gente conta pra si mesmo nesse mundo. O esporte não forma caráter. O esporte revela e amplifica o caráter que a casa formou. Bota uma criança bem educada sob pressão e você vê uma criança bem educada sob pressão. Bota uma criança sem limite numa quadra com placar e plateia e você vê a falta de limite em alta definição, com testemunhas.

Se o esporte formasse caráter sozinho, não existiria atleta profissional mal educado. A lista de exemplos em contrário é longa e está nos jornais toda semana.

As três coisas que sobram pra você

Depois da auditoria, sobrou o que não dava pra entregar pra ninguém. Cheguei em três. Não são as únicas. São as que ninguém mais vai ensinar.

Perder com dignidade. O técnico ensina seu filho a não perder. É o trabalho dele, é pra isso que você paga. Mas ninguém no clube ensina a perder, porque derrota, na lógica do treinamento, é defeito a corrigir, não experiência a atravessar. Só que seu filho vai perder a maior parte dos jogos da vida dele, dentro e fora da quadra. A diferença entre um adulto inteiro e um adulto quebrado costuma estar no que ele aprendeu a fazer com a derrota aos doze. Isso se ensina no carro voltando pra casa. Já escrevi sobre esse carro antes e vou escrever de novo, porque é nele que a conversa mais importante acontece.

Escolher por si. A rotina do atleta juvenil é uma máquina de decidir pela criança. O calendário decide o fim de semana, a periodização decide as férias, o ranking decide a prioridade. Uma criança pode chegar aos dezesseis anos de vida esportiva sem nunca ter tomado uma decisão relevante sozinha. E aí a gente se espanta quando o adolescente não sabe o que quer. Ensinar a escolher exige entregar escolhas de verdade, com consequência de verdade, começando pequeno. Nenhuma federação faz isso pelo seu filho. É intransferível.

Decidir parar. Essa é a mais difícil, porque contraria o interesse de todo mundo em volta. O clube não vai sugerir que seu filho pare. O técnico não vai. O calendário muito menos. Se um dia a decisão de parar, ou de mudar de rumo, ou de escolher outra vida, precisar ser tomada, o único lugar do mundo onde ela pode nascer com segurança é dentro da sua casa. E só se seu filho souber que o amor da família nunca esteve pendurado no ranking. Esse alicerce se constrói dez anos antes de ser necessário. Ou não se constrói.

Meu pai não tinha academia

Meu pai era marceneiro. Não entendia de tênis, não pisava em clube, não saberia dizer o que é um cabeça de chave. E me educou inteiro, na marcenaria, na mesa do jantar, no exemplo diário de um homem que cumpria o que falava. Ele tinha os silêncios dele e eu já escrevi sobre eles. Mas uma coisa ele nunca fez: nunca esperou que outro adulto ensinasse o filho dele a ser gente.

A gente tem muito mais recurso, muito mais informação e uma estrutura esportiva profissional em volta do filho. Essa é a ironia que o Tiba deixa na mesa: quanto mais competente é a estrutura em volta do seu filho, mais fácil fica confundir formação esportiva com formação humana. Meu pai não tinha a quem terceirizar. A gente tem. Por isso precisa escolher o que não entrega.

O mais velho tem dezoito hoje e mora na Espanha. Ninguém em Alicante cobra a cama arrumada dele e nenhum técnico de lá liga pra me contar se ele foi pontual. O que vale é o que foi ensinado em casa, no tempo em que ele ainda estava em casa. É esse pedaço que viaja com ele.

Com a do meio e com o caçula a lista da auditoria fica sempre à vista. Técnico treina. Escola ensina. Psicólogo dá ferramenta. Educar, sobra pra mim e pra Tatiana. Sobrar, aqui, não é peso. É o único pedaço que eu não aceito entregar.

Quem educa os pais?

O Tiba responde a primeira pergunta com uma clareza que incomoda: quem educa os filhos é a família. Mas tem uma segunda pergunta que o livro deixa ecoando. Essa me incomodou mais. Se a educação do filho é minha, quem me educou pra isso?

Ninguém. Essa é a resposta honesta. A escola me ensinou matemática. A faculdade me formou engenheiro. Pra profissão eu tive professor, estágio, chefe, curso, certificação. Pra função mais difícil e mais permanente que eu ia exercer na vida, nada. A gente assume o cargo de pai sem um dia de treinamento. O único manual que recebe é o exemplo dos próprios pais, gravado trinta anos antes, escrito pra um mundo que não existe mais. Já contei aqui o que acontece quando esse manual roda sozinho: a gente repete o que jurou nunca repetir. Herança não é formação. É repetição.

Então quem me educou como pai, de verdade? Fazendo a lista, ela tem quatro linhas. A quadra, domingo após domingo de torneio. A terapia, cinco anos dela, que me ensinou a olhar pro que eu estava fazendo em vez de olhar só pro que o meu filho estava jogando. Os livros, este do Tiba incluído. E, na linha mais importante, os meus próprios filhos. Foi o mais velho quem abriu esse curso, porque filho devolve em tempo real o efeito do que a gente faz. A do meio e o caçula continuam o curso. Filho é a única escola de pais que dá aula todos os dias. Basta tirar o olho do placar pra assistir.

O título do Tiba diz que quem ama, educa. E a frase vale nas duas direções. Quem ama o filho aceita ser educado por ele. E aceita o resto do serviço também: se a formação do filho não pode ser terceirizada, a formação do pai muito menos. Ninguém vai fazer essa por você. Nem técnico, nem escola, nem psicólogo, nem este blog.


Se você é pai ou mãe de atleta, faz o exercício da lista antes de fechar esta página. Escreve o que você espera que o técnico, o clube ou o psicólogo ensinem ao seu filho este ano. Depois marca, item por item, o que é fundamento de esporte e o que é fundamento de gente. A segunda coluna é sua. Sempre foi.

E quando terminar, responde a pergunta que ficou aberta: quem está te educando pra dar conta dela?

referências

  1. Quem Ama, Educa!

    Içami Tiba , Editora Integrare · 2002 ISBN 9788573123821

Perguntas frequentes

Quem foi Içami Tiba e por que ele importa pra quem educa filhos no Brasil?

Içami Tiba (1941-2015) foi psiquiatra e educador paulista, provavelmente o autor mais influente do parenting popular brasileiro. Quem Ama, Educa!, publicado em 2002, foi o livro mais vendido do Brasil em 2003 segundo a Veja e virou referência de cabeceira de milhões de famílias. A força dele está no contexto: enquanto a maior parte da literatura de paternidade traduzida vem de realidades americanas ou europeias, Tiba escreveu sobre a família brasileira, com a escola brasileira, a avó brasileira e a culpa brasileira dentro de casa.

O que significa a frase 'quem ama, educa'?

Significa que amor e educação não são opostos, são a mesma obrigação. Tiba resumia assim: amor sem educação cria criança sem limite; educação sem amor cria adulto sem afeto. Educar, pra ele, é ensinar o filho a ser cidadão ético dentro de casa, no dia a dia, com limite, consequência e exemplo. Quem terceiriza essa parte achando que amar já basta não está protegendo o filho. Está adiando a conta que ele vai pagar adulto.

Por que a escola não pode substituir a educação que vem da família?

Porque escola ensina conteúdo e convivência, mas não tem como formar o núcleo ético de uma criança em quatro ou cinco horas por dia divididas entre trinta alunos. Valores, limite, tolerância à frustração e responsabilidade se aprendem por repetição e por exemplo. Isso acontece onde a criança passa a vida real: em casa. Tiba escreveu isso em 2002, antes de smartphone. A vida moderna só agravou o problema, porque hoje a família terceiriza pra escola, pra tela e, no caso do filho atleta, pro clube.

Como aplicar Içami Tiba na educação de um filho atleta?

Separando o que é treinável do que é formável. Técnico ensina saque, tática e rotina de treino. Psicólogo esportivo ensina ferramenta de foco e regulação. Nenhum dos dois vai ensinar o seu filho a perder com dignidade, a escolher o próprio caminho ou a reconhecer a hora de parar, porque isso não se ensina em sessão, se ensina em anos de convivência e exemplo. A aplicação prática de Tiba pro pai de atleta é uma auditoria honesta: liste o que você espera que o clube ensine ao seu filho e marque o que, no fundo, é trabalho seu.

Se quem educa os filhos é a família, quem educa os pais?

Ninguém. Essa é a lacuna que o próprio Tiba deixa exposta. Não existe formação formal pra função de pai: a gente assume o cargo mais difícil da vida tendo como único manual o exemplo dos próprios pais, gravado décadas antes, pra um mundo que não existe mais. Na prática, pai se educa por quatro vias: reconhecendo os padrões que herdou (o que Philippa Perry chama de ciclo herdado), errando e reparando o erro na frente do filho, buscando conhecimento de forma deliberada (livro, terapia, evidência em vez de palpite) e, principalmente, sendo educado pelos próprios filhos, que devolvem em tempo real o efeito do que fazemos. Quem ama, educa vale nas duas direções.

Educar um filho que compete é diferente de educar um filho que não compete?

O núcleo é o mesmo: limite, afeto, exemplo e consequência valem pra qualquer criança. O que muda é a quantidade de adultos com autoridade parcial sobre a rotina do seu filho. Filho que compete tem técnico, preparador, dirigente e calendário mandando em pedaços do dia dele. Isso cria no pai a ilusão confortável de que a formação está coberta. Não está. Quanto mais adultos competentes cercam o seu filho, mais fácil fica confundir formação esportiva com formação humana e mais necessário fica o pai saber qual parte é intransferível.

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