Ponto a Ponto

11 de julho de 2026 · 7 min de leitura

Cuidado com o que você pede

Zverev foi número um do juvenil. Sinner nunca jogou um Grand Slam da categoria. Os dois na final de Wimbledon. Ninguém me avisou do que acontece quando o filho finalmente quer de verdade: o desejo vira dele, a conta vira sua.

por Eder Miranda

Homem de meia-idade sozinho à mesa da cozinha à noite, sob uma lâmpada quente, fazendo contas num caderno com uma calculadora e papéis espalhados. Ao fundo, no escuro, uma raquete de tênis encostada na parede.

Hoje, na final de Wimbledon, jogaram dois caras que fizeram tudo ao contrário um do outro.

Um foi número um do mundo no juvenil. Campeão do Australian Open da categoria aos 16 anos, eleito campeão mundial juvenil da ITF. Saiu do juvenil com o troféu na mão e nunca mais voltou. Filho de treinador, irmão profissional, tênis dentro de casa desde que nasceu. Esse é o Zverev.

O outro nunca jogou um Grand Slam juvenil na vida. Nenhum. O melhor ranking dele na categoria foi 133 do mundo, e ele sequer entrou na chave principal dos torneios grandes do circuito juvenil. Aos 7 anos era campeão nacional de slalom gigante, esquiava. Filho de cozinheiro e de garçonete, criado num refúgio de montanha. Escolheu o tênis aos 13, e escolheu sozinho: fez a mala e foi morar em Bordighera, do outro lado da Itália, pra treinar com o Piatti. Aprendeu a jogar disputando set com profissional no treino, não colecionando troféu de juvenil. Esse é o Sinner.

Hoje o Sinner ganhou. 6/7, 7/6, 6/3 e 6/4. Bicampeão de Wimbledon, aos 24 anos.

E o Zverev perdeu. Mas cinco semanas atrás, em Paris, ele levantou o primeiro Grand Slam da vida dele. Aos 29 anos. Depois de perder três finais de Grand Slam antes dessa. Doze anos entre o troféu de juvenil e o troféu que ele realmente queria.

Os dois chegaram. Por caminhos que não se parecem em nada.

E ainda tem o terceiro caminho, esse que a gente aqui no Brasil trata como plano B: a universidade. O Ben Shelton passou dois anos jogando pela Flórida, ganhou o NCAA em 2022 e só então virou profissional. Entrou atrasado no circuito, pela régua que a gente usa nas conversas de arquibancada. Hoje é top 5 do mundo.

Juvenil forte. Juvenil nenhum. Universidade. Três rotas, três caras no topo.

O calendário que eu inventei

Eu demorei demais pra entender isso, e o meu filho mais velho pagou a conta da minha demora.

Eu tinha um calendário na cabeça. Não era um calendário de verdade, era pior: era um calendário inventado, feito de comparação. Se na categoria 14 ele não estivesse pontuando em ITF, estava atrasado. Se o filho de outro pai foi pro torneio na Argentina e o meu não foi, estava atrasado. Eu não olhava pro meu filho. Eu olhava pro cronograma que eu tinha montado sozinho, no meu quarto, e cobrava dele o atraso de uma agenda que ele nunca assinou.

Aquilo não formou atleta nenhum. Aquilo formou silêncio no carro na volta pra casa.

A rota não transfere nada

O Sinner não aprendeu a ganhar em torneio juvenil. Ele aprendeu a ganhar na neve, descendo uma montanha contra o cronômetro, decidindo sozinho dentro da curva, sem ninguém pra culpar. O Zverev aprendeu a ganhar batendo em todo mundo da idade dele, semana após semana, com o pai do lado. O Shelton aprendeu a ganhar jogando pela camisa de uma faculdade, com o time inteiro gritando atrás da grade. Ambientes que não têm nada em comum. Competência idêntica: os três sabem competir. Sabem resolver o ponto que decide.

E aqui eu preciso separar duas coisas que parecem a mesma coisa e não são. Vitória não é troféu. A régua nunca foi o troféu, e continua não sendo. Vitória é a competência de disputar: sustentar a bola no ponto que pesa, não desabar quando o jogo vira, achar um jeito de ganhar no dia em que a mão não está boa. É isso que se carrega de um caminho pro outro, de um esporte pro outro, da neve pra grama. O troféu é consequência. E às vezes a consequência demora doze anos, como demorou pro Zverev.

Se o seu filho aprende a competir, ele acha um caminho. Se ele não aprende, caminho nenhum salva: nem o melhor calendário de ITF, nem a melhor academia da Espanha, nem a melhor bolsa universitária dos Estados Unidos.

Então da próxima vez que alguém te disser, com toda a segurança do mundo, que o caminho é esse, que tem que ser assim, que se ele não jogar tal torneio nessa idade acabou, lembra da final de hoje. Um número um do juvenil e um esquiador que nunca pisou num Grand Slam da categoria. Os dois na final de Wimbledon. Os dois campeões de Grand Slam neste ano.

Não existe o caminho certo. Existe o melhor caminho pra cada pessoa. E o do seu filho é diferente do caminho do filho do outro pai, porque o seu filho é uma outra pessoa. Descobrir qual é o dele dá muito mais trabalho do que copiar o do vizinho, porque copiar não exige que você olhe pro seu filho, e olhar pro seu filho é a parte difícil.

Cuidado com o que você pede

Mas se você me perguntar, depois de tudo o que eu errei, o que eu de fato quero, não é troféu, não é ranking, não é bolsa em universidade americana. É que ele queira alguma coisa de verdade. Que o desejo seja dele, não meu.

Cuidado com o que você pede.

Porque eu consegui. Ele quer. Quer com uma clareza que eu não tinha na idade dele. E quer uma coisa tão improvável e tão cara que tem dia em que eu faço a conta e sinto falta de ar.

Aconteceu uma inversão que ninguém me avisou. Enquanto o desejo era meu, a cobrança era dele: eu empurrava, ele carregava, e o mundo inteiro me chamava de pai exigente. Agora o desejo é dele. E a conta é minha. Não depende mais de ele querer, ele já quer. Depende de eu conseguir. Passagem, academia, treinador, os meses em que não entra um euro, o próximo ano, o ano depois desse. E eu não posso falhar.

Falhar não é ficar sem dinheiro. Falhar é olhar pra ele e dizer: filho, até aqui o pai conseguiu. Isso eu não consigo nem imaginar dizendo.

E essa é a armadilha que eu mesmo construí, tijolo por tijolo. Eu criei esse menino dentro da ideia de que o pai dele resolve. Eu fui o super homem do quarto dele. Eu gostei de ser. Só que super herói não falha, e eu me vendi como quem não falha, e agora eu tenho que ser aquilo que eu inventei pra ele acreditar.

E não pense que isso é sobre tênis

Nunca foi sobre tênis.

Se o seu filho chegar em casa amanhã e disser que quer ser médico, é a mesma conta. Cursinho, seis anos de faculdade, residência depois, e ele com quase trinta anos ainda dependendo de você. Se disser que quer ser engenheiro, mesma coisa. Se disser que quer ser músico, é pior, porque aí nem a conta você consegue prever. Muda o nome, a estrutura é idêntica: no dia em que o desejo do seu filho vira de verdade, ele deixa de ser sonho e vira projeto. E projeto tem custo, tem prazo e tem alguém que assina embaixo. Quem assina embaixo é você.

Ninguém prepara pai nenhum pra essa parte. Preparam a gente pra torcer.

Minha mãe morreu aos 39 anos. Eu tinha 18. E ela repetia uma frase que eu só fui entender agora, com um filho morando na Espanha e uma planilha aberta na tela: “faço tudo pra você estudar.” Tudo. Eu, moleque, achava que era só jeito de mãe falar. Não era. Ela estava me dizendo, calada, o tamanho da conta que ela tinha assumido sozinha. Ela também não podia falhar. Era amor, mas era amor com boleto.

Quer dizer que eu não inventei nada. Eu só estou na vez.

O ponto que fica

Não tenho conclusão bonita pra essa. Eu escrevo aqui do lugar de quem ainda está no meio.

O que me pegou hoje, vendo dois caminhos opostos darem no mesmo lugar, não foi a rota de nenhum dos dois. Foi lembrar que atrás de cada um daqueles dois caras teve uma casa fazendo conta, um pai sem saber se ia dar, um desejo de menino custando caro pra alguém que nunca vai aparecer na foto do troféu.

Encontre o caminho do seu filho. E depois se prepare, porque ele vai cobrar de você um caminho também.

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