Guia de sobrevivência para pais de atletas
O Climão no Carro
O que fazer nos 20 minutos mais perigosos da semana: a volta pra casa depois da derrota.
Por Eder Miranda, do livro Ponto a Ponto · leitura de 5 minutos
Eu estraguei mais voltas pra casa do que consigo contar.
Meu filho perdia, entrava no carro ainda de uniforme, suado, cabeça baixa. E eu, no volante, começava a análise. A bola que ele errou no set point. O saque que ele insistiu. O ponto que ele jogou com raiva. Eu chamava aquilo de conversa. Era interrogatório.
A conta que me assustou
Faz uma conta comigo. Um torneio por mês, 20 minutos de carro na volta. São umas 12 voltas por ano. Eu fiz isso por quase 8 anos. Quase 95 voltas pra casa. E eu perdi quase todas.
O que eu não entendia
O carro, na volta da derrota, não é sala de aula. É enfermaria. O menino acabou de perder. Ele não precisa de um analista. Ele precisa de um pai.
Eu fazia quatro coisas erradas, sempre as mesmas:
- Puxava o assunto do jogo antes dele.
- Corrigia técnica com ele ainda quente.
- Comparava com o adversário ou com outro dia.
- Enchia o silêncio, porque o silêncio me incomodava mais do que a ele.
A frase que me acordou
Um dia, depois de eu falar sem parar por 10 minutos, meu filho olhou pela janela e falou baixinho: "Pai, eu só queria um lanche."
Foi aí que caiu a ficha. Enquanto eu resolvia a minha ansiedade, ele só queria ser criança de novo por um segundo.
O protocolo da volta pra casa
1. Os primeiros 10 minutos são dele, não seus.
Não puxa o jogo. Sua frase de abertura é uma só, e não é sobre tênis:
"Que bom te ver. Tá com fome?"
2. Deixa o silêncio existir.
Se ele não falar, não força. Liga uma música que ele gosta. O silêncio ao lado de quem te ama é diferente do silêncio de quem te julga.
3. Se ele trouxer o jogo, você escuta. Não corrige.
Ele vai reclamar de um ponto, de um juiz, de si mesmo. Sua função não é consertar. É acolher:
"Deve ter sido frustrante. Me conta."
4. Técnica não se fala no carro. Nunca.
Backhand é assunto do treinador, no treino, com raquete na mão. Se você tem uma observação, guarda pra segunda e passa pro treinador. No carro, você é pai.
5. Fecha com o que não depende do placar.
Antes de chegar em casa, uma frase que separa o amor do resultado:
"Ganhando ou perdendo, eu gosto de ver você jogar."
Fala isso depois de uma derrota e olha o que acontece com a cara dele.
Criança que perdeu precisa de colo,
não de palestra.
Isso aqui é uma cena
O livro é a temporada inteira: a barriga embrulhada na arquibancada, a vontade de gritar com o juiz, a culpa de ter cobrado demais, e o caminho de volta que eu levei anos e muita terapia pra encontrar.
Se essa volta pra casa é a sua também, o Ponto a Ponto foi escrito pra você.
— Eder Miranda, pai de três, autor de Ponto a Ponto
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