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A despedida de Wawrinka e Monfils e o tempo que ainda temos
A despedida de Wawrinka e Monfils em Roland Garros lembra algo que todo pai de atleta pode transformar em presente: o jogo do filho tem prazo. Cada fase merece ser vivida inteira.
por Eder Miranda
Roland Garros anunciou wildcards para Stan Wawrinka e Gaël Monfils. Uma despedida oficial de dois homens que deram décadas ao tênis. É bonito. É brutal. E me pegou de jeito.
Eu vi Monfils ao vivo. Estava no estádio em Lille, em novembro de 2014, na abertura da final da Copa Davis contra a Suíça. Eram 27 mil pessoas e aquele cara destruiu o Federer com uma alegria que parecia quase ofensiva para quem estava do outro lado da rede. Meu filho mais velho tinha seis anos. Ficou hipnotizado. Lembro da expressão dele olhando para aquele corpo que parecia não obedecer às leis normais da física.
Agora Monfils vai entrar em Roland Garros sabendo que é a última vez. E eu fico sentado aqui pensando numa coisa que ninguém avisa: o que acontece com o pai quando o filho atleta chegar nesse mesmo ponto um dia?
Eu tenho uma pista da resposta. Meu filho mais velho está na Espanha construindo a carreira que escolheu. Cada fase que ele avança fecha uma fase da infância. E cada conquista dele abre uma relação nova entre nós dois, diferente da de antes. É o sonho dele andando. Acompanhar isso de perto é das melhores coisas que um pai pode viver.
O que a despedida de um atleta revela
Há algo de sagrado num atleta que entra em quadra sabendo que é a última vez naquele palco. Não é derrota. É um ciclo que se fecha com consciência. Wawrinka carrega três Grand Slams e um corpo que pagou caro por cada um deles. Monfils carrega uma carreira inteira jogada com alegria genuína, um estilo que era dele e de mais ninguém.
O que me impressiona não é a despedida em si. É a clareza dela. Eles sabem que é o fim. Entraram em Roland Garros com um wildcard que é quase uma reverência do torneio para tudo que eles representaram. E vão jogar sabendo que cada ponto é o último naquele lugar.
Poucos de nós vivemos qualquer coisa com essa clareza. A maioria das despedidas da vida acontece sem aviso. A última vez que você viu seu filho de um jeito específico, você não sabia que era a última vez.
A aposentadoria do atleta começa a mexer com o pai muito antes de acontecer.
Isso é o que ninguém te conta quando você entra nessa vida de pai de atleta. Você acha que o momento difícil vai ser quando ele parar. Mas o aperto começa antes. Começa quando você percebe que o tempo está correndo. E é exatamente aí que dá pra escolher estar presente de verdade.
Onde o filho está agora
O pai de atleta vive puxado pro futuro. O próximo torneio, a próxima categoria, o próximo ranking. No carro voltando da competição, a cabeça já está no fim de semana seguinte.
Não é falta de amor. É investimento demais no resultado e atenção de menos no momento. Tanto foco em onde o filho vai chegar que fica difícil ver onde ele está. E onde ele está é exatamente onde o pai pode estar também, inteiro, sem agenda.
Quando Wawrinka e Monfils entrarem em quadra em Paris, não vai importar o ranking deles hoje. Vai importar o que aquele momento significa. A pergunta que vale levar pra casa é: qual é o próximo momento com meu filho que eu quero viver inteiro?
Algumas coisas que qualquer pai de atleta vai reconhecer:
- O jogo tem prazo de validade. Todo atleta para um dia. Você sabe disso racionalmente, mas não sente isso até precisar sentir.
- Cada fase avançada é também uma despedida. Quando ele passa de categoria, quando ele vai para outro país, quando ele vence o primeiro torneio importante, algo anterior a isso fica para trás para sempre.
- A memória que fica não é do resultado. Anos depois, o que você vai lembrar é de como estava o céu naquele dia, do cheiro de saibro, de como ele olhou pra você antes de entrar em quadra. Não do placar.
- Presença é uma decisão ativa. Não acontece por acidente. Você precisa escolher estar ali de verdade, sem o celular, sem a análise tática, sem a preocupação com o próximo torneio.
- O filho atleta vai seguir em frente. É para isso que você está trabalhando. E quando ele seguir, o que fica é a alegria de ter caminhado junto.
O que Roland Garros está nos mostrando
Existe algo que grandes torneios fazem de tempos em tempos que eu acho mais honesto do que a maioria das coisas no esporte profissional: eles reconhecem o fim. Não fingem que não existe. Não desviam o olhar. Dão um wildcard, abrem a porta e dizem: entre mais uma vez, com dignidade.
Isso é raro. No esporte amador, no tênis de formação, no dia a dia de um jovem atleta, raramente existe esse ritual de encerramento. As coisas simplesmente param. O menino para de competir, a vida segue e ninguém marca a despedida com a devida solenidade.
Talvez caiba ao pai fazer isso. Não esperar que o esporte organize o encerramento. Criar os próprios rituais de reconhecimento ao longo do caminho, para que quando o fim chegar, ele não seja só despedida. Seja também celebração do que foi.
Meu filho mais velho tinha seis anos quando viu Monfils pela primeira vez. Hoje está construindo a própria história num país diferente. Entre esses dois pontos cabe uma quantidade absurda de momentos. E a parte boa é que eles continuam acontecendo, agora de outro jeito.
O momento que importa é o próximo. E esse dá pra viver inteiro.
O tempo que ainda tem
Wawrinka e Monfils vão entrar em Roland Garros sabendo que é a última vez naquele palco. Essa consciência, por mais dolorosa que seja, é também um presente. Ela força a presença total. Não tem como estar distraído quando você sabe que é o fim.
O pai de atleta raramente tem essa clareza. Você não sabe quando vai ser a última vez que ele vai precisar de você na arquibancada. Não sabe quando vai ser a última viagem juntos para uma competição. Não sabe quando a dinâmica entre vocês vai mudar de uma forma que não tem volta.
Por isso a pergunta não é sobre o futuro. É sobre agora: o que você está fazendo com o tempo que ainda tem?
Esse é um dos temas que trato em Ponto a Ponto, meu livro sobre paternidade no esporte. Não porque eu tenha todas as respostas. Porque as perguntas certas mudam a relação entre pai e filho.
Perguntas frequentes
Como lidar com o aperto no peito quando o filho avança de fase no esporte?
Reconheça que sentir isso é legítimo, não é fraqueza. Cada fase avançada é real do ponto de vista emocional: algo anterior ficou para trás. O que ajuda é criar pequenos rituais de reconhecimento, uma conversa, uma memória registrada, qualquer coisa que marque o que foi antes de seguir adiante.
Como mudar o jeito de acompanhar meu filho atleta a partir de agora?
Comece no próximo treino. Faça perguntas sobre como ele se sente antes de analisar o desempenho e aprenda a distinguir o momento em que ele quer análise do momento em que ele só quer ser ouvido. A mudança não precisa ser anunciada, só precisa acontecer.
Como preparar meu filho para a aposentadoria esportiva sem deixá-lo ansioso?
Não comece pela aposentadoria. Comece construindo uma identidade fora do esporte desde cedo, interesses, amizades, referências que não dependam do resultado em quadra. Quando o atleta tem outras dimensões da vida funcionando, o fim da carreira esportiva é uma transição, não um colapso.
É normal sentir tanta saudade quando o filho vai para o esporte de alto rendimento em outro país?
É completamente normal e mais comum do que os pais admitem em voz alta. O que você está sentindo é a tensão entre dois amores simultâneos: o amor que quer que ele cresça e o amor que quer que ele fique perto. Os dois são verdadeiros. Nomear isso para si mesmo já alivia parte do peso.
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