Ponto a Ponto

edição #17 · 22 de agosto de 2026 · edição especial

Inverta: Acrescente vida aos seus dias!

Não é burrice nossa. É que o urgente grita e o importante fala baixo. Sobre o que um pai pensa quando tudo fica difícil, e sobre um palhaço de hospital que nunca conseguiu dar um dia a mais pra ninguém.

Por quatro anos, o Pedro Salomão entrou em hospital vestido de palhaço. O nome dele lá dentro era Dr. Baguete.

Pensa no que é esse trabalho.

Ele chega num quarto onde tem uma criança doente e não tem nada pra oferecer que resolva aquilo. Não traz remédio. Não traz resultado de exame. Não traz um dia a mais.

Ele traz a tarde.

Enquanto ele está ali, aquele quarto para de ser um quarto de hospital. Vira outra coisa por vinte minutos. E quando ele sai, o exame continua o mesmo, o tratamento continua o mesmo, e a criança teve uma tarde que ela não teria tido.

E foi ele que me disse, hoje: não é acrescentar dias à vida, é acrescentar vida aos dias.

Na boca de quase qualquer pessoa isso é frase de camiseta. Na boca de quem passou quatro anos fazendo criança rir dentro de hospital, é descrição de ofício.

Depois eu fui atrás e descobri que a frase é mais velha que ele. Nasceu com Cicely Saunders, uma inglesa que foi enfermeira, depois assistente social, depois médica, e que criou o jeito de cuidar que hoje se chama cuidados paliativos: olhar pra pessoa inteira, e não só pra doença.

Ela também não estava fazendo poesia. Estava descrevendo o serviço.

Por que ela me pegou justo hoje

O Lito Souza foi diagnosticado com uma doença rara.

Se você não conhece, o Lito é especialista em aviação e criou o Aviões e Músicas, um dos canais mais queridos da internet brasileira.

Eu trabalhei com ele alguns anos atrás. Passamos uma tarde inteira juntos, e foi uma tarde que ficou em mim.

Por isso eu fiquei realmente chateado quando soube. Não é notícia de alguém que eu acompanho de longe. É de um cara com quem eu já trabalhei lado a lado.

E tem uma coisa que eu não consigo tirar da cabeça

O Lito é pai de um menino de sete anos.

Tudo é muito difícil pra ele neste momento. Não me cabe imaginar o tamanho, e eu não vou fingir que sei.

Mas eu ouso dizer uma coisa: o que ele mais pensa não é nele. É no menino.

Eu não preciso conhecer a rotina dele pra ter certeza disso. Qualquer pai sabe. Você bota um homem na situação mais difícil da vida dele e a primeira coisa que aparece na cabeça é o filho.

É isso que a gente é

E eu fico pensando que essa é a resposta mais honesta pra uma pergunta que eu me faço há anos, sem nunca ter conseguido responder direito: o que é mesmo que a gente está fazendo aqui.

Porque no meio da semana a gente se distrai.

A gente briga com o resultado. Com a chave que veio difícil. Com o técnico que não olhou. Com o ranking que não anda, com a arbitragem, com o menino que não fez o que a gente falou pra fazer no treino de terça.

E aí acontece uma coisa dessas e fica escancarado que nada daquilo era o assunto.

Repara que ninguém precisa te explicar isso. Você já sabe. Todo pai já sabe, o tempo inteiro, no fundo, e mesmo assim passa a semana discutindo a chave.

Não é burrice nossa. É que o urgente grita e o importante fala baixo.

A parte boa dessa frase

A frase do Pedro tem uma vantagem prática que eu acho pouco comentada.

Acrescentar dias não está na mão de ninguém. Nem dele, nem minha, nem sua, nem do médico.

Acrescentar vida aos dias está. E está hoje.

Não custa dinheiro. Não pede autorização. Não depende do resultado de domingo, do ranking, da federação nem de sorte.

É chegar mais cedo e almoçar junto antes da chave. É ficar depois em vez de sair correndo. É perguntar dele alguma coisa que não seja o jogo. É deixar ele escolher a música na volta.

É a tarde.

O fecho

O Dr. Baguete não conseguia dar um dia a mais pra criança nenhuma. Ele nunca conseguiu, nem uma vez, e mesmo assim entrou naquele hospital por quatro anos.

Porque um dia a mais não estava com ele. A tarde estava.

A gente também não sabe quantos dias tem. Ninguém sabe, e essa parte nunca esteve sob controle de ninguém.

Mas o domingo é nosso. E o que vai caber dentro dele, hoje, você decide.

a leitura desta edição

Kei Nishikori se aposenta. E eu pensei no meu filho.

A aposentadoria de Nishikori levantou uma pergunta que me incomoda há anos como pai: quando o tênis acabar, quem é o meu filho?

ler no blog →