edição #10 · 02 de julho de 2026 · edição especial
Pais educam filhos. Mas quem educa os pais?
Eu levantei a mão numa reunião de pais e pedi pro técnico educar o meu filho no meu lugar. Demorei anos pra perceber.
Essa conversa costuma chegar no domingo de manhã. Aquela semana ela chegou na sexta, e eu devia a explicação.
O domingo era aniversário da mulher que segura essa família há quase três décadas. E ainda tinha jogo do Brasil. Eu ia estar de avental, cuidando do almoço, com a casa cheia. Então a newsletter veio mais cedo, porque entre escrever sobre família e estar com a família, dessa vez eu escolhi certo.
E olha o tema da edição. Não foi de propósito, eu juro.
O meu mais velho devia ter uns treze anos. Reunião de pais na academia, planilha de torneios na mesa, o técnico explicando a periodização do semestre. Em algum momento eu levantei a mão e pedi pra ele apertar o meu filho na questão da pontualidade, porque ele estava se atrasando pras coisas e não estava nem aí.
O técnico anotou. Educado, profissional. Disse que ia conversar com ele.
Eu saí da reunião satisfeito. Demorei anos pra entender o que tinha acabado de acontecer naquela sala: eu tinha pedido pra outro homem educar o meu filho. Não treinar. Educar. Pontualidade não é fundamento de tênis. Pontualidade é respeito pelo tempo dos outros, e isso se ensina em casa.
E eu estava terceirizando sem perceber, porque a terceirização tinha cara de envolvimento. Eu estava na reunião, não estava? Estava pagando, acompanhando, cobrando. Eu era um pai presente. Presente e terceirizando. As duas coisas juntas. Essa é a armadilha.
Içami Tiba escreveu Quem Ama, Educa! quando meu filho mais velho nem existia. Foi o livro mais vendido do Brasil em 2003. A tese cabe numa frase: escola ensina, quem educa é a família. O núcleo ético de uma criança, o limite, a tolerância à frustração, o respeito, se forma dentro de casa, por repetição e por exemplo.
Tiba mirava a família que empurra tudo pro colégio. Mas pai de atleta tem um cardápio inteiro de terceirização à disposição. A frustração vai pro psicólogo esportivo. O respeito vai pro regulamento. E os valores, a parte mais profunda, a gente entrega pra uma frase que todo pai de atleta adora repetir: o esporte forma o caráter.
Passei anos repetindo essa frase. Hoje acho ela a mais conveniente das mentiras que a gente conta pra si mesmo. O esporte não forma caráter. O esporte revela e amplifica o caráter que a casa formou. Se o esporte formasse caráter sozinho, não existiria atleta profissional mal educado. A lista de exemplos em contrário está nos jornais toda semana.
O Tiba responde a primeira pergunta com uma clareza que incomoda: quem educa os filhos é a família. Só que tem uma segunda pergunta que o livro deixa ecoando, e essa me incomodou mais. Se a educação do filho é minha, quem me educou pra isso?
Ninguém. A escola me ensinou matemática. A faculdade me formou engenheiro. Pra profissão eu tive professor, estágio, chefe, certificação. Pra função mais difícil e mais permanente da minha vida, nada. A gente assume o cargo de pai sem um dia de treinamento, e o único manual que recebe é o exemplo dos próprios pais, gravado trinta anos antes, pra um mundo que não existe mais.
Fazendo a minha lista honesta de quem me educou como pai, ela tem quatro linhas. Os meus erros, que foram muitos e alguns caros. A terapia. Os livros, lidos tarde, este do Tiba incluído. E, na linha mais importante, os meus próprios filhos. Filho é a única escola de pais que dá aula todos os dias. E a maioria de nós mata a aula olhando o placar.
No texto completo do blog eu conto o que sobrou dessa auditoria: as três coisas que nenhum técnico, nenhuma federação e nenhuma escola vão ensinar ao seu filho, porque são intransferíveis. Perder com dignidade. Escolher por si. E decidir a hora de parar.
Antes de fechar, o exercício da semana, que eu recomendo e aviso que dói: escreve numa folha o que você espera que o técnico, o clube ou o psicólogo ensinem ao seu filho este ano. Depois marca, item por item, o que é fundamento de esporte e o que é fundamento de gente. A segunda coluna é sua. Sempre foi.
a leitura desta edição
Pais educam filhos. Mas quem educa os pais?
Içami Tiba escreveu em 2002 que educar filho não é trabalho da escola, é da família. Pai de atleta tem uma armadilha a mais: terceiriza a formação não só pro colégio, mas pro técnico, pro psicólogo do clube, pra federação. Eu fiz isso durante anos sem perceber.
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