edição #02 · 09 de maio de 2026 · edição especial
Papai, por que você chora toda vez?
Sobre a visita à Ferrero Academy, e a pergunta que o Thomas me fez no terceiro dia.
Eu peguei um voo de São Paulo até Madri, depois de Madri até Alicante, aluguei um carro e rodei mais quase uma hora numa estrada árida no meio da Espanha. Vinte horas de viagem para chegar à Ferrero Academy. Lá, me disseram que ele estava na quadra 3.
Quando vi o Thomas, ele estava mais alto, mais forte, mais maduro. Falava espanhol fluentemente com o treinador. Fiquei parado, admirado. Na primeira pausa ele veio e me abraçou.
E eu chorei.
Chorei ali mesmo, na frente de todo mundo. Thomas ficou sem jeito.
“Papai, que foi?”
“Nada, filho. Só saudade.”
Mas não era só saudade. Era o choque de perceber que meu menino havia se tornado um homem longe de mim.
Durante toda aquela semana, eu chorava toda vez que via Thomas. De manhã, quando ele pedia a bênção. Quando me mostrava as quadras. Quando contava da rotina, dos colegas, dos sonhos com a naturalidade de quem sabe exatamente onde quer chegar.
No terceiro dia, ele me puxou para um canto:
“Papai, por que você chora toda vez?”
A pergunta me quebrou.
Como você explica para um filho de 17 anos que está morrendo de orgulho e de medo ao mesmo tempo? Que realizou o sonho dele, mas perdeu um pedaço de si no processo? Respirei fundo e decidi ser honesto.
“Filho, eu choro por três motivos.”
Primeiro, eu choro de orgulho. Quando você chegou aqui pela primeira vez, me ligou e disse: “Papai, eu estou no meio do nada, num quartinho pequeno, longe da minha família e dos meus amigos, porque eu realmente quero ser jogador profissional.” Naquela ligação, eu entendi que você havia amadurecido de uma forma que eu não esperava.
Segundo, eu choro porque essa carreira é de tudo ou nada. Não tem glamour em ser o número 200, 300, 500 do mundo. Você precisa ser elite, jogar Grand Slams, para viver do esporte. É uma pressão gigantesca. E eu sei que você sente isso todos os dias.
E terceiro… eu choro porque tenho medo. Tenho medo de não conseguir sustentar isso tudo.
Essa é a página 72 do livro. O capítulo se chama “A síndrome do ninho vazio”. E é a parte que eu mais demorei pra escrever, porque pra escrever eu precisava admitir que tinha sentido as três.
PS. Dessas três lágrimas, qual delas você reconhece em você? Algumas dessas respostas, com autorização, viraram conteúdo no Instagram porque é assim que essa história continua circulando: leitor por leitor, pai por pai.
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